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Vazamento de vídeo do jornalista Willian Waack e aspectos legais sobre crimes de preconceito racial


Autoria:

Rodrigo Machado Merli


Atualmente sou Diretor de Escola na rede Pública no Município de São Paulo/SP. Finalizando o 10º semestre do curso de Direito na Uninove. Pós Graduado em Didática do Ensino Superior (PUC-SP/SP)

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Resumo:

Da diferenciação entre os crimes de injúria qualificada ao crime de racismo. Devida tipificação após vazamento de imagens em rede mundial de computadores.

Texto enviado ao JurisWay em 26/11/2017.

Última edição/atualização em 06/12/2017.



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Rodrigo Machado Merli

Bacharelando em Direito



Vazamento de vídeo do jornalista Willian Waack e aspectos legais sobre crimes de preconceito racial

 

 

 

 

“A aceitação e o respeito a estas diferenças e pluralismo podem ser traduzidas como tolerância. Tolerância, portanto, é harmonia na diferença. (...) A educação para a tolerância é a forma de se evitar a exclusão derivada do preconceito ou da discriminação. A intolerância conduz à discriminação e à contenda.” (Declaração dos Princípios da Tolerância)[1]

 

 

 

 

Crime de Racismo

O presente ensaio, embora pareça oportunista, é antes de tudo oportuno. Não se pretende esgotar o assunto, mas apenas buscar entender um pouco mais sobre as tipificações penais relacionadas às práticas preconceituosas, entre elas uma difundida pelos canais de comunicação (rádio, televisão, mas, sobretudo a internet), direcionada ao jornalista da Rede Globo de Televisão, William Waack.[2]

Embora as mídias digitais (o Facebook e Twitter[3] têm se mostrado com grande força) tenham acirrado o debate sobre o tema racismo após o vazamento do vídeo[4] do jornalista William Waack[5], o assunto se faz presente e necessário discutir à exaustão.

São sinais que revelam que o preconceito em nosso país ainda existe, mesmo que de forma aparentemente velada.

Pesquisa realizada em 2009 aponta que cerca de 94% das pessoas em ambiente escolar ainda apresentam algum traço de preconceito étnico-racial.[6]

Por preconceito, Monteiro (1997, p.65) nos ensina que “é um estereótipo negativo consolidado. É um pré-julgamento categórico e desfavorável. É um molde que forja condutas e não se desfaz nem mesmo frente a provas contrárias estremes de dúvidas.”[7]

Temos na legislação penal dois crimes tipificados que merecem nossa atenção:

ü   Crime de racismo[8];

ü   Injúria preconceituosa ou qualificada[9].

 

Do crime praticado por brasileiro em território internacional

Como podemos ver no vídeo, a matéria se deu em solo territorial dos Estados Unidos da América.

Com base no princípio da nacionalidade, também conhecido como princípio da personalidade, todo e qualquer crime praticado por brasileiro em território internacional, aplicam-se nossas leis penais. Tal princípio, segundo Damásio de Jesus (2013, p. 163), “fundamenta-se em que o cidadão deve obediência à lei penal de seu país, ainda que se encontre no estrangeiro.”[10]

Portanto, independe do país ou mesmo de sua previsão legal local. Se o fato é tipificado como crime no Brasil, o agente que o causou responderá por isto.

 

O que nos aponta a Constituição Federal (prescrição e fiança)

A própria Constituição Federal já traz em seu dispositivo algumas menções sobre o tema, inclusive com um “peso” jurídico considerável ao tratar o tipo penal do racismo como inafiançável e imprescritível[11]. Mesmo que a Constituição Federal não tenha a natureza de disciplinar as ordens penais, reservando isso para lei ordinária especial, tal sejam o Código Penal e demais leis especiais, o legislador não pretendeu abrir mão de algumas condições perante alguns tipos penais, entre eles os crimes de natureza de racismo.

Já para a injúria preconceituosa o legislador constitucional não tomou o mesmo caminho, ou seja, é entendimento que este tipo penal é passível de fiança e prescrição.

