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RELAÇÃO ÉTICA E POLÍTICA: DA ANTIGUIDADE À ATUALIDADE


Autoria:

Henrique Araújo De Carvalho


Aluno da Universidade de Brasília

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Resumo:

O problema etica e politica nasce na antigüidade, passo a discorrer sobre o assunto.

Texto enviado ao JurisWay em 11/04/2016.

Última edição/atualização em 12/04/2016.



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INTRODUÇÃO

 

O problema etica e politica nasce na antigüidade, nao tanto como problema entre etica e politica, mas com a problematica distinção entre bom governo e mau governo, que daí deriva a distinção entre rei e tirano. Nessa época, predominava o monismo entre etica e politica, a pratica de uma implicava a pratica da outra, desconsiderando, inclusive, a existência dessa integração entre os dois sistemas normativos (moral e política) por considerarem um só sistema. A política é a ética exata só que em um âmbito geral, enquanto a ética aparecia na vida particular do indivíduo a política aparecia na polis.


ÉTICA E POLÍTICA ARISTOTÉLICA

 

Refletir sobre a ética de Aristóteles demanda alguma investigação acerca de sua maneira de conceber a política.

“Apreender a idéia da ética de Aristóteles demanda deslocamento de nossa maneira usual de perceber o tema. Segundo Aristóteles, o objetivo primeiro da ética era a felicidade. Para este filósofo, a felicidade era uma boa vida; e esta corresponderia a uma vida digna. Nesse sentido, a ética estaria subordinada à política.”

A ética Aristotélica falava de laços que uniam e atavam o indivíduo à comunidade e a responsabilidade do ato humano, em Aristóteles, era depositada sobre o agente. Assim, quando um indivíduo age, toda a pólis sofre a ação e implica com isso a responsabilização de qualquer ação sobre o homem. Assim, todo homem agiria de acordo com essa ideia e faria tudo pelo bem da cidade grega.

“Vemos que toda cidade é uma espécie de comunidade, e toda comunidade se forma com vistas a algum bem, pois todas as ações de todos os homens são praticadas com vistas ao que lhes parece um bem; se todas as comunidades visam a algum bem, é evidente que a mais importante de todas elas e que inclui das as outras tem mais que todas este objetivo e visa ao mais importante de todos os bens ela se chama cidade e é a comunidade política.” P. 1

Assim, a ética aristotélico tinha como fim atingir a felicidade tanto do homem político quanto do não político, não importando como atingir essa felicidade. O ético (a ação “correta” (explicada na citação posterior)) levava ao bem de um homem e assim, perpetuada, levava o bem todos os outros homens. O bem de todos os homens, no caso, o bem da pólis, era o bem do interesse político. Se a ética está preocupada com a felicidade individual do homem, a política se preocupa com a felicidade coletiva da pólis. Desse modo, é tarefa da política investigar e descobrir quais são as formas de governo e as instituições capazes de assegurar a felicidade coletiva. Por isso da relação aristotélica entre política e ética, inseparáveis em seu conceito.

Aristóteles, refletindo sobre como o homem poderia conviver harmoniosamente em sociedade, afirmava que a felicidade era a finalidade de todo homem. Segundo Aristóteles, o homem deve procurar em igual proporção a felicidade individual (ética) e a felicidade coletiva (política), uma indissociável da outra visto que ao homem por excelência ser social lhe é vedada a possibilidade de felicidade fora da Pólis. Mas como concretizar a relação entre a ética e política, ou seja, a relação entre felicidade individual e coletiva? Ele não difere a esfera pública da privada e as felicidades são indissociáveis. Segundo Aristóteles somente a virtude, ou melhor, um homem virtuoso, aquele que age segundo o bem, pautado pelo raciocínio e escolha livre, justiça e amizade é capaz de atingir a felicidade, somente através deste tipo de atitude praticada individual e socialmente é possível atingir o objetivo, felicidade, vida soberana, autonomia. Uma ação virtuosa é resultado de uma escolha refletida em que se é pesado os excessos e as ausências buscando o equilíbrio. O sujeito através de sua deliberação livre procura realizar sua ação pelo justo meio. Aristóteles faz distinção entre ética e política, centrada a ética na ação voluntária e moral do indivíduo enquanto tal, e a política, nas vinculações deste com a comunidade. Contudo, sabemos serem inseparáveis tais conceitos. A relação entre ética e política é oriunda do projeto, do equilíbrio, ou busca.

