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ASPECTOS DA FUNÇÃO SOCIAL DA ORALIDADE NO AMBIENTE ESCOLAR NUMA PERSPECTIVA PRAGMÁTICA


Autoria:

Antonio Porfirio Filho


Brasileiro, funcionário público, graduado em Letras/Português/Inglês, pós-graduação Formação de Professor e Língua Portuguesa - Universidade Federal de Alagoas, bacharel em Direito/FACIMA/AL.

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Resumo:

O homem é um ser social. Interagem intersubjetivamente. Comunica-se com seus pares. Aperfeiçoa mecanismos de socialização à medida que convive em comunidade. A oralidade cumpre sua função social na escola e nos diferentes contextos da sociedade.

Texto enviado ao JurisWay em 24/05/2011.

Última edição/atualização em 26/06/2015.



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  1. O homem como ser social usuário de uma linguagem naturalmente oral 
Para falar sobre a função social da oralidade talvez seja conveniente que façamos alguma exposição a despeito do homem como ser social, inserido, portanto, em uma sociedade que, no mínimo, espera dele uma interação de forma efetiva (aqui empregada como sinônimo de participação concreta, real), tendo em vista que, conforme faz anotar Silveira (2003, 9), “interação é o produto da interestimulação, é o consumar-se da relação social”[1]).
Com efeito, o homem trata-se de um animal. Não obstante, difere-se dos demais seja por sua conjuntura orgânica e metabólica e motora, seja por sua natureza afetiva, política e social. Por esta, pode-se dizer que o homem é um ser naturalmente social, de forma que, parece-nos, necessita, e de maneira constante, interagir intersubjetivamente, por meio do que se denomina sociabilidade, que nada mais é do que “a propensão do homem para viver junto com os outros e comunicar-se com eles, torná-los participantes das próprias experiências e dos próprios desejos, conviver com eles as mesmas emoções e os mesmos bens”.[2]
Dessa particular natureza humana pensamos que há uma estreita dependência de relacionar-se entre si (com os demais homens), de modo a permitir, até, a sua própria subsistência, a alcançar novos horizontes, a suplantar novos desafios, enfim, a implantar novas descobertas. O homem reduzido na figura de Robson Crusoé[3] não teria, então, a plenitude de seu desenvolvimento, pois não haveria com quem compartilhar suas descobertas e efetuar a apreensão do que se tem para aprender com o outro, ficando assim tolhido a uma insignificância que não seria condizente com a sua própria manifestação humana. A obra em passagem é objeto de várias abordagens nos diferentes campos das ciências sociais. Nela vê-se que é a partir da chegada do companheiro do protagonista – o índio Sexta-Feira – demonstram-se as várias facetas da natureza humana, em prima facie, a de relacionar-se mutuamente.  Desse modo, podemos dizer que a figura do alther muito tem de importância para o desenvolvimento do homem, pois o permite projetar-se nos outros homens para, a partir daí, produzir seu próprio desenvolvimento; e, como num efeito dinâmico, concorre para o desenvolvimento da própria sociedade na qual está inserido. Cremos que isso pode acontecer porque:
 
O homem é essencialmente sociável; sozinho não pode vir a este mundo, não pode crescer, não pode educar-se; sozinho não pode nem ao menos satisfazer suas necessidades reais elementares nem realizar as suas aspirações mais elevadas; ele pode obter tudo isso apenas em companhia dos outros.[4]
 
 
Assim, diríamos que as relações entre os homens precisaram, ao longo da história, de veículos (meio propulsores) que os levassem ao cumprimento dessa carência de estabelecer as relações uns com os outros.
Pensamos, então, que a oralidade, como expressão primeira de comunicação humana, serviu, aos poucos, ao fim de estabelecer a interação entre os homens, visando, assim, cada vez mais à melhoria das relações intersubjetivas, eis por que, se considerarmos que a oralidade é uma linguagem humana, precisaremos levar em conta a “...concepção de linguagem como atividade interativa e inerentemente social”, consoante preconiza Silveira (2003, p. 9). De modo, assim, a tornar efetivo e perene o cumprimento e a estabilidade das relações humanas por meio de um processo comunicativo.
Conquanto possam considerar que caso olhemos em volta e percebamos quanta discrepância, inconstância e instabilidade existentes nas relações humanas, muitos podem alegar que esse processo comunicativo não trouxe a melhora dessas relações; também poderemos alegar, a contrário sensu que, mesmo com um olhar pessimista assim, no mínimo talvez seja necessário enxergar que essa melhora se deu muito mais do ponto de vista do próprio processo comunicativo, haja vista que os conflitos havidos entre os homens não poderiam ter nascido simplesmente a partir do ponto da criação, ou desenvolvimento da forma de comunicação oral - oralidade. Historicamente, os homens sempre lutaram entre si, seja por busca de alimentos para fins de subsistência, seja por simples prazer de manter um status quo superior aos demais.
Dessa forma, por considerarmos os diferentes contextos sociais dos quais o homem historicamente está intimamente inserido e dele não pode desvincular-se, como se um objeto inanimado fosse (pelo contrário, tem de ser visto, acatado e aceito como sujeito que é, em suas diferentes concepções, como ora já se definiu, como sujeito de direito, sujeito comunicativo, sujeito ou ser político, dentre outras cognominações) concordamos com Silveira (2005, p. 35), quando aponta que
 
