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Ética, Ciência e Sociedade.


Autoria:

Marco Antônio Martins


Sou profissional atuante como gestor na área de manufatura industrial há cerca de 20 anos, com formação em Administração de Empresas e especialização em Gestão Estratégica da Produção, ambas pela Universidade de Caxias do Sul.

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Resumo:

A ética como um conjunto ilibado de valores morais, teoricamente deveria estar presente nos atos da humanidade, que após milênios de evolução social, construiu uma civilização baseada no conhecimento.

Texto enviado ao JurisWay em 07/10/2012.

Última edição/atualização em 09/10/2012.



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Marco Antônio Martins

 RESUMO

 A proposta deste artigo é trazer à discussão um tema que, apesar de discutido a séculos pela humanidade, mostra-se em ângulos diferentes e desafiadores a cada nova época da história da humanidade. A ética como um conjunto ilibado de valores morais, teoricamente deveria estar presente nos atos da humanidade, que após milênios de evolução social, construiu uma civilização baseada no conhecimento. Tentaremos analisar ao que se refere e qual o objeto da ética, como o indivíduo a percebe e incorpora no seu cotidiano, e por fim o seu discernimento no contexto da sociedade capitalista contemporânea.

 Palavras-chave: ética, moral, costumes, sociedade, ciência, epistemologia.

 SUMÁRIO

 1.     Introdução

2.     Ética

3.     A Ciência e a Ética

4.     Conflitos Sociais pela Falta de Ética

5.     A Ética nas Organizações

6.     Conclusão

1.     Introdução

O comportamento humano desde a antiguidade tem sido objeto de estudo e discussão, e, na medida em que o tempo passa, não fica definitivamente caracterizado nem se chega a um termo comum. A cada descoberta da ciência, a cada criação das artes, uma nova faceta humana é revelada, e um novo ciclo de debates e perguntas se reinicia. 

Sendo a ética intrínseca a essa natureza evolutiva, pois trata da essência e do propósito de cada ser, ora como guia para a busca última do autoconhecimento, ora como instrumento de juízo moral, segue o mesmo incansável caminho.

O que se pode entender na ética, enquanto universal, é que ela tem sido, desde os primórdios da sociedade humana, uma balizadora para os demais princípios que regem a condição social do ser humano. A partir da sua prática o indivíduo é aceito nos diversos meios em que circula, agindo assim como um salvo-conduto para a sua interação com este e, em decorrência, da sua sobrevivência física e intelectual.

Todo ser humano, independente da sua condição cultural, conhece os princípios éticos e morais vigentes em seu meio, e age a favor ou contra estes princípios, de acordo com a sua necessidade ou intenção. O fato de a ética e a moral serem inerentes ao ser humano, não significa que sempre limitarão seu comportamento. Haverá de pesar na maioria das vezes, mas não é de fato um agente definitivo. A partir de um juízo moral, o homem justificará suas atitudes e ações quando, ao prever suas consequências, necessitar desta justificativa para alcançar algum objetivo pessoal; também agirá eticamente na maioria das vezes quando sua natureza for pacífica, virtuosa ou até mesmo temerosa ante as suas necessidades sociais. Porém a liberdade de escolha será sempre sua: ele terá sempre a alternativa de agir ética ou antieticamente, e suportará as consequências da sua decisão, seja pela resposta do meio, seja pela resposta interior.

Como ser contemplativo, o homem, de maneira geral, se encanta com a diversidade e com a novidade, e como ser dinâmico, busca absorvê-la, capturá-la ou participar. Nesta busca ora ele se torna o criador, ora se torna desejoso de sê-lo e usufruir da nova obra. Sendo um impulso natural, como um instinto de defesa da continuidade de sua estirpe, por vezes fecha os olhos para o chamado da consciência e se desvia moralmente com o intuito de tomar a si o que é de outrem. Assim são gerados os conflitos entre os homens, e os impulsos dito inferiores ganham supremacia ante os éticos.

De forma a superar estas barreiras ao bem estar comum, o Estado como representante do poder social, impõe regras de conduta sociais e as garante pelo uso da força.