A pólis é o sumo bem e é ilegítimo e eticamente reprovável todo o ato que escape a autoridade instituída.

“A expressão “corretas” deve ser entendida no sentido de equitativas, e significa corretas em relação ao interesse de toda a cidade e ao bem estar dos cidadãos; cidadão, de um modo geral, é uma pessoa que participa das funções de governo e é governado, embora ele seja diferente segundo cada forma de governo; em relação à melhor forma, cidadão é uma pessoa dotada de capacidade e vontade de ser governada e governar com vistas a uma vida conforme o mérito de cada um.” P. 104

 

ÉTICA E POLÍTICA PARA MAQUIAVEL

 

A Itália em que Maquiavel viveu era constituída por diversos e pequenos Estados com economia, cultura e regimes políticos variados. A península estava então sujeita a diversos conflitos entre elas e vulnerável a constantes invasões por parte dos estrangeiros. Foi num cenário conturbado, no qual a maioria dos governantes não conseguiam se manter no poder por um tempo superior a dois meses, que Maquiavel passou sua infância e adolescência, e essa situação se agrava no final do século em que desordem e a instabilidade política ficaram incontroláveis.

Maquiavel, então, diferentemente da tradição idealista de Platão, Aristóteles e Santo Tomás de Aquino segue o outro caminho trilhado pelos historiadores antigos, como Tácito, Políbio e outros. Esse novo caminho é analisar a verdade efetiva das coisas, ver e examinar a realidade como ela é, o ser, e não como gostaria que fosse, o dever ser. Para resolver o problema da instabilidade Maquiavel acredita só um Estado real capaz de impor a ordem pode resolver essa questão.

“Mas sendo minha intenção escrever coisa útil, destinada a quem por ela se interessar, pareceu-me mais conveniente ir diretamente à efetivaverdade do que comprazer-me em imaginá-la. Muita gente imaginou republicas e principados que jamais goram vistos ou de cuja reak existência jamais se teve noticia. E é tão diferente o como se vive do como se deveria viver, que aquele que desatende ao que se faz e se atem ao que se deveria fazer aprende antes a maneira de arruinar-se do que a de preservar-se. Assim, o homrm que queira em tudo agir como bom acabará arruinando-se em meio a tantos que nõa são bons. Daí ser necessário a um príncipe, para manter-se, aprender a não ser bom, e usar ou não usar o aprendido, de acordo com a necessidade.” P. 101

 

Maquiavel então escreve O Príncipe com a intenção de manter o próximo príncipe no poder. No livro são trazidas várias referências de outras monarquias que deram certo quanto outras em que os monarcas erraram em sua atuação. Dessa forma, o autor escreve uma espécie um manual ao novo príncipe, com o que fazer quando no poder, como agir diante dos súditos, diante de estrangeiros, diante dos poderosos e diante do próprio território.

Guiado pela verdade efetiva, Maquiavel estuda a história e reavalia sua experiência como funcionário do Estado. Seu “diálogo” com os homens da antiguidade clássica e sua prática levam-no a concluir que por toda parte, e em todos os tempos, pode-se observar a presença de traços humanos imutáveis. Daí afirmar, os homens, “são ingratos, volúveis, simuladores, covardes ante os perigos, ávidos de lucro” (O príncipe, cap. XVII). Estes atributos negativos compõem a natureza humana e mostram que o conflito e a anarquia são desdobramentos necessários dessas paixões e instintos malévolos. Por outro lado, sua reiterada permanência em todas as épocas e sociedades transformam a história numa privilegiada fonte de ensinamentos. (SADEK, pag. 85).