Os usos sociais da língua diversificam-se conforme a diversidade de ações que se realizam nas interações discursivas. Naturalmente, nas sociedades organizadas, a maioria das situações de uso interacional da língua são convencionalizadas e reiteradas na própria dinâmica das atividades sociais no cotidiano da vida humana, tanto no âmbito mais privativo, como no plano público e comunitário.
 
 
O que nos dá, até, respaldo para responder àqueles que possam alegar que a oralidade, como processo comunicativo, não melhorou as relações interpessoais, pois pensamos que até mesmo numa situação de conflito, a comunicação oral desempenha sua função, pois se dá instantânea e tempestivamente – no momento, na hora em que é realizada. Assim, mesmo nessa situação, pode-se dizer que está inserida em uma condicionante de uso social, haja vista que a linguagem humana é também um traço do caráter da sociabilidade do homem, deste modo, “a linguagem consequentemente consente-lhe entrar em comunicação com os seus semelhantes”.[5] Daí por que considerarmos a oralidade como expressão máxima e primeira dessa linguagem, haja vista que o homem, além de ser um ser, distingue-se também dos demais pelo uso da fala:
 
 
Uma das definições que hoje aparece mais frequentemente, porém, é a que caracteriza o homem como ser falante: homo loquens. Ela é definição particularmente ajustada, porque, de fato, a propriedade de falar distingue nitidamente o homem dos animais e de qualquer outro ser deste mundo e faz dele um ser totalmente singular[6].
 
 
Por ser assim a oralidade, uma espécie de linguagem, tem por característica imprescindível à diferenciação do homem em face dos outros animais, bem como, por extensão, a quaisquer outros seres imagináveis do Planeta. Guarda, portanto, a oralidade, um traço marcante e especial à natureza existencial do homem, pois que lhe dá o condão e o suporte de diferenciação em relação aos demais seres, bem como o coloca em estado de relação com os demais homens, seja harmoniosamente, seja em situação de confronto.
2. A oralidade como fato social.
Abordar sobre a natureza de algo às vezes pressupõe predizer à própria análise em questão, o que exige, então, que se traga a lume uma pequena inserção do que significaria a expressão fato social, para a partir daí trazerem-se considerações sobre o caráter da oralidade como fato social, eis o objetivo deste fragmento discursivo.
           
            Indubitavelmente é Émile Durkheim[7] – considerado o fundador da Sociologia de cunho científico - quem faz um estudo percuciente do conceito, natureza e característica do fato social, no seu livro intitulado As Regras do Método Sociológico. Segundo o autor,
 
Fato social é toda a maneira de fazer, fixada ou não, suscetível de exercer sobre o indivíduo uma coerção exterior: ou então, que é geral no âmbito de uma dada sociedade tendo, ao mesmo tempo, uma existência própria, independente das suas manifestações individuais”
 
            Desse conceito podemos trazer as seguintes observações: a simples maneira de fazer as coisas não poderia ser considerada como fato social, pois poderíamos incorrer no equívoco de aqui incluir as ações pessoais, como tomar banho, barbear-se, ir à feora. etc., de forma que a ação desenvolvida deve ser aquela que importa socialmente, que faz relevância para um grupo social, enfim, à sociedade; a noção de exterioridade faz-nos pensar que o fato social está desprovido de um caráter individualista, aquele centrado no homem como indivíduo; em verdade, deve estar presente em um conteúdo maior, ou seja, à própria sociedade, pois, por ser social, não interessa que se dê sua existência não menos que de forma plena, ampla, pois guarda uma generalidade, observando que “o fato social generaliza-se por ser social, mas não é social porque se generaliza”[8], já que há situações gerais que, por si só, não são necessariamente sociais, como tomar água, por exemplo, porque todo mundo precisa tomar água para sobreviver, no entanto, não tem um caráter social, pois não há necessariamente uma imposição da sociedade para que se tome água; a coercitividade apresenta-se como uma imposição, um fim imperativo que se dá quando do descumprimento de um preceito (mas não importa em castigo ou pena, necessariamente); e, por fim, a existência própria (do fato social), independentemente de vínculo com o indivíduo. Em outras palavras, fatos sociais são todos os “acontecimentos da vida em sociedade, práticas e condutas que refletem os seus costumes, valores, tradições, sentimentos e cultura, cuja elaboração é lenta e espontânea na vida social”[9].
 
