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Os pássaros voam...


Autoria:

Danilo Santana


Advogado, OAB 32.184 MG, graduado em Direito pela PUC-MG, membro efetivo do Instituto dos Advogados. Especialização em Marketing Internacional e Pós-Graduação em Direito Público. Professor de Direito Empresarial e autor literário.

Resumo:

Na beleza da natureza os pássaros, nascem, crescem e voam...

Texto enviado ao JurisWay em 16/02/2007.

Última edição/atualização em 25/07/2016.



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Ainda era tardinha quando do alto da varanda do meu quarto, olhando a longa e florida árvore de ipê, tão próxima das minhas mãos, no seu galho mais frágil, notei uma formação estranha que havia se iniciado com meia dúzia de fiapos de capim, misturados com fibras de folhas secas entrelaçadas por brancos e acetinados flocos de paineira. Me perdi por minutos imaginando se seriam os ventos do outono, por mera coincidência, que haviam conseguido levar aqueles tantos e variados fragmentos até àquelas alturas, e os reunido com a aparência tão perfeita de uma pequenina cama forrada de cetim.

Depois, concluí que a natureza, vigorosa e imprevisível, é capaz de construir imensos desertos e infindáveis florestas; belíssimas praias e profundos oceanos; incríveis montanhas e vales de sonhos, todos igualmente intrigantes, além de uma vida borbulhante por todos os lados da nossa existência, portanto, não havia mistério. Apenas, uma soma de coincidências criava um novo e belo desenho a enfeitar a árvore mais bonita do meu jardim, cujos galhos, amigos, avançavam sobre a minha varanda.

Quando a noite chegou, provavelmente, ainda embalado pela percepção dos dotes da natureza, voltei a procurar por aquele minúsculo ponto claro, entre as folhas, e tive a nítida impressão de que havia alguma alteração na sua forma, o que, claro, poderia ser explicado pelo reflexo morno da luz da lua que já se levantava ao leste.

Nos dois dias seguintes nada percebi e, portanto, meus dias foram rotineiros, sem sequer notar as cores da alegria; os ruídos da vida e nem mesmo o calor das almas que permeiam os nossos momentos e que, só por isso, já justificariam, com sobras, todos os sorrisos que nem sempre despendemos.

Mas, foi no terceiro dia, quase que de surpresa, que me certifiquei de que a natureza havia construído algo muito especial. Não era propriamente obra do vento, mas, maravilhosamente, era o resultado de um árduo trabalho de dois pequenos pássaros, anônimos, que atendendo à sua programação primitiva, construíam um modesto, mas confortável ninho, no qual poderiam depositar os seus ovos e cumprir a profecia da preservação da espécie.

Perdi, ou ganhei, muitos minutos ali, contemplando a evolução da vida, sentindo o mundo crescendo e se desenvolvendo ao meu lado. Àquela altura não só o ninho tinha dimensões e forma delineadas, mas as folhas do ipê também se multiplicavam, e criavam uma cortina espessa de proteção que, ao mesmo tempo se misturavam e se transformavam em um inusitado suporte sólido, entrelaçando e fortalecendo aquele novo e abençoado lar.

Foram belos dias, semanas até, em que adotei o saudável hábito de, do canto da minha varanda, todas as manhãs e, tanto quando possível também à noitinha, acompanhar a evolução do ninho e admirar a notável cumplicidade dos seus construtores.

Um dia, depois de uma chuva mais forte, com o coração apreensivo, levantei mais cedo e fui conferir os eventuais estragos que o vento e a água abundantes pudessem ter causado naquela tão delicada obra. Fiquei surpreendido de ver que uma das aves, completamente encharcada, com as asas semi-abertas, como que protegendo da água toda a pequenina construção, ainda estava sobre o ninho.

De pronto não consegui imaginar o que poderia fazer para dar fôlego àquela admirável determinação e demonstração de força do pássaro que teimava em desafiar as intempéries naturais, alheia aos ventos e às águas que lhe escorriam pelas penas. Contudo, de repente, outra surpresa me deixou mais perplexo ainda. O outro pássaro, como que um soldado da guarda imperial, mais molhado que o primeiro, também estava ali, ao lado, solidário, aguardando a sua hora para cumprir o sagrado dever de revezamento.

Imediatamente reconheci a minha insignificância, a minha fraqueza e a minha mais completa ignorância diante do vigor, da força e da competência da natureza, e deixei a minha varanda, feliz, mas atordoado. Havia adquirido um conhecimento novo, e experimentado um sentimento diferente, pela via da mais dura realidade da natureza.

Alguns dias se passaram e eu me recusava a chegar até à varanda, queria me abstrair do que se passava, tinha vergonha de confrontar o calor do meu conforto com o frio e a umidade que grassava o ínfimo espaço que possuía o casal de pássaros. Entretanto, ao vislumbrar, ao longe, ainda meio tímida, uma pequena réstia de sol, me animei. Era um bom sinal, talvez ainda fosse possível que os meus vizinhos, ocupantes do pequeno galho do meu ipê, ainda estivessem vivos, e pudessem se recuperar e sobreviver.