 

Diferenciando o tipo penal (injúria preconceituosa e racismo)

Com isso, já começamos a entender que o primeiro ponto é justamente atribuir o tipo penal correspondente ao possível crime praticado, mesmo que em caráter de suposição, e observar suas demais nuances.

Por que isto?

Mesmo estando correta a tipificação em uma matéria jornalística, nos importa saber também se acertamos no tipo penal aos “olhos” do Direito.

Muitos são os casos em que atribuímos erroneamente uma prática delituosa em nosso cotidiano.

Para isso, podemos nos deparar com outros tipos penais que costumeiramente notamos confusões. Quando ouvimos alguém dizendo que foi roubado, ao conhecedor do Direito, em sua linguagem e tipificação, logo vem uma preocupação, pois tal crime (roubo) vem seguido de grave ameaça ou uso de violência. Neste ponto então, a vítima se refere ao episódio como “apenas ter sumido sua carteira da mochila enquanto estava no metrô”, sem perceber a autoria delituosa. Temos, portanto, a tipificação do crime de furto, por exemplo.

Para o legislador interessa saber, ou melhor, tipificar de maneira adequada cada conduta delituosa.

Então, voltando nossas atenções aos crimes de injúria preconceituosa (ou qualificada) e de racismo, percebemos que a forma, ou melhor dizendo, a quem se dirige a agressão, já diferencia um tipo penal do outro.

Basicamente, o que nos traz a doutrina e os casos julgados, quando uma pessoa ofende diretamente a outra em virtude de seu grupo étnico, temos aí caracterizada a injúria preconceituosa. Por outro lado, quando se dirige ao grupo étnico, generalizando em si a ofensa, entendemos que existe o crime de racismo.

Dois casos bem recentes em nossos noticiários trazem os dois tipos penais passíveis para nossa exemplificação.

O caso do jogador de futebol, o goleiro Mário Lúcio Duarte Costa, mais conhecido como Aranha[12], quando ofendido por parte da torcida, em 24 de agosto de 2014, com expressões pejorativas (“macaco”) denegrindo sua honra, podemos observar o que é tipificado como injúria preconceituosa.

Já, o mais recente caso atribuído ao jornalista Waack, citado inicialmente, ao analisarmos que sua fala atinge todo um grupo étnico (“tinha que ser preto”), tratamos do crime de racismo.

Por isso, expressões como “tinha que ser preto”, mesmo quando dirigidas para atitudes causadas por uma pessoa, denigre a imagem de forma generalizada a todo seu grupo.

Observamos então, que podemos ter atribuído inicialmente de forma correta como o jornalista se dirigiu não tão somente ao motorista.

Podemos também entender com isso que em uma única frase se pode praticar os dois crimes?

Caso a ofensa se dirija tanto à pessoa e depois se estenda ao seu grupo, podemos entender que sim.

Imagine a mistura hipotética das duas ofensas na frase ”você é um macaco, assim como todos da sua raça”. Isso acaba aparecendo de certa forma no próprio vídeo do jornalista. Porém, o que fica mais evidenciado é sua atribuição de um ato que ele considera desconfortante (buzinar) para um determinado grupo étnico, mesmo que em aparente tom de piada ou deboche.

 

Da Pena

Devemos também, de acordo com tal gravidade delituosa, saber das diferentes penas, que podem variar em pecúnia (multa), tempo ou mesmo as que trazem certas restrições[13].

Para isso, utilizando o exemplo anterior, entre as diferenças entre o furto e o roubo, se faz necessário observar que o segundo delito é composto de elementos mais gravosos, por isso se prevê uma pena maior.

Agora temos que analisar dois outros fatores que devem ampliar nosso entendimento.

Ao diferenciarmos as penas de crimes menos para mais gravosos, fica clara a aplicação de penas menores e maiores.

Porém, o legislador parece não ter encontrado tal resposta, ou ao menos não aplicou como o esperado aos tipos penais em análise a depender do ponto de vista sobre os tipos penas da injúria preconceituosa e racismo.