            Considerar a oralidade um fato social permite-nos perceber que ela se faz independentemente da vontade que se tenha de usá-la ou não, de forma individual, pois existe no meio que ela se integra e se faz presente – a sociedade. Por se dar de forma real, concreta, igualmente, também guarda outra característica ímpar àquelas emanadas de um fato social: tem de ser tratada como uma coisa. E como tal, existe na coletividade, e por ser desprovida de dependência de um indivíduo, guarda exterioridade, que lhe confere, outrossim, um aspecto coercitivo. Haja vista que, nos diferentes meios ou circunstâncias da vida, há uma obrigação de os homens se comunicarem entre si, e olvidar essa certeza é jogar-se à marginalidade do grupo social em que se está inserido – eis aí a demonstração do poder coercitivo da oralidade. No entanto, não é pelo fato de utilizá-la que o homem a detém, pelo contrário, é pela sua existência universal que o homem tem a possibilidade de utilizá-la, como se um empréstimo fizesse para seu bom uso.
Até parece uma imagem pitoresca (e até aparentemente guarda um aspecto contraditório) perceber que a importância da oralidade, como fato social, é exterior à vontade de utilização pelo homem enquanto indivíduo; em contrapartida, deixando-a de lado, incorre, esse homem, na obrigação de ter de pagar uma prenda, que poderá ser, hipoteticamente, deixar de participar de um grupo social; não conseguir um emprego, caso não consiga se sair bem em uma entrevista; até mesmo perder um relacionamento, por ser taxado de “devagar na lábia” (aforismo popular). A oralidade, assim, é tratada como um fato social porque denota uma “coisa” que se faz presente no seio da sociedade, com grau de importância que reflete no comportamento e no convívio dos homens uns com os outros.
 2.1. A função social da Oralidade
 
            Consoante nós termos demonstrado que a oralidade está inserida no conceito de fato social, consideramos também que traz uma função à sociedade, o que convém, assim, de chamá-la de função social. Tal disposição não deve ser tratada simplesmente como um fim ou um objetivo, haja vista que, independentemente desses, a oralidade existe, assim como existe a sua função, já que se trata de um fato social, deste modo, “servimo-nos do termo função, em preferência a fim ou objetivo, justamente porque os fenômenos sociais não existem, em geral, tendo em vista os resultados úteis que possam produzir” (DURKHEIM, apud CASTRO, 2003, p. 153).
            E então, considerando a oralidade um fato social e, de forma complementar, por crer que ela guarda uma função social, que papel desempenha no seio da sociedade, que lhe conceda esse caráter de cumprimento de uma função social? Certamente, poder-se-ia enumerar várias ações ou fatos que tragam o aspecto do papel de função social da oralidade. Pode-se dizer que um deles seria o de permitir a comunicação entre os indivíduos de uma sociedade, o que já lhe confere um status de universalidade, já que todos os seres pertencentes a um grupo social se comunicam. Conquanto a assertiva, certamente que primamos por considerar mais que isso, nós queremos assegurar que a primazia que faz com que a oralidade guarde em sua natureza a característica de uma função social está no aspecto de conferir ao homem o seu pleno desenvolvimento intelectual, cultural, social e político. E que esses, acima de tudo, permitiram ao homem a melhoria nas relações intersubjetivas, consoante já demonstramos.
            Isso porque, cremos que a função (idéia genérica) de uma coisa (nos dizeres de Durkheim) está para o que ela realiza em função de outra; portanto, não atua em função de si própria, mas em razão de outra coisa, assim sendo:
 
Será impróprio, por exemplo, falar de função quando o agir está direcionado de modo predominante ou exclusivo para o interesse do agente. Incorreto, pois, dizer-se que alguém estuda para cumprir a função de educar-se, mas seria adequado afirmar-se que alguém estuda para desempenhar as funções de médico, porquanto está se habilitando a fim de atender, também e principalmente, a necessidades e objetivos de outros sujeitos. Quando se diz que o fígado é um órgão ao qual se associa a função hepática, estamos afirmando que ele desempenha certa atividade cujos efeitos são direcionados em benefício de outros órgãos ou funções que, por sua vez, servem ao homem, em termos de totalidade[10].
 