Desta forma, sustenta o pensador florentino,

Aquele que estudar cuidadosamente o passado pode prever os acontecimentos que se produzirão em cada Estado e utilizar os mesmos meios que os empregados pelos antigos. Ou então, se não há mais os remédios que já foram empregados, imaginar outros novos, segundo a semelhança dos acontecimentos. (Discursos, livro I, cap. XXXIX).

A história se repete indefinidamente já que não há meios de “domesticar” a natureza humana. Dessa forma, encontra-se na história a ordem que sucede à desordem e esta, por sua vez, clama pela ordem. Para Maquiavel o poder aparece como a única possibilidade de enfrentar o conflito, ainda que qualquer forma de domesticação seja precária e transitória. O poder do Estado existe para acalmar os conflitos e acabar com a instabilidade.

Devido a essa desordem proveniente da imutabilidade da natureza humana, Maquiavel acresce a isso a presença de duas forças presente em todas as sociedades que são responsáveis também pela instabilidade. Uma dessas forças provém do povo oprimido não desejar ser dominado e a outra do dominado manter essa dominação. O problema da política é encontrar meios que equilibrem essas forças. Segundo Sadek, Maquiavel sugere duas respostas à anarquia decorrente da natureza humana e do confronto entre grupos sociais: o Principado e a República. A escolha de uma das formas não depende da vontade ou de considerações idealista, mas sim da situação concreta.

Sendo assim, quando a nação encontra-se ameaçada de deterioração, quando a corrupção alastrou-se, é necessário um governo forte, que crie e coloque instrumentos de poder para inibir a vitalidade das forças desagregadoras e centrífugas. O Príncipe não é um ditador; é, mais propriamente, um fundador do Estado, um agente de transição numa fase em que a nação se acha ameaçada de decomposição. Quando; ao contrário, a sociedade já encontrou formas de equilíbrio, o poder político cumpriu sua função regeneradora e “educadora”, ela está preparada para República. (SADEK, pag. 86).

Na Itália dividida e corrupta, o Principado é a melhor solução para unificar os Estados e manter a estabilidade política interna. Essa solução não foi uma escolha, mas foi a situação que levou o Principado a ser a melhor forma.

 

O diferencial dO Príncipe Possivelmente, o maior trabalho deixado por Maquiavel para o pensamento político-filosófico, foi a realizar a “separação” (as aspas serão explicadas no futuro) entre ética e política. Para os pensadores clássicos, como foi dito anteriormente, a política e a ética estão estritamente ligadas; a ética se serve da política buscando uma harmonia comum na sociedade.

A Grécia clássica formalizou a união entre ética e politica, tornando-as inseparáveis. A partir daí, o corpo do cristianismo passou a identificar o governante como um representante de Deus, representante da ética e da política santificado pela religião cristã. Com as transformações políticas a virtude ganhou importância central na política, guiando o homem político pela ideia de justiça e o bem comum. Toda essa representação e conjunto de ideias são descartadas por Maquiavel.

Devemos entender a relação entre a virtude e a fortuna no pensamento de Maquiavel para a compreensão de sua quebra entre ética e política.

"A questão da ética vista em sua forma tradicional diferenciava entre o que “estava ou não” em nosso poder para as decisões. O que “está em nosso poder” faz parte das decisões racionais e livres, portanto, faz parte da “virtude”, e o que “não está em nosso poder” (que significa “o conjunto de circunstâncias externas que agem sobre nós e determinam nossa vontade e nossa ação”) para as decisões faz parte da “fortuna”. A ética sempre foi vista como uma inseparável oposição entre virtude-fortuna. Como ética e política não se separam no pensamento antigo. O governante virtuoso é aquele cujas virtudes não sucumbem ao poderio da caprichosa e inconstante fortuna” (CHAUI, 1998, p. 397).

É importante ressaltar que Maquiavel não separa a política da ética, apenas mostra, exemplificando com fatos históricos, que a política sempre esteve separada de fato da ética cristã.