Então, um pouco ressabiado, como quem quer e não quer, fui chegando até à varanda, olhei de soslaio, depois, mais diretamente, e já não vi nenhum dos pássaros cobrindo o ninho. Fiquei decepcionado, e resolvi chegar mais perto para conferir. Quando afastei alguns ramos, pude observar um movimento, era uma nova vida, ávida por alimento, que ao menor ruído da vegetação lateral, abria o bico, às escâncaras, enquanto piava, simultaneamente. Um filhote, vivo, apesar de tudo.

Eu queria ajudar, mas não foi necessário, os donos do ninho chegaram, agressivos, me expulsaram das imediações. Estavam recompostos e secos, cada um trazia um inseto no bico, e o filhote se acalmou.

Na manhã seguinte, um dia de sol, claro e quente. E eu, na minha visita rotineira, vi que o filhote já havia saído do ninho, ensaiava alguns movimentos de asa, mas ainda não voava. Circulava pelos galhos e voltava para o ninho, depois saia novamente, ansioso, querendo voar, mas, o galho era alto e as asas ainda eram curtas.

Durante três manhãs eu o vi repetir os mesmos gestos e treinamentos. Agora, já mais confiante, pulava de um galho para o outro, e já não conseguia ficar no ninho. Então, pude observar que os seus pais estavam do lado, na árvore mais próxima e, insistentes, assobiavam uma cantilena repetitiva e estimuladora. Só então tive certeza de que aquele era um ritual de iniciação, era hora do pequeno filhote tomar o seu caminho, ganhar os ares, se tornar livre e independente.

Foram três as tentativas, duas frustrantes; o jovem batia as asas, mas não conseguia soltar suas pequenas garras do galho que o suportava. Estava inseguro, é claro. Contudo, na terceira, tal como os adultos, abriu completamente as asas, estufou o peito, recolheu os pés e se soltou no ar. Prendi a respiração, temi que o filhote não conseguisse voar, e se arrebentasse no concreto ou caísse na piscina. Mas minha angústia durou pouco. Em meio aos assobios dos pássaros pais, e sob os olhares de várias outras aves que assistiam àquele momento único, o filhote venceu o medo, cruzou os ares e, com a imponência de majestade absoluta, visitou outras árvores e se juntou aos demais em uma volta triunfal pelas redondezas.

Não o vi mais, pelo menos não ali, naquele ninho, no galho mais escondido do meu ipê amarelo. Bem, talvez até já o tenha visto, em meio aos demais, porém, sem reconhecê-lo. Meses são passados, e todas as manhãs ainda mantenho o hábito de conferir o velho ninho, agora sem vida, roto e abandonado, em vão. Às vezes me atinge uma leve frustração, como que se faltasse algum pedaço do meu eu, mas, depois, ouço um alvoroço no jardim ou, mais distante, um incessante cantar de pássaros felizes e livres, e então, resignado, me sinto um pouco mais confortado.

Até hoje um sentimento de abandono, vez por outra, ainda passa pela minha cabeça quando constato que minha varanda ficou mais pobre; já não os posso ver construindo o seu ninho ou sequer exercitando suas asas. Eles se foram, é verdade. Talvez até estejam pelos arredores, mas, já não faço parte das suas manhãs, e o filhote, embora nascido ali, bem ao meu lado, nem sequer freqüenta mais o meu ipê.

É... a vida é assim, faz parte da natureza. Os pássaros voam.

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Comentários e Opiniões

1) Leda (16/08/2009 às 09:47:57) IP: 201.34.32.88
que texto lindo.
2) Carmem (23/08/2009 às 15:19:29) IP: 189.92.7.72
Que bom que abri o arquivo e pude ler seu texto. Hoje é domingo e eu estava especialmente triste e as imagens sugeridas por suas palavras trouxeram-me o alento que eu precisava para reverter o quadro emocional. Obrigada por tudo, Carmem Lucia
3) Eliana (23/08/2009 às 17:29:17) IP: 201.42.210.152
Sensasional, parabéns, um lindo texto.
Não só os pássaros voam, mas nos teambém voamos e isso é necessário para que possamos crescer e vivermos outros Ipês.
Um grande abraço, e agradeço a oportunidade de ter compartilhado este lindo texto.
Eliana
4) Sirlei (24/08/2009/ (24/08/2009 às 08:16:16) IP: 187.5.134.112
Simplesmente maravilhoso...
5) Francisca (24/08/2009 às 09:13:39) IP: 201.8.246.110
Lindo, nem os pássaros querem perder a sua liberdade, imagine o ser humano, a vida está sempre se modoficado.
6) Raimundo Nonato Paixão Teixeira (24/08/2009 às 09:25:36) IP: 200.178.173.130
Uma Belíssima reflexão, a natureza a cada dia nos mostra as obras de DEUS, que graça termos a oportunidae de através do seu texto sentir a belesa da vida e, como aprendermos a respeitar a cada momento a criação Divina que nos mostra a verdade para a evolução da VIDA.
7) Leandro (24/08/2009 às 09:33:25) IP: 189.73.195.4
A vida é assim mesmo, os pássaros voam e os advogados recorrem.
8) Ande (24/08/2009 às 10:53:21) IP: 200.238.124.228
É, até nos animais, que são chamados de irracionais, Deus deu-lhes a liberdade de voar; e nós seres humanos, considerados racionais, também temos essa liberdade, com um agravante, respondemos por todos os nossos vôos e temos que suportar as consequencias.
9) Carlos Alberto (24/08/2009 às 11:28:04) IP: 189.71.86.125