Ao atingir o bem jurídico da honra individual ou da honra coletiva, injúria preconceituosa e racismo respectivamente, poderíamos ser levados a imaginar que a aplicação das penas poderia ser diferente. Lembramos que a CF já trata de forma diferente perante a questão da fiança e da prescrição, sendo mais gravosa ao crime de racismo ao torna-lo inafiançável e imprescritível. Porém, notamos que as penas abstratas iniciais são exatamente iguais.

É o que observamos no disposto no Código Penal:

Art. 140 - Injuriar alguém, ofendendo-lhe a dignidade ou o decoro:

(...)

  § 3o Se a injúria consiste na utilização de elementos referentes a raça, cor, etnia, religião, origem ou a condição de pessoa idosa ou portadora de deficiência: 

Pena - reclusão de um a três anos e multa.” (grifo nosso)

 

Agora, é o que observamos em relação ao mesmo quantum penal disposto na Lei 7.716/1.989:

“Art. 20. Praticar, induzir ou incitar a discriminação ou preconceito de raça, cor, etnia, religião ou procedência nacional.

Pena: reclusão de um a três anos e multa.” (grifo nosso)

 

O aumento de pena, por sua vez, apresenta um diferencial.

Para o crime de injúria temos no CP:

  “Art. 141 - As penas cominadas neste Capítulo aumentam-se de um terço, se qualquer dos crimes é cometido:

(...)

III - na presença de várias pessoas, ou por meio que facilite a divulgação da calúnia, da difamação ou da injúria.” (grifo nosso)

 

Para o crime de racismo, temos ainda no art. 20, da Lei 7.716/1.989:

“§ 2º Se qualquer dos crimes previstos no caput é cometido por intermédio dos meios de comunicação social ou publicação de qualquer natureza:

Pena: reclusão de dois a cinco anos e multa.” (grifo nosso)

 

Notamos, portanto, que a prática da injúria preconceituosa ou racismo tem o mesmo peso nas penas abstratas iniciais, ou seja, se praticados sem quaisquer causas de aumento de pena.

Porém, em relação às qualificadoras notamos que o legislador ofereceu mais flexibilidade em relação a forma como o crime pode ter sido praticado. Para a injúria basta a presença de várias pessoas ou por qualquer meio que permita sua propagação, ao passo que para o crime de racismo depende da divulgação por meios de comunicação ou publicação para que se apliquem as qualificadoras.

Destaca SUZUKY (p. 69)[14] no inciso da injúria (inciso III, do art. 141, do CP) que tendo o mínimo de três pessoas, não sendo incluso “nesse ‘mínimo necessário’ (...) os autores do crime, nem a vítima e nem aqueles que não podem compreender o que foi falado”, temos enquadrada a qualificadora.

 

Inexistência do crime

Muitos que partem em defesa da inexistência dos crimes acima mencionados, seja da torcedora que teve seu rosto estampado em noticiários no caso do goleiro Aranha, como do próprio jornalista aqui em discussão, também partem de outra generalização ao dizerem “mas quem nunca falou isso?

Com isso, devemos nos atentar aos ensinamentos da disciplina de Lógica Jurídica, ao que chamamos das premissas generalizantes ou falaciosas, que por si são falsas. Ou seja, esse argumento seria facilmente desmontado se em reposta se falasse apenas “eu nunca falei isso”.

Mesmo admitindo que um dia ou outro alguém já tenha proferido tal ofensa, ou mesmo mentalmente, mesmo com a premissa de que isso faça parte de uma (má) formação social, o que nos vemos agora forçados é a expor que esse tipo de ofensa é criminosa e que devemos combatê-la, inclusive em como fomos “ensinados socialmente.”

Agora, observando o posicionamento de pessoas que manifestam suas opiniões em redes sociais, começamos a discutir outro ponto. Podemos observar posições variadas, que obviamente não se pretendem esgotar nesse presente ensaio. Mas como temos observado tensões nas mídias sociais, chegamos a selecionar basicamente dois grupos: críticos contrários à postura do jornalista e defensores.