O próprio Maquiavel diz que trata a política como ela é, logo, apresenta uma realidade  que se lhe apresenta pronta, não que é criada por ele. A política, tratada por Maquiavel, se resuma em ações que visam a manutenção do poder. No entanto, que a manutenção e a tomada do poder perseguidas com ações desvinculadas da ética cristã, não são um fim em si mesmo e nem um fim alheio ao bem comum dos súditos. O próprio Maquiavel esclarece o porquê de o príncipe colocar a tomada e manutenção do poder no topo das suas prioridades, ainda que isso aparente ser a prática eventual de uma mal isolado:

“Reportando-me às outras qualidades já referidas, digo que cada príncipe deve desejar ser tido como piedoso e não como cruel: não obstante isso, deve ter o cuidado de não usar mal essa piedade. César Bórgia era considerado cruel; entretanto, essa sua crueldade tinha recuperado a Romanha, logrando uní-la e pô-la em paz e em lealdade. O que, se bem considerado for, mostrará ter sido ele muito mais piedoso do que o povo florentino, o qual, para fugir à pecha de cruel, deixou que Pistóia fosse destruída. Um príncipe não deve, pois, temer a má fama de cruel, desde que por ela mantenha seus súditos unidos e leais, pois que, com mui poucos exemplos, ele será mais piedoso do que aqueles que, por excessiva piedade, deixam acontecer as desordens das quais resultam assassínios ou rapinagens: porque estes costumam prejudicar a comunidade inteira, enquanto aquelas execuções que emanam do príncipe atingem apenas um indivíduo.” (Maquiavel, 2010, p. 67)

Deve-se observar que as regras de conduta em que a política exige, não são preestabelecidas ou direcionadas em algum tipo de manual. Não existe um manual que garanta sempre o resultado objetivado, pois os objetivos buscados pelo príncipe são determinados, principalmente, por suas ações, mas em parte da boa fortuna. Apesar de o príncipe apresentar um leque de critérios que servem como um guia para suas ações, dependeria exclusivamente dele saber a sua utilização. O príncipe deve saber equilibrar ações políticas, escolher entre as entre as melhores possíveis,controlar suas ações perante  as circunstâncias de modo a apresentá-las, mesmo que a fortuna não lhe tenha sido grata.

"A essa habilidade do príncipe de manobrar as circunstâncias, escolher a ação adequada de acordo com o caso concreto, modular a intensidade da conduta, forjar as conjunturas favoráveis mesmo contra a boa fortuna, estar sempre preparado para aproveitar as oportunidades eventuais, Maquiavel chama de virtu. De modo extremamente resumido, é possível dizer que a virtu em Maquiavel assemelha-se à astúcia que os gregos tão bem descreveram como uma das principais características do mítico Ulisses, Rei de Ítaca." (Cirino Coelho, 2002, pág 25)

 

 

ÉTICA E POLÍTICA PARA BOBBIO

O problema entre ética e política para Bobbio não está nos atos políticos e sua classificação como moralmente lícitos ou ilícitos, mas se podem ser caracterizados como moralmente lícitos e ilícitos. A ideia defendida é que atos políticos não necessitam ser caracterizados através da moral, ou princípios, mas através de sua utilidade para o publico. Um bom governante não mede suas ações e não consideram as consequências destas, apenas seus resultados. Bobbio diz que a honestidade politica nada mais é que a capacidade politica, o que nos trás à máxima maquiaveliana de ética de resultados acima de ética dos princípios. A capacidade politica significa atuar de acordo com os resultados, algo que Maquiavel chama de virtude.

Teorias descritas por Bobbio sobre a relação ética e direito:

Monismo Rígido: Resume moral à politica ou politica à moral. Argumentos consequencialistas, ou seja, que levam em conta as consequências dos atos. Acreditam também nos prêmios das ações boas do príncipe. Possuem, segundo Bobbio, argumentos fracos que não são sustentados pela história, nem pela experiência comum. Erasmo (politica à moral) contemporâneo de Maquiavel, totalmente oposto ao príncipe. Aqui a satisfação do príncipe esta em ser justo, não em fazer grandes coisas. Hobbes: reduz igreja a Estado e, assim, moral à politica. A vontade do soberano não pode ser julgada por um súdito, porque só o soberano tem esse poder. Hobbes nao diferencia príncipe de tirano e nem mau governo de bom governo.