Amigo;
Parabéns pelo comentário, infelizmente o aposentado
brasileiro não tem essa liberdade, porque suas asas
foram cortadas pelos governantes do País.
10) Lilica (24/08/2009 às 17:44:54) IP: 200.142.144.130
Belo texto, oportunizou-me uma saudosa viagem no tempo, com palatável e saborosa degustação de palavras.
11) Válter Alves Batalha (24/08/2009 às 19:40:59) IP: 201.82.248.104
Apaixonante, triste, sério, vibrante e verdadeiro como voam a pombas dos pombais. Um dia os pássaros voltam e nossos sonhos ao coraçao não voltam mais!
12) Amarair (24/08/2009 às 21:27:41) IP: 200.219.68.211
belo texto, mas infelizmente nem todos tem oportunidade
de dar um voar na vida, tamto ser humano de asas cortados pelo desafios da vida, que vida cheia de mudanças cheia de cobranças. mas não se desanime, voar e preciso.
13) Amarair (24/08/2009 às 21:30:30) IP: 200.219.68.211
belo texto, mas infelizmente nem todos tem oportunidade
de dar um voo na vida, tanto ser humano de asas cortados pelo desafios da vida, que vida cheia de mudanças cheia de cobranças. mas não se desanime, voar e preciso.
14) Fernando Neto (25/08/2009 às 08:17:07) IP: 201.8.249.43
Beleza a dissertação.
Parabéns.
Isso nos leva a verificar que a vida reside nessas pequenas coisas.
Nós seres humanos temos muito a apreender com os animais(irracionais)...
Mais uma vez parabéns pela o espetáculo apresentado.
15) Jussara Alves (25/08/2009 às 09:36:14) IP: 200.178.173.130
Nossa que maravilhoso!
È o olhar e as mãos de Deus em tudo ao nosso redor,e está ao nosso alcanse e não percebemos ou simplesmente deixamos de agradecer tão bela obra.
À vezes, não nos damos conta da beleza da natureza,nos preocupando com coisas pequenas da nossa vida.

Parabéns ao autor.
16) Maria Luiza (26/08/2009 às 08:56:34) IP: 189.10.238.234
Simplesmente maravilhoso! Me envolveu muito pq adoro pássaros. Parabéns pela sensibilidade!
17) Rosana (30/08/2009 às 17:17:41) IP: 201.11.151.182
Maravilhoso!! Retratei vida como mãe .A criação a perda e a esperança que ao sair do ninho , os filhos encontre um mundo maravilhoso e que possa voar livremente.
18) Belinha (30/08/2009 às 19:48:55) IP: 189.36.175.253
Achei Lindo!Me fez voltar no tempo.Quando Eu fui este pássaro
indefeso,e recebi acolhida de uma advogada; que apostou no meu potencial,Humano e Profissional(Assistente Social) que sou hoje.Atualmente perdemos o contato, mas,onde quer que esteja quero que saiba: sinto muito orgulho de ter sido Técnica sob a sua coordenação.Parabéns ao autor pela pessoa sensível que és.
19) Vagner Carvalho (01/09/2009 às 16:01:24) IP: 189.0.91.93
Tantos momentos bons passam a nossa frente porém somos escravos do relógio e não paramos para os observar. Parabéns pela sua mensagem, considere-se um privilegiado por ter observado como a mãe natureza nos reserva surpresas...
20) Inês Cristina (13/09/2009 às 17:16:46) IP: 189.83.89.29
Lindo texto. Uma bela mistura de observação do real com a sutileza da imaginação poética.
21) Ricardo Farias (14/11/2009 às 12:53:56) IP: 200.165.113.182
GRande Danilo. Que texto bonito!!`
É preciso ter muita sensibilidade para apreciá-lo.
22) José (23/06/2010 às 16:31:15) IP: 189.27.205.252
Parabéns colega pela excelente expressão de carinho pela natureza e pelos animais. Que sensibilidade o doutor possui. Também sou um amante desse universo maravilhoso,incluindo todo o amor pelos animais (nossos primos), no que pese a ação, muitas vezes, nefasta do bicho homem que polui, mata, destrói, etc. Escreve um livro, se já não o fez e depois me avisa para eu comprar. Você é um escritor nato. Outros pássaros, com certeza, construirão outro ninho em seu ipê e voarão. Abs. J.Nivaldo


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