Na sociedade contemporânea, os aspectos econômicos sobrepujam o poder social do estado, criando regras próprias e até tornando o Estado como refém, por uma questão econômica de grande magnitude. Nota-se um enfraquecimento do poder do estado frente a um fortalecimento do poder do mercado. Esse desequilíbrio provoca abalos na estrutura social, e põem em risco a subsistência dos povos. Porém, com a volta aos princípios éticos, com a moral integrada aos interesses econômicos, a paz poderá voltar ao cenário social contemporâneo, permitindo mais uma vez a evolução da sociedade humana.

 

2.     Ética

É difícil definir a origem da palavra ética. Para alguns autores sua origem está na Grécia antiga, para outros é romana. O fato é que esta pequena palavra encerra um conceito relativo ao comportamento humano que remonta aos primórdios da nossa civilização.  Na etimologia grega “ethos”, segundo Vaz (1993),

“..diz respeito ao comportamento que resulta de um constante repetir-se dos mesmos atos. É portanto o que ocorre frequentemente, ou quase sempre mas não sempre, nem em virtude de uma necessidade natural..... denota uma constância no agir que se contrapõe ao impulso do desejo. Essa constância do ethos como composição permanente é a manifestação e como que o vinco profundo do ethos como costume..”.

 

O primeiro pensamento que nos surge ao nos depararmos com ela, é o conceito do bem e do mal. Aristóteles, filósofo grego, escreve um tratado para seu filho Nicômaco, intitulado “Ética para Nicômaco”, onde trata das virtudes humanas, enumerando-as e procurando suas relações com o homem de bem, que busca a felicidade. Embora não defina exatamente o conceito de ética ou nem mesmo faça uma alusão direta à palavra, todo o conteúdo do tratado está de certa forma envolvendo o seu conceito. Para Aristóteles, o homem é essencialmente um ser político, e suas virtudes estão centradas na sua relação com a sociedade.

De fato, ainda hoje, o pano de fundo para se estabelecer uma compreensão do conceito de ética é sem dúvida um juízo moral que o indivíduo faz daquilo que, conforme a sua cultura, os costumes da sociedade em que vive, o seu grau de desenvolvimento pessoal, acredita ser o certo.

Para Vasquez (2001), “o comportamento humano prático-moral, ainda que sujeito à variação de uma época para outra, e de uma sociedade para outra remonta às próprias origens do homem como ser social”. Assim podemos afirmar que em sua natureza prática, aquela que se faz presente no cotidiano do indivíduo, a ética se assemelha muito à moral. Sendo a moral um conjunto de princípios de conduta voltado para o bem, a ética poderia ser representada como o julgamento da moralidade contida nas ações das pessoas quando interagem socialmente. Assim, um indivíduo dito ético seria aquele que age no meio social de acordo com as regras que este meio define como “de bem”, ou que contribua para a melhoria da condição de convívio entre os membros do próprio grupo.

Embora Souza e Rodrigues (1994) definam a ética como “o conjunto de princípios e valores que guiam e orientam as relações humanas”, acrescentando logo a seguir “Estes princípios devem ter características universais, precisam ser válidos para todas as pessoas e para sempre”, tendemos a considerar falsa esta premissa, ora que o conceito de moral está vinculado ao de “costumes” e hábitos, característico e diferente para cada local e época.

Obviamente na sociedade moderna teremos alguns princípios éticos quase que universais, pois as relações sociais nos dias de hoje são de natureza global; porém cremos que os princípios éticos universais estarão presentes apenas nas relações e convenções de interação global.  Para cada nível de interação (local, nacional, mundial) haverá regras de condutas de níveis diferentes, respectivamente.

Já a definição do Novo Dicionário da Língua Portuguesa de Aurélio Buarque de Holanda Ferreira, menciona:

 “Ética: (feminino substantivado do adjetivo ético). Estudo dos juízos de apreciação referentes à conduta humana suscetível de qualificação do ponto de vista do bem e do mal, seja relativamente a determinada sociedade, seja de modo absoluto”.

 

Esta definição está mais de acordo com o que entendemos conceitualmente. Ao preparar-se para a ação, especialmente quando esta se desenrola em um ambiente público, o homem reflete e formula um juízo prévio das suas consequências políticas, no qual ele se arma do seu conhecimento acerca do certo e errado (que é muito particular), e das regras gerais do seu meio (o que a sociedade julga como moral). Se suas intenções estiverem de acordo com essas regras, agirá possuído por um sentimento de que suas ações estarão justificadas.