Dois defensores, ao menos a título de exemplo, do suposto ato de racismo do jornalista apontam em seus pronunciamentos que a fala do jornalista não o define como racista.

O primeiro a se manifestar nesse sentido foi, outro também jornalista, Reynaldo Azevedo. Faz um relato pessoal do “amigo” que defende, inclusive com o baluarte ao intitular Waack como “o jornalista mais importante do país não é racista”.[15]

O segundo, filósofo, Luiz Felipe Pondé, muda o foco para o que intitula “Linchamentos atuais são parte de uma economia de mercado e marketing digital”.[16] E acrescenta: “Por que linchar ladrões é injusto, mas é ‘progressista’ linchar Waack?

O crime de racismo está consumado em si pelo ato praticado. Como fizemos anteriormente, voltemos a comparar ao crime de furto ou roubo. O adjetivo que utilizamos ao definir quem rouba ou furta alguém é ladrão. Note que tal adjetivo não prescinde da quantidade de crimes praticados. A sensação causada, em termos populares, é uma vez tendo subtraído bem alheio à pessoa, é classificada como ladrão. Agora, e se a pessoa roubou apenas uma vez? Isso a torna ladra? O mesmo dizemos de assassinos, estupradores, sequestradores etc. A grande questão que os dois jornalistas supõe é que a fala pode ter sido, até por lapso, racista, mas o agente não.

O que temos que observar é que tanto o Código Penal como o Código de Processo Penal não qualificam nenhum agente como ladrão, sequestrador, estuprador etc. Tipificam o ato. Ou seja, o réu é denunciado ou condenado pelo crime “x”, mas não qualificado como “x”. Essa qualificação quem acaba fazendo é a sociedade. O que importa para o direito obviamente é se o agente pratica determinado ato com certa frequência, o que levaria ao agravamento de pena de acordo com seu perfil.

Justamente esse ensaio que propomos, visa o oposto ao “jogo de palavras” feito por grandes influenciadores midiáticos.

A própria emissora de televisão[17] optou (ou cedeu) em afastar o jornalista e o mesmo apresentou suas desculpas caso tenha ofendido alguém (discutiremos isto em retratação).

 

Legitimidade (quem é a parte ofendida)

Mas agora, vamos observar quem tem legitimidade para oferecer a queixa ou denúncia e dar continuidade na ação.

No caso tanto do furto como do roubo, basta a comunicação às autoridades (notitia criminis) que a ação “não está condicionada a nenhuma exigência”, conforme nos ensina Damásio de Jesus (p. 378)[18], ou seja, a ação é pública e incondicionada.

Agora, em relação à injúria, a mesma deve ser comunicada pela vítima que se sentiu ofendida, devendo não apenas apresentar a queixa (art. 145, do CP), mas também dar andamento ao processo, ou seja, representá-lo (parte final do parágrafo único do art. 145, do CP), sendo pública e condicionada à representação do ofendido. Ao passo que o crime de racismo, embora possa ser apresentada a queixa por qualquer pessoa, cabe ao Ministério Público tal encaminhamento. Claro que, sobre o “silêncio” do MP, podemos ver outros agindo em seu lugar, mas fiquemos com a regra inicial sobre a legitimidade de ação para entendermos um pouco mais cada um dos institutos.

Outra diferença que pode parecer óbvia, mas dependendo do caso não é, a injúria deve obrigatoriamente chegar ao conhecimento do ofendido, ao passo que não vemos tal exigência ao crime de racismo.

Temos que fixar em nossas mentes justamente o já dito sobre o tipo penal da injúria, em qualquer de suas formas (preconceituosa ou não). Repetindo, ela deve chegar ao conhecimento do ofendido para o efeito de sua consumação.

Os doutrinadores em geral dizem que a injúria deve além de chegar ao conhecimento da pessoa, atingindo em sua honra, ou seja, ofendê-la de fato.