Monismo flexível: Resume tudo a um sistema normativo só, que é a moral. Todas as outras ações que não se enquadram como corretas, são aceitas caso se trate de casos excepcionais. Como se houvesse um sistema dentro do sistema moral que aceitasse algumas condutas políticas dentro deste oficio, por exemplo. Os teóricos deste monismo surgiram para amenizar o impacto da publicação de Maquiavel e sua teoria dualista. Tentando salvaguardar o principio moral e mantendo-o como base dos atos políticos. Jean Bodin.

O dualismo, enfim, só surge com o advento da religião cristã. dando inicio a uma serie de teorias sobre ética e politica que se dividem entre desconsideração do principio moral em favor da boa pratica política. O longo debate sobre razão de Estado é um comentário, que durou séculos, a esta afirmação peremptória e incontestavelmente verídica: “na ação política contam não os princípios, mas as grandes coisas” (Bobbio, Teoria Geral da Política p.183). Basicamente existe uma forma de ver a ética e a politica, ambas como ordenamentos normativos distintos, contudo não completamente separados. Bobbio fala de uma relação direta entre eles como se fossem ordenamentos jurídicos, podendo um ser superior, o outro será inferior.

 

ÉTICA E POLÍTICA PARA HEGEL

A política Hegeliana é uma resposta dada por ele aos desafios sociais e políticos de seu tempo, não pode ser compreendida se não levar em consideração o fato de que seus conceitos básicos constituem, ao mesmo tempo, um ápice de toda a tradição filosófica ocidental.  A filosofia de Hegel coloca a filosofia como sendo verdade política, pressuponho que: O projeto fundamental de Hegel é um projeto do homem em sua perfeição limitada, isto é, este projeto deve realizar-se em todas as dimensões da vida humana, e portanto também na dimensão estritamente política.   Mas a vida  que sempre interessará a Hegel creio que não seja a vida da interioridade subjetiva, fechada em si mesma, do formalismo psicológico, mas a vida enquanto ela é a contradição entre a vida substancial e a subjetividade do ser.

Uma das características, mais marcante no pensamento de Hegel é a sua convicção aos seus ideais, que pressupõe uma verdade como princípio gerado das coisas  no mundo, mas  o que mais almejava, era  á instauração de um  mundo político com vitalidade análoga á da polis grega; a cidade antiga era para ele modelo para a  realização de seu ser, com uma totalidade e harmonia.  Permeando este ideal político,  encontra-se o ideal de liberdade. Esta porém, não deveria ser determinada de maneira exterior ao homem, pois  tal determinação seria, precisamente, o contrário da liberdade: a destruição da unidade, a própria deformação daquele ideal. A liberdade, para o nosso filosofo, deve nascer do interior, antecipando-se como sentido de liberdade. Esse projeto político, no entanto, exigia, no pensamento de Hegel que  se estabelecesse uma mediação entre o indivíduo e o ideal da polis. Essa mediação deveria ser encontrada numa religião do povo, pois, pensava na existência religiosa é que se encontraria  o ser mais profundo do homem. Mas é necessário notar, que a religião se  voltasse para a razão e a liberdade,  para a vida, enquanto universalidade e totalidade; somente dessa maneira poderia operar a educação do povo. Mas e necessário afirmar que:  essas considerações acabaram por conduzir Hegel ao  exame da  religião tal como existiria de fato, exame que, por sua vez, levou-o a proclamar a necessidade de transformação da religião privada, consagradora da vida separada dos  indivíduos, em uma religião  pública ou melhor, popular. Em seu modo de ver, a eliminação da religião do despotismo e a instauração da religião da liberdade possibilitariam o retorno da totalidade grega, que  encontrava na primeira um grande obstáculo. Mas em Hegel  existia um entusiasmo,  que a totalidade grega despertava em   seus escritos, pois para ele o homem tinha a capacidade de conhecer a si mesmo, partindo da liberdade.