            Em se tratando de função social, cremos que o processo se dê de forma análoga, ou seja, uma coisa (que pode ser o indivíduo, a norma, etc.) desempenha uma função social quando essa função deixa, sai do campo individual e transcende para o coletivo, em especial, a sociedade. É assim que se diz, por exemplo, que alguém se forma para servir à sociedade naquilo que escolheu fazer; de que as normas (leis ou, até mesmo as regras sociais, morais, religiosas) são elementos que servem à sociedade, haja vista a sua generalidade.
 
            Outrossim, cremos também que a oralidade guarda esse peculiar caráter de função social, isso por que apresenta as características pressupostas para receber essa nominação, ou seja, é genérica, é exterior; é coerciva[11].
            Esmiuçando, assim, tais características em relação à oralidade, é preciso que se tenha em mente de que estamos falando dela como espécie de linguagem. Deste modo, diz-se que é genérica por atuar em sociedade, ou, por extensão, em diferentes contextos sociais, e, mais além, em diferentes sociedades, de modo a não servir apenas ao indivíduo, como se dele fizesse parte in sui generis. É mais que isso, pois é exterior ao indivíduo, não precisando existir somente a partir de um único indivíduo. Caso não queira utilizá-la (o que é praticamente impossível, tendo em vista as diversas circunstâncias que o impelem a comunicar-se), mesmo assim ela existe, pois seu espírito de grandiosidade abarca o primado da existência não só de um indivíduo, mas de toda a humanidade, daí seu caráter universal. E por essa razão, de sua existência irrestrita e universal, faz-se coerciva, impositiva, de modo a permanecerem estáticos, marginalizados aqueles que por ventura não a saibam utilizar consoante as diferentes situações de exigência seja em seu grupo social de convívio seja em grupos sociais aos quais aspira participação.
 
3. A necessidade da demarcação dos espaços da oralidade no contexto social. A escola como marco do espaço de interação social da oralidade.
Falar, conversar, expressar-se, sem sombra de dúvidas traduz ação inerente ao homem, esse ser dotado de capacidade intelectual, mecânica e física para participar seja das mais acirradas discussões àquelas de conteúdo mais casual, intimamente falando. Verdade que até faz de forma natural e espontânea.
No ambiente escolar, os alunos começam a dar os primeiros passos rumo ao seu desenvolvimento intelectual após a família. Lá entram em contato com outras pessoas, faz novas amizades, adquire os primeiros colegas fora do grupo social da rua onde mora.
A escola, ambiente interativo, apresenta-se de forma dinâmica, todos podem participar de forma expressiva de vários conteúdos apresentados pelos professores. Estes, então, comunicam-se de várias maneiras com seus alunos, gestos, mímicas, escrita, oralmente. Mas é por meio da oralidade que se dá o primeiro bom dia, a boa tarde ou a boa noite. É de forma oral que se diz “presente, professor (a)!”, quando do momento da chamada. Poderíamos assegurar, então que a oralidade, nesses termos, já tem o seu lugar definido e assegurado na escola? É possível dizer que sim, já que nós dissemos, alhures, que, por ser considerada um fato social, é uma coisa que ocupa o seu lugar, pois apresenta-se com um caráter significativamente geral, externo, coercivo.        Entretanto, uma realidade diversa paira no meio escolar - a pouca importância que se dá à oralidade, à forma como ela é trabalhada na escola. Talvez isso ocorra porque se constata que “a fala é uma atividade muito mais central do que a escrita no dia-a-dia da maioria das pessoas. Contudo, as instituições escolares lhe dão atenção quase inversa à sua centralidade na relação com a escrita”. (MARCUSCHI, 2002, p. 21[12]).
É como se, por sabermos que falamos independentemente de irmos à escola, haja vista que o processo da fala se dá extra classe, ou seja, ninguém aprende a falar porque primeiramente vai à escola – é no convívio familiar, com os amigos, na igreja, em fim, nos diferentes meios de interação social que ocorre o processo de aquisição da capacidade de o homem falar – achamos que não é interessante ter a oralidade inserida como tema no contexto escolar. No entanto, “seríamos demasiado ingênuos se atribuíssemos essa atitude ao argumento de que a fala é tão praticada no dia-a-dia a ponto de já ser bem dominada e não precisar de ser transformada em objeto de estudo em sala de aula”[13].
Desse modo, como se procurasse uma razão para valorar a importância de trabalhar a oralidade na sala de aula, em especial na escola de ensino fundamental, por considerá-la a base do processo de ensino e aprendizagem, propusemos expor uma razão de cunho pragmático. E assim pensamos por considerar um aspecto da natureza do homem – a sua incisiva propensão de procurar uma razão prática para utilizar, manusear ou até mesmo estudar uma coisa, fazendo-o assim objeto de análise e de uso. Se considerarmos o momento histórico e os diferentes conceitos de mundo e de homem moderno hodiernamente, cremos que há certa imposição advinda dos diversos meios da sociedade de o homem ser célere, prático com os diferentes procedimentos, um deles a aprendizagem das coisas. Isso por que, na chamada era da globalização, os homens são compelidos a pensar com rapidez, desempenhar tarefas de forma mais ágil e decidir com presteza.
 