“O crime de injúria caracteriza-se pela ofensa à honra subjetiva da pessoa, que constitui o sentimento próprio a respeito dos atributos físico, morais e intelectuais de cada pessoa. Assim, injúria é a palavra insultuosa, o epíteto aviltante, o xingamento, o impropério, o gesto ultrajante, todo e qualquer ato, enfim, que exprima desprezo, escárnio ou ludíbrio” (TACrim, RJD, 7/78).

 

Inexistência e Tentativa

Mas, ao não conseguir ofender a honra subjetiva, teremos a tentativa de injúria ou a inexistência do crime?

Pensamos que inexiste o crime quando o agente não consegue ofender a honra subjetiva, pois para chegarmos à tentativa, precisamos compreender outro instituto do direito, tal seja, o iter criminis.

O iter criminis nada mais é do que o preenchimento de todos os atos que lavam ao crime.

Segundo nos leciona Flores (2015, p. 106)[19]:

“Iter criminis ou caminho do crime é todo o caminho percorrido pelo crime desde sua cogitação até sua consumação. É o conjunto de fases que se sucedem cronologicamente no desenvolvimento do delito doloso. Este desenvolvimento é dividido em quatro fases:

- Cogitação (interna);

- Preparação (externa);

- Execução (externa);

- Consumação (externa).”

 

Quando seu percurso (iter) é interrompido quando iniciada sua execução, podemos ter o que chamamos de tentativa (art. 14, II, do CP), desde que por motivos alheios a sua vontade.

Os doutrinadores, portanto, atribuem como quase único exemplo de tentativa de injúria a “carta escrita com menções injuriosas que não chegam ao seu destinatário”. Por isso, a fala injuriosa proferida diretamente, ao não ofender, não se traduziria em tentativa. O ato foi consumado, porém não atingiu o bem jurídico tutelado, ou seja, a honra.

E justamente no crime de racismo, não necessita que a ofensa chegue ao conhecimento específico do grupo, até porque aqui temos bem jurídico tutelado e, não necessariamente, uma instituição que defenda “grupo étnico A”, ou “B” a se sentir ou não ofendida. Nesta toada, entendemos porque pode existir a tentativa de injúria e a mesma (tentativa) não ser admitida para o racismo.

Ou seja, voltando ao exemplo da carta, se um ato de racismo é escrito, mesmo não chegando ao seu destinatário final, o crime se consumou, pois independe do caráter subjetivo de alguém tomar conhecimento e se sentir desonrado.

Existe, porém, posicionamento contrário, principalmente ao se referir ao disposto a seguir no §2º, do art. 20, da Lei 7716/89:

“Art. 20. Praticar, induzir ou incitar a discriminação ou preconceito de raça, cor, etnia, religião ou procedência nacional.

Pena: reclusão de um a três anos e multa.

(...)

§ 2º Se qualquer dos crimes previstos no caput é cometido por intermédio dos meios de comunicação social ou publicação de qualquer natureza:

Pena: reclusão de dois a cinco anos e multa.” (grifo nosso)

 

Para LAVORENTI[20], a ideia da escrita na publicidade poderia se frustrar ao não ser publicada.

 

Retratação

 

Quando falamos em desculpas, nos referimos no que em direito é conhecido como a retratação.

Segundo o art. 143, do CP, a retratação só é válida diante dos crimes de calúnia e difamação. Portanto, totalmente afastada para a injúria. Já a do crime de racismo nada relata sobre tal instituto, ou seja, não deve ser admitida a retratação.

Por outro lado, para o crime de injúria existe a possibilidade do Perdão Judicial, com base no art.107, IX, do CP ou do pedido de explicações, conforme art. 144, do CP.

Existem duas hipóteses do Perdão Judicial. Consistem em quando o próprio ofendido provoca a situação também mediante ofensa (provocação do ofendido) ou quando mesmo que não seja mediante uma ofensa, o agente apresenta reação injuriosa em seguida (retorsão imediata).