Para Vasquez, o pressuposto de juízo para ação se enquadra no conceito de moral, sendo que a ética pertence ao campo do investigador da moral, aquele que julga a moralidade dos atos praticados. Segundo o autor, “os problemas éticos caracterizam-se pela sua generalidade e isto os distingue dos problemas morais da vida cotidiana, que são os que se nos apresentam nas situações concretas”.

Podemos considerar um apanhado geral em que a ética seja um conjunto de qualidades morais, consideradas em um determinado meio social, que guiam e julgam a moralidade dos atos dos indivíduos em interação com esse meio, exortando-os a praticar o bem. “Ela pauta a conduta do homem ao definir parâmetros para orientá-lo nas mais diversas situações, fundamentando ou justificando determinado comportamento moral”. (Paulino, 2003).

 

 

3.     A Ciência e a Ética

O berço da metodologia científica que hoje conhecemos com ciência, parece estar fortemente vinculado com a Renascença, movimento filosófico e cultural, causador de intensas mudanças sociais, econômicas e políticas, que se desenrolou na Europa a partir do século XV. Para Paulino, “será no âmbito  da  moral  renascentista  que,  baseado  nos  ideais humanistas, haverá uma lenta e progressiva passagem da natureza à cultura, como pólo organizador da vida ética”.  

“Dentro desta evolução histórica da Ética e de suas concepções, a Renascença cumpre uma dupla função no progresso histórico. Por um lado, recebe e recupera as teorias éticas clássicas (platônicas, aristotélicas, epicuristas e estóicas) e as retransmite às gerações futuras. Por outro lado, por influência dos humanistas, forma uma nova concepção de reflexão moral, de
cultura baseada em um novo universo, que mostra a ascensão do indivíduo ao primeiro plano”. (Paulino, 2003).

  A separação entre moral e religião proporciona ao filósofo e ao cientista operar em regiões do conhecimento que até então eram do “domínio de Deus”. Segundo Domingues (2004), 

“Essa visão da ciência e da técnica como instrumento ou meio de poder adotada no curso do século XVIII pelos iluministas, que associaram tal visão à idéia de progresso, ao papel libertador do conhecimento (livrar os homens das trevas da ignorância e da superstição) e ao projeto de reforma da humanidade, tencionando a geração do novo homem: autônomo, racional e livre”. 

A moral cartesiana forma um novo conceito de homem em harmonia com a sua natureza racional. Entretanto, segundo Oliveira (1993) apud Paulino, “A condição do natural do homem é tremendamente lastimável, porque está marcada basicamente pela preocupação da auto conservação, em última análise, pelo medo, pulsão fundamental da vida humana”. Essa condição leva ao conflito de interesses entre os indivíduos, pois se os mesmos possuem um só objetivo, sendo o caso em que somente um deles pode atingir em detrimento dos outros, em sua natureza racional e na defesa da sobrevivência, tornará os homens inimigos entre si. “Neste contexto a razão surge como mediadora do progresso moral. Ela cria a instância do Estado, o qual tornará possível, por meio de sua legislação, a auto conservação e a satisfação de suas necessidades básicas.” (Paulino, 2003).

À medida que as ciências se desenvolvem, os conflitos éticos são permanentes. Embora a lógica cartesiana tenha procurado separar o prático do teológico, a condição humana não está separada: a religião, a cultura, o meio social, convivem simultaneamente na mente do indivíduo, e influenciam diretamente o seu senso moral e ético. Nas revelações do conhecimento, o novo não se enquadra nos conceitos pré-dispostos, visto que é inédito. Portanto sempre haverá um julgamento moral que também influenciará no caminho do desenvolvimento; dependendo do grau de liberdade e “elasticidade” desta moral, a ciência evolui mais rapidamente ou mais lentamente.

Para Vasquez, “a ética se relaciona com outras ciências que, sob ângulos diversos, estudam a relação e o comportamento dos homens em sociedade e proporcionam dados e conclusões que contribuem para estabelecer o tipo peculiar de comportamento humano que é o normal”.  Os indivíduos concretos, segundo ele, quando em seu meio social, sempre apresentam um aspecto subjetivo, interno, psíquico, em que pesam motivos, impulsos, e consciência. Assim cabe ao indivíduo escolher alternativas, formular juízos de aprovação, e submetê-los muitas vezes à aprovação do grupo social, baseados em seus princípios internos de moral, filtrados pelas convenções tácitas do meio em que interage.