Mas Hegel em um dos seus escritos descreve o aparecimento de uma totalidade ético-política mediatizada pelos indivíduos da sociedade, cuja existia uma liberdade subjetiva (Cristã) é reconhecida definitivamente. Para ele esses indivíduos  não presenciam a realização de suas verdades na esfera da vida política, mas  em uma  esfera superior, a da interioridade. “A liberdade subjetiva e Hegel se constituiu na autonomia da vontade e se exerce pelo assentimento de cada um em reconhecer como tendo valor apenas aquilo que a vontade julga como bom para si”, mas a liberdade subjetiva  só encontra campo no Estado, história e nas relações humanas.

O tema central dessa obra, sem prejuízo para os demais enfoques, está relacionado à efetivação do plano da liberdade como dimensão do Direito, no sentido da eticidade, em que o Estado assume a instância universal de superação de todas as particularidades (HARTMANN, 1983, p. 598). Sendo assim, o Estado, na concepção de Hegel, tem em si a idéia de representar a totalidade político-social, de encerrar em si o mundo público e o mundo privado, a restauração da vida ética a partir da representação grega. Hegel pensa a comunidade no sentido politicamente estatal, ou seja, por meio da norma jurídica como instrumento político a resguardar a liberdade, atingindo sua realização num elo comum a todos. O Estado é para Hegel, ao mesmo tempo, tanto poder como função, por sinal uma função política cujo escopo é o trato da coisa pública enquanto devidamente pública, isso para a satisfação do indivíduo, socialmente. O pensamento de Hegel é herdeiro da Revolução Francesa de 1789 e, como tal, tem na lei, portanto na legalidade, o fundamento da nação enquanto sociedade organizada, cujo fim é a liberdade como valor máximo de integralidade humana.

A Filosofia do Direito, de Hegel, pode ser tomada como uma tentativa de firmar o princípio racional como real, na medida em que a sociedade civil é apenas uma etapa que o espírito objetivo cumpre até se realizar como Estado: a verdade que se volta a si mesma, preocupada em ir ao encontro da história e dela resgatar a dimensão do homem. No seu entendimento, tanto a família quanto a sociedade civil são dois momentos que antecedem o Estado, mas que, na verdade, traduzem a idéia de Estado. Etapas as quais o Estado superou, como autodesenvolvimento de si na objetivação do plano da liberdade. Família e sociedade civil são reinos particulares diante do Estado; todavia, consideradas em si, constituem o desenvolvimento da idéia de liberdade, a passagem do contingente para o racional, isto é, o necessário. Família e sociedade civil são, segundo Hegel, necessidades em que o espírito no processo toma consciência de si.

Para Hegel, a concepção da separação dos poderes tem em si algo que, devidamente entendida, é importante no sentido da determinação da liberdade pública, mas que, para isso, é preciso, sobretudo, compreender que tal separação não pode passar de um princípio de distribuição de funções, não comprometendo a unidade soberana do Estado. Embora admirador de Montesquieu, a quem confere importância capital quanto à pesquisa das constituições, Hegel entende divisão de poderes como desconcentração de funções estatais: "Entre as concepções correntes, deverse-á mencionar a da necessária separação dos poderes. Poderia ser ela uma concepção muito importante, pelo que representa de garantia da liberdade pública, se fosse tomada no seuverdadeiro sentido [...]. É nela que se encontra o elemento da determinação racional. O princípio da separação contém, com efeito, como elemento essencial, a diferenciação, a razão na realidade" (idem, p. 252).

 

ÉTICA E POLÍTICA NA ATUALIDADE

Desafios na relação entre político e ético

De acordo com Barbosa (2007, P. 105):

“O primeiro desafio para a conquista de uma Política Ética é a superação de problemas concernentes à relação entre a Política e a Moral. Isto porque eles podem comprometer a conquista de eficácia e de legitimidade do pensamento e da prática política.”