Já o pedido de desculpas é um direito do ofendido, mas é uma faculdade de quem ofende via injúria. Arriscamos considerar frágil tal artigo, tanto que inexiste rito previsto no Código de Processo Penal para que ocorra a instrução do pedido de desculpas. O rito adotado consiste nas notificações e interpelações judiciais previsto nos artigos 726 ao 729, do Código de Processo Civil.

Portanto, apenas uma possível desqualificação do crime de racismo para o de injúria preconceituosa poderia apresentar tais alternativas.

É o que alude o proferido pelo Tribunal de Justiça de São Paulo:

“A utilização de palavras depreciativas referentes à raça, cor, religião ou origem, com o intuito de ofender a honra subjetiva da pessoa, caracteriza o crime previsto no § 3º do art. 140 do CP, ou seja, injúria qualificada, e não o crime previsto no art. 20 da Lei 7.716/89, que trata dos crimes de preconceito de raça ou cor” (TJSP, RT, 752/594).

 

O relatório da Decisão Monocrática do Ministro Reynaldo Soares da Fonseca, em 01/02/2016, no AREsp 528097, também reforça a ideia de não cabimento da retratação para o crime de racismo:

“A publicação em jornal de texto discriminatório em relação a cor da pele não configura crime de injúria e sim de preconceito racial previsto no art. 20, § da Lei 7.716 de 05/01/1989, com a redação dada pela Lei 9.459 de 15/05/1997, sendo que eventual retratação não tem o condão afastara responsabilização penal do agente. Recurso não provido.”

 

O Ministério Público Federal também se manifestou contrário à retratação, dando prosseguimento ao processo judicial sobre racismo em face de uma usuária do Facebook que proferiu frases consideradas depreciativas ao grupo de rap indígena Brô MC’s em programa televisivo.[21]

 

Definição do tipo penal do crime de racismo praticado pelo jornalista

 

Art. 20. Praticar, induzir ou incitar a discriminação ou preconceito de raça, cor, etnia, religião ou procedência nacional.

Pena: reclusão de um a três anos e multa.”

 

 

Portanto, após essa ampla explanação comparativa dos tipos penais, devemos partir para a individualização do tipo penal.

A tipificação, segundo o art. 20, da Lei 7.716/89, consiste na prática, induzimento ou incitação à discriminação ou preconceito de raça, cor, etnia, religião ou procedência nacional.

A fala do jornalista direcionada ao grupo étnico, mesmo proferida em baixíssimo tom ao seu colega ao lado, caracteriza o tipo penal de racismo. Independe do motorista se sentir ofendido ou não. Independe também da ofensa ter chegado ou não ao motorista, pois ele não é o sujeito passivo, mas sim serviu como uma escada para se atingir outro bem jurídico tutelado pelo Estado, neste caso, o grupo étnico.

Vejamos, portanto, em qual verbo do art. 20, da Lei 7.716/89, poderíamos enquadrar a fala do jornalista:

         Praticar;

         Induzir;

         Incitar.

Da primeira vez o vídeo nos mostra uma breve fala, não ouvida pelo seu colega de trabalho ao lado. Podemos aduzir que houve a prática. Assim como o ato do furto pode não ser percebido pela vítima, o ato do preconceito também pode não ser percebido por ninguém.

Ao não ouvir, seu colega solicita que seja repetida a fala. Notamos que o jornalista, além de repetir, agora pede certa atenção de conivência com o ato de racismo praticado.

Saiamos do mundo jurídico para entendermos se além da prática, conseguimos encontrar outro verbo que tipifica o tipo penal.

Notamos que a fala ardilosa do jornalista apresenta tom de deboche ou pretensiosamente cômica. Por isso, se compararmos a fala com uma piada, ao responder o que procura um comediante em seu público, podemos entender o verbo utilizado do tipo penal.

Induzir ao riso é uma das formas que um comediante busca em seu público. Induzir é levar alguém por meio ardiloso ao resultado pretendido, seja ele a risada ou ao racismo. No induzimento o agente cria na mente do outro algo não pensado pelo outro.