            Assim, acreditamos que, talvez, seja necessário demonstrar, de forma pragmática, a importância de se trabalhar a oralidade no ambiente escolar, para que tanto professores quanto alunos percebam que, no mundo hoje cada vez mais competitivo e exigente, expressar-se oralmente também seja uma ferramenta decisiva quando da inserção nos diferentes contextos sociais extra-escolar: emprego; relacionamento afetivo; convívio inter pessoal, etc.
Quando se trabalham assuntos relacionados à linguagem, geralmente são levadas em consideração as duas modalidades que parecem ser as mais conhecidas como partícipes da linguagem humana – a escrita e verbal. Às vezes, não se sabe se no íntimo a expressão verbal diz-se da oralidade, por tão negligente serem em relação a essa.
O predomínio da escrita em face da oralidade é discurso consolidado no meio acadêmico e científico sobre a linguagem. Mas ambas têm sua importância. As duas trazem suas peculiaridades, e ao mesmo tempo, de acordo com Cavalcante (2006), “constata-se também que a relação entre a oralidade e a escrita apresenta muito mais semelhança do que diferença”, isto é, são reconhecidas como tendo pontos em comum. E ambas servem mais do que para a comunicação.
2. Marcas da Oralidade na Escola. Onde encontrá-las.
 
Diz-se que na escola estimula-se mais a utilização, o uso da escrita, e que a oralidade é questão secundária, subsidiária, até. Os livros didáticos retratam esse quadro.
Em pesquisa realizada para um trabalho acadêmico[14], verificamos que o número de exercícios destinados à escrita supera os destinados à oralidade. Essa perspectiva já tinha sido constatada em trabalho publicado por Marcuschi (2002, p. 26):
 
Nota-se, por parte dos autores de livros didáticos, um descaso em relação à oralidade em geral. Veremos que o espaço dedicado à língua falada raramente supera o ridículo percentual de 2% no cômputo geral de páginas.
 
 
 
Uma das razões para essa comprovação pode ter a ver com a valorização dispensada à escrita nos diferentes seguimentos da sociedade, pois, segundo Cavalcante (2006), “a escrita, para determinados grupos sociais, significa desenvolvimento, educação e poder”. Sobre o assunto, vejamos o que escreveu Câmara Júnior (1976, 16):
 
A civilização deu uma importância extraordinária à escrita e, muitas vezes, quando nos referimos à linguagem, só pensamos nesse seu aspecto. É preciso não perder de vista, porém, que lhe dá ao lado, mais antiga, mais básica, uma expressão oral.
 
 
            Por outro lado, muitos teóricos e estudiosos da linguagem também têm assegurado a importância marcante da oralidade. É dito que esse meio de comunicação tem a mesma importância da escrita, pois certamente encontra sua forma de existir, como a entonação, a gestualidade. Nesse viés, não obstante constatar-se que há uma hegemonia da escrita diante da oralidade, na escola e, extensivamente, na sociedade, as pesquisas, para Cavalcante, “mostram que tanto a oralidade quanto a escrita apresentam propriedades básicas da língua”. De forma que cada uma dessas modalidades lingüísticas tem seu espaço definido, quando da razão de seu uso.
            Essa é a razão de nosso trabalho. Delimitar a importância dos espaços destinados à oralidade na escola, o que preferimos chamar de marcas da oralidade. O termo marcas, em nossa concepção, remete à idéia de traços, de caminhos, de razões que apontam para a importância para a propositura da existência dos espaços destinados à oralidade.
Como já foi dito, a oralidade ainda perde e muito para a escrita quanto ao espaço que lhe é destinado na escola. Vislumbramos essa asserção quando principalmente folheamos os livros didáticos. Dessa observação urge fazermos uma pergunta: para que serve a oralidade? Por que pensarmos em um espaço destinado para ela?
Na tentativa de encontrarmos respostas, temos mais perguntas que afirmações, pois realmente o tema não é desses que simplesmente discorrem a respeito, tomando-se conceitos e idéias já predefinidas de escritores famosos, de estudiosos do assunto, haja vista que, embora se tenha uma gama de livros que falem sobre, o convencimento ainda não bateu à porta das escolas, onde se tem professor e aluno como foco principal dessa abordagem.
Geralmente, os textos que abordam as questões sobre língua falada deixam-nos pensar que no fim o que se quer é proporcionar a incursão de variedades ditas privilegiadas. Tais textos salientam a importância da oralidade, mas não convencem em seu inteiro teor, pois falta o que dizer de uma pergunta que parece ser o liame do assunto – para que serve trabalhar a oralidade na escola?
            Os diferentes discursos sobre oralidade nos fazem pensar sobre o seu uso na escola, então pelo aluno, e também, e, sobretudo, até, quando esse em convivência com outras pessoas, já como participante e integrante de um grupo social, diga-se ainda, da sociedade. Sobre essa questão,
 