Para que um indivíduo se incline a legitimar um determinado conjunto de regras, é necessário que o veja como traduzindo algo de bom para si, como dizendo respeito a seu bem-estar psicológico, ao que se poderia chamar de seu “projeto de felicidade”. Se vir nas regras aspectos contraditórios ou estranhos ao seu bem-estar psicológico pessoal e ao seu projeto de felicidade, esse indivíduo simplesmente não legitimará os valores subjacentes a elas e, por conseguinte, não legitimará as próprias regras. Poderá, às vezes, comportar-se como se as legitimasse, mas será apenas por medo do castigo. Na certeza de não ser castigado, seja porque ninguém tomará conhecimento de sua conduta, seja porque não haverá algum poder que possa puni-lo, se comportará segundo seus próprios desejos. Em resumo, as regras morais devem apontar para uma possibilidade de realização de uma “vida boa”; do contrário, serão ignoradas.

Intimamente ligada à ciência ética, a psicologia contribui na sua elucidação ao examinar os atos voluntários, a formação de hábitos, evidenciando as leis que regulam as motivações internas do comportamento. O estudo do caráter e da personalidade acende uma luz para a compreensão dos juízos morais, que se refletirão no comportamento considerado ético para uma determinada sociedade. Apesar de agir conscientemente ao avaliar as situações em que o juízo moral é necessário, o indivíduo estará sempre permeado pelas motivações do subconsciente, e sua atuação não será de todo previsível ou regida pela vontade. O próprio discernimento da conduta ética, que não está escrito de maneira formal, suscita dúvidas e não pode ser definido e regrado como a única verdade. 

4.     Conflitos Sociais pela Falta de Ética

Um dos arcabouços da ciência contemporânea, dominada pelo interesse econômico privado, é a questão das patentes e dos direitos autorais. Num tempo em que a ética do “bem” quase já está esquecida, e seu último refúgio se encontra na intervenção do Estado, a concepção do conflito da sobrevivência não se atém às necessidades básicas, atingindo todos os níveis de necessidades, inclusive as de auto realização.

Consideraremos aqui uma visão atual em que a se demonstra a grande complexidade da convivência com valores éticos, quando se dispõe sobre a evolução do conhecimento.

Ao utilizar-se de seu conhecimento, vivência, sentimento, especialização e outras virtudes ou habilidades, o autor ao se expressar cria uma obra que será de utilidade para a sociedade em que vive, podendo ser de natureza artística, como as pinturas, a música, os filmes, ou de natureza científica com as descobertas, os processos industriais, os inventos e engenhos, ou ainda de natureza literária, como os contos, ficções, poesias, documentários, etc. Este momento é de realização para o autor, que ao contemplar sua obra se orgulha da sua habilidade, sensibilidade, beleza ou simplesmente utilidade. Mas essa realização não seria completa, se essa produção intelectual servisse exclusivamente a si, pois como ser social, sente a necessidade de compartilhar com os seus e obter o reconhecimento externo do seu êxito. Assim tem sido desde os primórdios dos tempos, e a soma das obras de todos os autores forma um arcabouço cultural que hoje pertence a toda a humanidade.

Entretanto, um desvio moral leva alguns cidadãos a usurpar essa realização, seja por interesse de roubar para si o reconhecimento, seja para obter vantagem econômica com a sua utilização, e declarar-se como o criador da obra de outrem, na sua originalidade ou modificada como um disfarce. Este plagiário rouba do autor a sua glória, o seu sentimento de realização, quando não o seu sustento e reputação.

 À medida que a evolução tecnológica introduz maciçamente o acesso aos meios de expressão, oportuniza aos muitos estéreis de criação apropriar-se, muitas vezes sem se dar conta da natureza imoral, dos esforços dos autênticos autores, e lançar-se ao rol dos intelectuais, recolhendo méritos entre seu grupo social, ou auferindo ganhos econômicos sem a devida autorização e participação do autor.

A história do reconhecimento oficial da autoria é recente, e os primeiros indícios de sua utilização remontam aos primórdios da imprensa. A impressão e distribuição de determinada obra era exclusiva do impressor que primeiro lançasse a obra. Ao autor, mais tarde foram delegados direitos de autoria. Atualmente a maioria dos países legitima em lei a proteção da autoria da obra, sendo que no Brasil o documento legal em vigor data de 1998, e considera que o autor de obra inédita possui o direito moral inalienável e irrecusável de ser considerado como tal.