Já incitar é o que costumamos dizer que é mais fácil para aquele público que de pronto interpreta e ri da piada. Incitar leva, no caso do racismo, a que o outro tenha a mesma prática.

Induzir e incitar estão atrelados à intenção subjetiva do agente. A doutrina chama isto de elemento subjetivo do agente que pratica o crime. Também não há previsão legal da tentativa da indução ou incitação, entendendo que a consumação se dá pela ação em sim. Ou seja, independe se a pessoa que estava ao lado cometer o mesmo crime.

Note que o legislador não se preocupou com a reação do ouvinte, neste caso, mas tão somente com o ato praticado pelo agente.

Em relação à qualificadora prevista no § 2º, do art. 20, da Lei 7716/89:

“§ 2º Se qualquer dos crimes previstos no caput é cometido por intermédio dos meios de comunicação social ou publicação de qualquer natureza:

Pena: reclusão de dois a cinco anos e multa.”

 

Aqui certamente cabe vasta interpretação não somente gramatical, mas, sobretudo de se o agente (aquele que cometeu o crime) se fez valer de tais meios, previstos na qualificadora, para obtenção do resultado pretendido. É certo que o vazamento das imagens nos direcionam para a qualificadora, o que incide no aumento da reclusão. O que nos resta saber é se a vontade do agente em utilizar tais meios deve ser analisada também.

O que temos de informação é que o chamado link estava fora do ar, ou seja, o jornalista tinha conhecimento que naquele momento qualquer fala sua não seria divulgada. Não resta dúvida, ante o exposto, do tipo penal do caput do art. 20, da Lei 7716/89, porém esse detalhe poderia alterar o cenário delitivo perante a qualificadora.

 

Conclusão

O presente ensaio buscou a devida tipificação nos moldes da Lei 7.716/89.

Necessário se fez a distinção entre o tipo penal previsto na Lei entre a injúria preconceituosa, ou qualificada, prevista no Código Penal.

O ato do jornalista independe da apreciação ou não de seu trabalho.

O que acabamos por notar ao se abordar o tema em matérias jornalísticas, manifestações em redes sociais ou até mesmo em descontraídas conversas entre colegas e/ou amigos, nem sempre estão sempre à luz do Direito.

Os próprios desdobramentos que o caso em tela possam apresentar também não foram intento do presente ensaio, mas podemos levar em consideração que quanto mais debatermos o tema, mais consolidados ficarão as conceituações e nossa busca por práticas em respeito aos dispositivos legais em nosso país.

Temas como o racismo precisam ser mais e melhor debatidos, em respeito à dignidade da pessoa humana.

A própria Constituição Federal traz em seu bojo legal as condições de igualdade. Porém, basta fazermos um exercício interior do quanto sofremos diretamente ou indiretamente situações de conflito perante o preconceito.

Tratamos, mesmo que brevemente, do chamado “preconceito velado”. Com isso, tomo agora a liberdade inclusive de trazer à tona uma canção cuja interpretação é quase que imediata quando a ouvimos ou lemos. A canção Faroeste Caboclo traz em uma de suas partes o que seria a definição do grupo étnico do “tal João de Santo Cristo”:

“Não entendia como a vida funcionava

Discriminação por causa da sua classe e sua cor

Ficou cansado de achar resposta

E comprou uma passagem, foi direto a Salvador”

(RENATO RUSSO, 1979)

 

Digamos que “automaticamente” atribuímos à personagem o pertencimento ao grupo étnico negro ou preto.

Reforço desse conceito se deu na própria obra cinematográfica com mesmo título da música, em 2013. O papel, então da personagem principal foi conferido ao ator negro Fabrício Boliveira.

Isso faz parte de uma leitura dita literal, mesmo quando a literatura (música, poesia) possa utilizar de palavras ou situações que “camuflem” a realidade. Esse tipo de escrita, por vezes considerada na figura de linguagem metafórica, fez com que músicas dentro do Regime Militar pudessem passar pelos censores oficiais e serem lançadas.