Bakhtin via o homem não como um ser biológico abstrato, mas histórico e social. Assim como via o homem na sua realidade histórica, também historicizava a linguagem, enraizando-a na existência histórica e social dos homens.
(FREITAS, 2003)
 
Tal pensamento chama o feito à ordem para a pergunta que não quer calar: para que serve trabalhar a oralidade na escola? Na tentativa de encontrarmos respostas, remetemo-nos, em primeiro plano, à escola. As marcas da oralidade na escola, presentes quando se encontram razões para colocar-se em pauta assuntos como o trabalho com as variações lingüísticas; as diferenças e semelhanças entre oralidade e escrita; o preconceito lingüístico (percebido principalmente quando alguém abre a boca para falar); e outros, como acentua Marcuschi (2001), os fenômenos da oralidade (prosódia, gestualidade, movimento do corpo e dos olhos etc.), tudo isso nos leva a pensar que há uma importância prática para se ter a relevância da questão.
Em segundo plano de ordem, a sociedade. Como homem inserido no meio social, em que precisa trabalhar; namorar; casar; ter filhos; relacionar-se com os demais integrantes de seu grupo social, a oralidade também terá de lhe trazer algo de concreto. As marcas da oralidade na sociedade, e assim demonstrando-se essa importância concreta, está para exemplos do dia-a-dia, do dial, do que costumeiramente fazemos para nos manter em sociedade.
Como exemplo hipotético, poderemos trazer a figura de um cidadão que saiu de todos níveis da escola, ou seja, é PHD em determinado assunto, e, mediante a apresentação do currículo, é considerado apto para exercer a função para a qual se preparou ao longo de sua vida escolar e acadêmica. Precisa fazer uma entrevista, essa é decisiva. Infelizmente, o homem perde o emprego. A digressão que se faz é de que esse cidadão prestigiou todo um conteúdo voltado para a escrita e agora precisa “correr atrás” (brocardo popular), e assim ter de realizar um curso de oralidade, desses oferecidos na cidade, como o do Carlos Conce, por exemplo.
Apesar de singelas as razões do presente texto, sabemos, pugnamos pela consideração de observar-se a importância prática de trabalhar-se a oralidade na escola. Não é dito que os conceitos abordados na escola devem servir para alguma coisa para a vida prática do aluno? De forma particular e especial, diga-se sobre a oralidade. Senão vejamos o que diz Cavalcante[15], sobre a oralidade e a escrita:
 
(...) as duas modalidades se distinguem mais pelo aspecto funcional: há atividades humanas que se realizam mais adequadamente através dos gêneros da oralidade e há outras práticas sociais convencionalizadas que se consolidam através da escrita, ou seja, através de gêneros textuais escritos. (grifo meu).
 