Entretanto, em muitos casos, a admiração ou a utilização do bem intelectual infere em uma relação comercial em que o detentor dos meios de reprodução oferece a utilidade ou a cópia aos demais integrantes da sociedade, mediante pagamento ou compensação econômica, de maneira que a autoria também aufere um direito patrimonial, pela sua natureza econômica. Uma proteção especial então é prevista em lei, sugerindo que o autor tenha garantida sua participação econômica na utilização da sua criação.

O fato é que, além da questão particular de moralidade e de recurso, as obras servem à sociedade como um todo, possuindo uma função social. A apropriação dos direitos patrimoniais pelo estado ou diretamente pela sociedade é legítima, pois não poderia o autor moralmente reservar para si o atendimento de uma necessidade que seja premente e comum à toda sociedade.

Obviamente a função social deve ser sempre privilegiada, mesmo diante da pressão econômica de grandes grupos privados, ou mesmo diante de possível injustiça relativa ao patrimônio do autor. Entretanto reiteramos que a relação moral de reconhecimento de paternidade de forma vinculada ao uso da obra será bem-vinda e trará estímulo à produção intelectual.

Segundo Carboni (1994), 

“As transformações sociais advindas das novas tecnologias levaram a uma mudança de função do direito de autor: de mecanismo de estímulo a produção intelectual, ele passou a representar uma poderosa ferramenta da indústria dos bens intelectuais para a apropriação da informação enquanto mercadoria, ocasionando uma redução da esfera da liberdade de expressão e se transformando em um obstáculo a formas mais dinâmicas de criação e circulação de obras intelectuais. A teoria da função social do direito de autor busca um melhor equilíbrio entre a proteção autoral e a possibilidade de redução de obstáculos às novas formas de criação e circulação de bens intelectuais, visando a manifestações sociais mais abertas a criatividade e, consequentemente, com maior amplitude democrática, além da garantia de livre acesso as obras protegidas em determinadas circunstâncias”. 

 

Temos então um agente extra no processo criativo ou desenvolvimentista, que seria o patrocinador, ou aquele que disponibiliza ao autor o ambiente propício e os recursos materiais para a transformação do seu pensamento em obra existente. Implicitamente nesse processo há um interesse meramente econômico de aproveitar a utilidade para auferir lucros. Temos um problema social quando esse interesse econômico é abusivo e exclui o autor dos ganhos relativos à exploração da obra e, principalmente quando utilizado como monopólio e restringindo a função social. Nesse ponto a legislação brasileira tem se mostrado pouco operante e defasada, haja vista a grande mudança cultural e econômica que o mundo sofreu na última década. É pleito de vários autores a sua revisão e ampliação.

O equilíbrio entre a proteção autoral pode e deve ser estabelecido de forma legal, e o estado tem o dever de fomentar com recursos públicos a criação e circulação de bens intelectuais, não permitindo de forma alguma a apropriação e monopolização deste conhecimento por grupos privados. Os grupos privados são importantes e indispensáveis nesse processo e devem ser chamados a participar e usufruir dos resultados econômicos advindos da criação de bens intelectuais, mas devem ser fiscalizados para que seus interesses não escravizem os criadores nem o povo que necessita ou se utiliza dos produtos derivados dessa obra. 

5.     A Ética Nas Organizações

Para Paulino (2003), o papel da ética empresarial é “trabalhar em conjunto os conceitos de responsabilidade ética e tomada de decisões, elaborando diretrizes que ajudem os indivíduos a agirem eticamente”. Inclui aqui um conceito de responsabilidade, derivado das teorias de administração de Taylor e Fayol[1]. A tomada de decisões no campo empresarial está vinculada aos valores econômicos e às diretrizes da empresa.

O binômio autoridade-responsabilidade pressupõe uma forma de controle sobre os indivíduos da base da organização, de modo que as tarefas são delegadas em diversos níveis de decisão, acompanhadas pela respectiva autonomia delimitada e condicionada à responsabilidade correspondente. Por responsabilidade se atribui à condição do agente para o qual determinados recursos foram disponibilizados, responder por eles e pelo cumprimento dos objetivos econômicos da empresa.