Nesse sentido, para o autor, na atualidade, cercada de diferentes tipos de comunidades, onde cada uma tem um tipo de código de conduta, é necessário, tratar dos desafios que separação a política da moral. Entre estes desafios, podemos citar, como o autor sugere, estão a separação das ações politicas em relação a “politica moralista”, que avalia as ações políticas de acordo somente com os princípios morais que norteiam a sociedade, ou seja, que não incomodem em relação a moral individual. Com isso, a política moralista personifica as ações politicas em um indivíduo, geralmente o líder da ação, fazendo com que os indivíduos desta sociedade coloquem as esperanças num caráter privado. Como consequências dessa personificação do poder, além desta, esta a principal, que é a submissão da política à moral, podendo causar uma autocracia do líder, colocando as ações politicas com fisionomia e com um descrédito do Estado em si.

Do mesmo modo, outro desafio lançado por Barbosa (2007, P. 106) é a necessidade de que as ações políticas não sejam somente “um realismo político”, ou seja, autonomia e especificidade da esfera pública em detrimento de outros campos, tal como a moral, direito, etc., destituindo de responsabilidade os que governam, assegurando objetivos sociais, a qualquer preço e independentes de qualquer tipo de tipo de avaliação moral.

A partir desse realismo político, as ações políticas teriam sim, a legitimidade política, não tendo necessariamente algum tipo de legitimidade moral por parte da sociedade onde é inserida a ação, como afirma Barbosa (2007, P. 116)

“O realismo político subtrai dos atos políticos qualquer avaliação moral, visto que os fins lhe imporia iniciativas socialmente necessárias e os resultados concretos lhe emprestariam a legitimidade política (não necessariamente Moral).”

Em outro trecho, o autor afirma que, por mais que seja possível ter legitimidade política, o realismo político é um mal, pois não gera a eficácia da política, pois, ela não leva, em determinadas vezes, a um consenso em um caráter ético por parte da população, ou seja, tratar o ser humano como objeto pensante, que tem o poder de decidir o que é melhor para ele. Isso traz consequências negativas, tais quais a carência de publicidade na prática política e o autoritarismo político.

De todo modo, Barbosa conclui (2007, P. 117):

A Política e a Moral como esferas distintas da vida social podem e devem assumir uma relação que respeite a autonomia e a especificidade de cada uma. Todavia, deve ser uma relação de complementaridade. A ação política não pode prescindir-se da Moral. A Moral vigente configura expectativas nos sujeitos sociais que, quando contrariadas profundamente, dificilmente permitirá à política legitimidade. De outro lado, quando a Política submete-se à Moral vigente, perde em grande medida o seu poder transgressor, visto que esta Moral expressa, legitima e justifica uma determinada hegemonia social. A Moral não pode prescindir-se da Política, sem a qual dificilmente adquirirá uma dimensão social mais flexível à mudanças e maior tolerância.

Nesse sentido, é necessário que a política e a moral sejam analisadas não de formas separadas, mas sim de formas complementares, acatando a autonomia de cada um, para que assim se possa buscar a Ética Política atual.

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

 

ARISTÓTELES. Política, Trad. Mário da Gama Cmy. 3. Brasília: EDUNB, 1997.

ARISTÓTELES. Ética a Nicômaco. Tradução Leonel Vallandro e Gerd Bornheim.

NICOLAU, Maquiavel - "O Príncipe", Edicota Difel (Brasi), 2002. 

SADEK, Maria Teresa. Nicolau Maquiavel: o cidadão sem fortuna, o intelectual de virtù.

BOBBIO, Norberto. Teoria Geral da Politica.

HARTMANN, N. 1983. A filosofia do idealismo alemão. Lisboa : C. Gulbenkian.

BARBOSA, Walmir. SOCIEDADE, ÉTICA E POLÍTICA. 2007

CHAUI, Marilena (1998). Ética e Violência. [Palestra apresentada no Colóquio Interlocuções com Marilena Chaui, São Paulo].

Weber T. Ética e Filosofia Política: Hegel e o Formalismo Kantiano.

 

BARBOSA, Walmir. SOCIEDADE, ÉTICA E POLÍTICA. In: BARBOSA, Walmir. SOCIEDADE, ÉTICA E POLÍTICA. Goiania: Ifg, 2007. p. 105, 116, 117. Disponível em: . Acesso em: 15 fev. 2013.

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