            O que seria o aspecto funcional, senão uma questão da forma real com que se efetiva a prática da oralidade, de um lado, e da escrita, de outro, quando nas diferentes circunstâncias que lhes convenham, ou seja, uma pragmática de ambas modalidades da linguagem humana. Tal afirmativa nos é corroborada por Silveira (2006, p. 22), quando diz que “em algumas circunstâncias, em certos ambientes e para certos propósitos, a língua falada “funciona” melhor. Noutras ocasiões e circunstâncias, a língua falada é mais adequada”.
            Daí por que nos convencemos de se tratar de uma questão também pragmática, para buscar envolver professor e aluno na percepção da importância da oralidade na escola. Assim, pensamos que a dialética para a questão está para a resposta prática que se possa encontrar para ela – a oralidade serve para ser trabalhada na escola por que em determinado momento (você) vai precisar dela ainda mesmo na escola, e um dia, quando já fora do ambiente escolar, nas diferentes manifestações de interação do convívio em sociedade.
Como já fora afirmado, para o presente trabalho temos mais questionamentos do que respostas. Uma delas é se a oralidade deve ser trabalhada da mesma forma com que se direciona a leitura na escola. Isso porque, quando se aborda a importância da leitura, imputam uma necessidade de ser inserida nos programas de ensino de todas as disciplinas curriculares, e que seria descabida a proposta de uma disciplina que cuidasse apenas de leitura em sala de aula. Se considerarmos que há uma simetria entre oralidade e leitura, por vermos que uma está relacionada à outra, poderemos dizer que também a oralidade tem seu caráter multidisciplinar.
Pensamos assim por que os alunos não só precisam participar oralmente das aulas de Língua Portuguesa, mas de Biologia, Matemática, Física, Geografia, História, etc. Com o fito de buscarmos elementos que nos fizessem refletir sobre o assunto, realizamos uma pesquisa do tipo entrevista, de caráter informal, diga-se, com 3 professores da cidade de Maceió, com o seguinte perfil, para cada um:
 
a.           professora de Biologia da Rede Pública Estadual de Ensino;
b.           professora de Língua Portuguesa da Rede Pública Estadual de Ensino;
c.            professor de Geografia da Rede Pública Estadual de Ensino e também de escola particular (colégio e curso pré-vestibular).
 
Da presente pesquisa, constatamos que todos os professores se utilizam da oralidade em sua disciplina. O viés da questão está para o nível de consciência de cada professor, frente às tarefas voltadas para essa modalidade lingüística. A professora de Língua Portuguesa apresentou maior certeza de que realiza atividades voltadas para a linguagem oral, pois se utiliza do livro didático, e esse traz exercícios que remetem às questões de oralidade. Os outros dois professores se deram conta de que também trabalham a oralidade em sua disciplina quando disseram que permitem que os alunos participem das aulas de forma expressiva, verbalizando as conclusões e deduções obtidas das aulas, e até mesmo de quando da utilização de recursos visuais na sala-de-aula.
As inferências da entrevista podem ser resumidas em uma única. Certamente, para tais professores, não obstante o livro didático da disciplina Língua Portuguesa trazer uma quantidade já reconhecidamente mínima de atividades voltadas à oralidade (conforme saliente Marcuschi, 2001[16]), abordá-la na escola nas diferentes disciplinas requer, também, o mesmo tratamento que se espera dar à Língua Portuguesa. O que nos faz pensar que se trata de uma abordagem multidisciplinar.
Para trabalhar a oralidade na escola, talvez seja necessário que o professor tenha conhecimento de uma teoria que lhe possa permitir conhecer as diferentes formas de emprego das técnicas e atividades voltadas à oralidade. Conforme salienta AZENHA (1997, p. 6), “é interessante considerar brevemente como a adoção de um determinado paradigma teórico possibilita uma certa compreensão da realidade, inexistente na ausência desse paradigma”.
            Desta forma, pensamos que caso tenha conhecimento de uma teoria sobre aspectos de linguagem para, assim, poder implantar em sua disciplina as formas, modelos sobre essa modalidade lingüística, o professor perceberá o grau de importância, bem como a utilidade que a oralidade tem para os diferentes percursos que o aluno trilhará na escola, e para o dia-a-dia desse aluno como cidadão participante direto da sociedade. Sem dúvida, cabe ao professor tamanha tarefa, por seu próprio labor, pois, conforme salienta Silva (1999, 20),
 
Em termos de relação pedagógica no contexto da escola, nada – texto, audiovisual, técnica ou tecnologia – substitui a palavra do professor, sua presença, seu exemplo, seu conhecimento e seu testemunho nos momentos das práticas educativas.
 
 
            Perceber que a oralidade serve para ser aplicada nos diferentes momentos de sua vida, pode ser razão suficiente para dar convencimento ao aluno sobre a importância real dessa linguagem. Tem-se dito que para o aluno exercitar a leitura é imprescindível que lhe mostrem as razões dessa. No que se depreende à oralidade, cremos que a assertiva também pode lhe ser da mais relevante verdade.
            Mais uma vez, a escola é chamada a lume para manifestar-se frente à atuação de um tema relevante que a si compete o exercício da execução primária. Pois, conforme já dito, o homem interage em sociedade, e, após a família, certamente a escola deveria ser o grupo social que tem grande relevância para o desenvolvimento dessa capacidade de interagir do homem, pelo aspecto da inserção de formas, abordagens, discussões, ensinamentos. Daí uma exigência que lhe é cobrada, a de formadora e propulsora das capacidades comunicativas do homem. A importância de seu papel se faz presente nas palavras de Luft, que assim prescreve:
 