A responsabilidade ética é um conceito muito novo no âmbito empresarial. Em um primeiro, momento a natureza social no ambiente interno das organizações enfatiza as realizações do indivíduo em prol do lucro econômico, e cria um conjunto de convenções sociais fortemente influenciadas por ele. O reconhecimento, a auto realização, o status social dentro desse ambiente é pautado pelo conhecimento especializado, pela visão econômica e pelos resultados auferidos pelo processo de acumulação de capital. O indivíduo se adeqúa às rígidas regras ditadas pela direção da empresa, sob pena de exclusão e suas consequências. A justiça e o senso comum não são tão relevantes quanto o propósito econômico. Domingues argumenta: 

“Tendo chegado a esse ponto, quando descobrimos que a saída não é e não será fácil, é hora de perguntar o que foi que aconteceu, quando as tecno-ciências com seu poder avassalador deixaram de ser um instrumento e um meio de poder a serviço dos homens e se converteram em sujeito e potência autônoma, abocanhando o homem e convertendo-o em objeto e instrumento para seus fins”. 

Entretanto esta forma de pensar ao que parece está sendo modificada, seja pela força dos movimentos sindicais que alterou as regras comportamentais nesse meio, seja pela resposta da sociedade como um todo que a partir de um determinado momento histórico começa a responder coletivamente e economicamente ao comportamento empresarial. A realização do desempenho econômico empresarial sempre depende de um consumidor dos produtos desta organização, cujo no final de ciclo está no homem comum. Pois este homem comum se dá conta coletivamente que é o mesmo sujeito que atua na base das organizações com a contribuição do seu esforço de trabalho.

Por outro lado, a presença do Estado também força, através da defesa dos interesses públicos relativos ao bem comum, ao sistema empresarial absorver em seu domínio os princípios de justiça e moral.

As empresas sentem assim a necessidade de desenvolver novos conceitos econômicos, impregnados de responsabilidade ética, como forma de sobrevivência no cenário econômico atual. Esta influência da ética inicia em uma estratégia mercadológica e, talvez num futuro não muito distante, realmente possa ser estendida ao ambiente interno das corporações, extremamente competitivo. A estratégia de intenções justas e éticas se apresenta nas descrições de missão, visão e princípios da organização, mas que vagamente são desdobradas e aplicadas no meio social interno das empresas.

As implicações destas questões impactam no ambiente interno e externo da empresa e têm levado diversas organizações a efetivamente discutir sobre o seu papel diante da sociedade – garantindo sustentabilidade – e como pode contribuir com a qualidade de vida da população em geral. Hoje, a discussão sobre responsabilidade social tem proporcionado às organizações uma mudança de conduta, anteriormente orientada para as obrigações unicamente com os acionistas e distantes dos problemas sociais. Agora a organização busca criar um sistema de valores que se orienta para o benefício dos “clientes” – que hoje possui um novo significado: já não é mais só aquela “entidade” externa que apenas troca o seu dinheiro por produtos e serviços que a organização torna disponíveis; mas passou a ter uma dimensão mais interna, e abrange também todos os envolvidos no processo como chefes, subordinados, colegas de trabalho e fornecedores.

A responsabilidade social tem a base na cadeia de negócios da empresa e engloba preocupações com um público maior (acionistas, funcionários, prestadores de serviços, fornecedores, consumidores, comunidade, governo e meio-ambiente), cuja demanda e necessidade a empresa deve buscar entender e incorporar em seus negócios. Assim, a responsabilidade social trata diretamente dos negócios da empresa e como ela os conduz. Já a ética é base da responsabilidade social e se expressa através dos princípios e valores adotados pela organização. Não há responsabilidade social sem ética nos negócios. Não adianta uma empresa, de um lado pagar mal seus funcionários, pagar propinas a fiscais do governo e, por outro, desenvolver programas junto a entidades sociais da comunidade. Essa postura não condiz com uma empresa que quer seguir um caminho de responsabilidade social. É importante seguir uma linha de coerência entre ação e discurso.

Para Wiley (1997), citado por Paulino, 

“A reputação de uma empresa é um fator primário nas relações comerciais, formais ou informais, quer estas digam respeito à publicidade, ao desenvolvimento de produtos ou a questões ligadas aos recursos humanos. Nas atuais economias nacionais e globais, as práticas empresariais dos administradores afetam a imagem da empresa para a qual trabalham”.