Renato Russo, por outro lado, nutria um desejo pessoal inclusive na figura artística que poderia desempenhar a personagem principal. Teria imaginado o ator Marcos Palmeira. Para o autor da canção o “tal João de Santo Cristo” vivia em algum recanto da Bahia. De população negra basicamente, e assolada pela pobreza, o “tal João” seria vítima de preconceito, tanto racial como social, por ser um playboy branco. O restante da letra acaba trazendo tais indícios, mas que acabam sendo ignorados perante essa leitura inicial anteriormente destacada.

Isso é devidamente explicado na obra de Dado Villa-Lobos[22], ao fazer menção de como algumas das canções eram escritas pelo grupo de rock brasiliense Legião Urbana.

Logo, temos que nos vigiar para a devida identificação, seja de atos, falas e símbolos de injúria racial ou racismo.

Nem tudo que dizemos pode ser necessariamente um crime dessa natureza.

Mas até mesmo o implícito pode.

 

 



[1] Declaração dos Princípios da Tolerância, proclamada e assinada pelos Estados-Membros da Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura, em Paris/França, em 16/11/1995 (28ª Seção da Conferência Geral).

[2] https://pt.wikipedia.org/wiki/William_Waack visualizado em 26/11/2017, visualizado em 26/11/2017, às 12h 40 min.

[4] A pesquisa pode ser livremente realizada no youtube. Segue apenas a título de exemplo um dos canais em que o vídeo se encontra com algumas legendas:

https://www.youtube.com/watch?v=WR2CcTWeM_A, visualizado em 26/11/2017, às 12h 30 min.

[6] Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (Fipe), a pedido do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), 96,5% dos entrevistados têm preconceito com relação a portadores de necessidades especiais, 94,2% têm preconceito étnico-racial, 93,5% de gênero, 91% de geração, 87,5% socioeconômico, 87,3% com relação orientação sexual e 75,95% têm preconceito territorial.

[7] MONTEIRO, Antonio Lopes. Crimes hediondos. Ed. Saraiva, 1995.

[8] Lei nº 7.716/1.989, com artigos 1º e 20 com redação alterada pela Lei nº 9-459/97.

[9] artigo 140, parágrafo 3º do Código Penal, incluso pela Lei 9.459/97

[10] Jesus, Damásio de. Direito penal, 1º volume : parte especial; Crimes contra a pessoa a crimes contra o patrimônio – 34. ed. – São Paulo : Saraiva, 2013.

[11] artigo 5º, XLII, da CF

[13] Penas restritivas de direitos, conforme descritas no art. 43 e ss, do CP: prestação pecuniária, perda de bens e valores, prestação de serviços à comunidade ou a entidades públicas, interdição temporária de direitos, limitação de fim de semana.

[14] Suzuki, Claudio Mikio. Manual simplificado de direito penal: parte especial – Niterói, RJ : Impetus, 2016.

[17] Rede Globo de Televisão. O Jornal tinha como seu apresentador Wiliam Waack. No dia posterior ao vazamento do vídeo nas redes sociais o jornalista foi afastado da bancada do Jornal.

[18] Jesus, Damásio de. Direito penal, 2º volume : parte especial; Crimes contra a pessoa a crimes contra o patrimônio – 33. ed. – São Paulo : Saraiva, 2013.

[19] Flores, Andréa. Manual de direito penal / Andréa Flores, Jodascil Gonçalves Lopes. – São Paulo : Saraiva, 2015. – (Coleção ícones do direito / coordenador André Puccinelli Júnior)

[20] Silva, José Geraldo da. Leis penais anotadas / José Geraldo da Silva, Wilson Lavorenti, Fabiano Genofre. – 10ª ed. – Campinas, SP: Millenium Editora, 2008.

[22] Villa-Lobos, Dado: memórias de um legionário / Dado Villa-Lobos, Felipe Abranches Demier, Romulo Costa Mattos. – 1. ed. – Rio de Janeiro : Mauad X, 2015.

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