Melhorar, primeiro (eu escrevi: primeiro), a expressão oral. Onde a escola que ensina o aluno a falar melhor? A ter confiança em si mesmo como falante nativo de uma língua, portanto dono e senhor dela? Se existe essa escola, é uma raridade. O que há são professores isolados lutando por introduzir nas escolas uma visão nova, dinâmica, realista e vital da língua e do seu ensino. Em geral, consomem-se nessa batalha, contra programas, currículos, pressão de colegas, e até de pais que esperam ver seus filhos decorando muita regra, trazendo pra casa cadernos vermelhos de correções.
 
 
De forma que parece que há muito ainda para ser feito no âmbito escolar, para que a escola, digam-se os que fazem parte dela, sejam diretores, sejam professores, enfim, todos engajados com o mesmo propósito, possam então inserir em definitivo a compreensão no consciente coletivo da importância de se trabalhar a oralidade. Missão deveras de magna importância para os discursos inseridos no seio da educação brasileira.
4. Conclusão
 
No decorrer do presente trabalho preocupamos de procurar uma linha diretiva que desse respaldo à razão de se ter por importante a inserção de trabalhar de forma consciente a oralidade na escola. Para esse fim, preferimos organizar o texto em itens, como oralidade e escrita. Sua importância; marcas da oralidade na escola. Onde encontrá-las; para que serve trabalhar a oralidade na escola?; o porquê do caráter pragmático da oralidade, o caráter multidisciplinar da oralidade. O porquê de se tratar de questão multidisciplinar; À visão do professor; à visão do aluno; e, finalmente, o papel da escola. Pensamos que assim fazendo, talvez conseguíssemos delinear os caminhos traçados pela oralidade, o que convencionamos a chamá-los de marcas, essas como tipos, espécies, modelos, formas que a escola se utiliza para trabalhar esse tipo de linguagem.
Para consubstanciar nossas afirmações, realizamos a pesquisa-ação, na espécie entrevista. Entrevistamos três professores de disciplinas diferentes, atuando na educação pública, com o diferencial de tomarmos por interessante entrevistarmos um professor da rede particular de ensino. Genericamente, todos concordaram que há um ponto em comum, quando reconheceram a importância da oralidade dentro e fora da escola, mesmo que ao longo de sua performance como professor nem sempre tenha percebido esse fato.

Da presente exposição, concluímos que para buscar-se uma razão para firmar-se a importância da oralidade no âmbito da escola, possivelmente seja merecedor considerar trazer à discussão o seu caráter pragmático, com ênfase no aspecto da sua multidisciplinaridade. Seria o mesmo que demonstrar que a oralidade tanto é importante para a escola, pois vai fazer com que seus profissionais se dediquem mais ao assunto, quanto para os alunos, que perceberão um objetivo concreto, talvez complemento daqueles que somente são percebidos de forma supra-escolar, isto é, nas bancas das Universidades e nas mentes dos grandes pensadores.



[1] Idem, p. 77
[2] MONDIN, Battista. O homem: quem é ele?: elementos de antropologia filosófica. Tradução de R. Leal Ferreira e M. A. S. Ferrari. São Paulo: Paulus, 2003, p. 159.
[3] Obra de Daniel Defoe.
[4] Idem, p. 160.
[5] Idem, p. 159.
[6] Idem, p. 136.
 
[7] DURKHEIM, Émile. As Regras do Método Sociológico. COLEÇÃO A OBRA-PRIMA DE CADA AUTOR. São Paulo: Martin Claret, 2006.
[8] Ibidem, p. 31.
[9] CAVALIERI FILHO, Sérgio. PROGRAMA DE SOCIOLOGIA JURÍDICA. Rio de Janeiro: Forense, 2005, p. 8.
[10] PASSOS, J. J. Calmon de.
[11] Émile Durkheim. Ob. Cit.
[12] Op. cit.
[13] MARCUSCHI, 2002, p. 21
[14] No trabalho em comento foi proposta pela professora da Disciplina A Relação Oralidade e Escrita: Implicações para o Ensino, a realização de uma pesquisa tomando-se um livro de Língua Portuguesa para verificar-se os tipos de exercícios, a freqüência (dentre outros quesitos) com que aparecem no Livro Didático.
[15] Op cit.
[16] Apud Cavalcante.
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