 

Portanto, há que se buscar um profundo entendimento no campo da ética para reavaliar as diretrizes empresariais e incorporar seu conteúdo no seio da empresa. A questão ética interfere não só na questão comercial da organização. A comunidade em que a empresa está instalada, da qual retira sua mão-de-obra, também avalia moralmente a postura da empresa, sendo que às vezes a falta de ética afasta a comunidade dessa organização que acaba tendo que se transferir em função de não conseguir sustentar sua atividade por falta de recursos humanos nos seus quadros.

6.     Conclusão

De Aristóteles à Renascença, e desta até os dias atuais, a ética é discutida e interpretada conforme a cultura, o desenvolvimento cultural e científico e também conforme o interesse predominante em cada sociedade. Como um papel investigativo e teórico, expresso como um ramo da filosofia, possui na sua natureza elementos universais e atemporais, que se serve de outras ciências para auto definir-se. Como conjunto de elementos e princípios de moralidade e autoconsciência, subjuga-se ao particular, pois pertence ao ser individual e se expressa na sua interação com o seu habitat. Porém não se limita ao particular: em uma sociedade a ética está convencionada tacitamente ou formalmente constituída em lei, formada pelo entendimento coletivo e servindo de guia para o comportamento social dos seus membros.

Por tantas configurações e expressões, se torna difícil a sua particularização e definição, por ser de natureza abstrata e se mostrar diferente em sua essência a cada realidade distinta. Valores éticos em uma sociedade são absurdamente imorais em outras. Mesmo assim, o homem como ser social e político é seu refém contumaz, pois somente através da ética pode alcançar a igualdade, a justiça, o reconhecimento e a prosperidade.

Por determinado tempo, a sociedade pode se afastar paulatinamente dos conceitos éticos, mas o que a história nos tem mostrado é que o alicerce vai se tornando fraco, e seus valores começam a ruir. Esta lição se repete sempre, tendo que a humanidade a cada momento escutá-la e se recondicionar, sob a pena de num momento se extinguir.

O tempo que vivemos, neste contexto, não é diferente de outros períodos percorridos pelo ser humano, e novamente este chamado da ética se faz ouvir para lembrar que o objetivo do homem não é material, mas metafísico, dada a sua essência.

Aqueles que pensam devem ser atores e dirigir seus esforços para o bem da humanidade, caso contrário seus pensamentos não terão valor. O Estado tem papel fundamental de corrigir os desvios, pois também na natureza humana está presente o mal. E hoje, mais do que nunca, as organizações que se tornaram os dirigentes da ação humana, devem tomar para si o papel fundamental de policiar o comportamento humano, incorporando a ética em todos os níveis de atuação, seja promovendo a moral e a humanização, seja produzindo regras coerentes com o discurso ético.

 

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

 ARISTÓTELES. Ética a Nicômaco. Tradução de Leonel Vallandro e Gerd Bornhein da versão inglesa de W. D. Ross. São Paulo: Victor Civita, 1984.

 CARBONI, Guilherme C. Aspectos sociais da teoria da função social do direito de autor. A Função Social do Direito de Autor – Parte III.  Anais do II congresso de direito de autor e interesse público. 1ª ed. Editora José Arthur Boiteux, Florianópolis, 2008. Disponível em: http://www.direitoautoral.ufsc.br/arquivos/anais na integra.pdf.

 DOMINGUES, Ivan. Ética, ciência e tecnologia. Revista Kriterion nº 109. Pág.  159 a 174. Belo Horizonte, junho de 2004.

 PAULINO, Evandro M. C. O ensino da ética em cursos de graduação em administração. Dissertação apresentada no curso de Pós-Graduação da FGV/EAESP. São Paulo: 2003.

 SOUZA, Herbert José de, 1935-1997; RODRIGUES, Carla; Betinho. Ética e cidadania. São Paulo: Moderna, 1994. (Coleção polêmica).

 VASQUEZ, Adolfo Sanchez. Ética. 21ª ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2001.

 VAZ, Henrique C. Ética e cultura. 4ª ed. São Paulo: Loyola, 1993.

 WILY, Carolyn. O ABC da ética. HSM Management. Março-abril 1997, pg. 28-32, apud Paulino (2003).

 


 

[1] Taylor, precursor da administração científica, e Fayol, conhecido por seus “Princípios da Administração”, estudaram profundamente a aplicação do método científico nas organizações.

 

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