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A Menina do País das Maravilhas


Autoria:

Marielsa Klatter Braga


Advogada e escritora. Graduanda em letras. Extensão: Filosofia e Sociologia,Direitos Humanos,Criminologia,Transtornos da mente entre outros. Escritora: Violinos Vermelhos 2ª edição editora Multifoco. A venda em todo Brasil pela livraria cultura.

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Resumo:

Análise do filme A Menina do País das Maravilhas

Texto enviado ao JurisWay em 06/01/2011.

Última edição/atualização em 10/01/2011.



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Realidade e fantasia se confundem na vida de Phoebe

 

            Phoebe é uma menina de nove anos, diferente das outras crianças, quebra todas as regras com seu comportamento peculiar que a princípio não é compreendido pelos colegas, professores e os pais.     

 

            A imaginação para ela é melhor que a realidade, há liberdade no país das maravilhas.  Não há regras, como na escola que não permite questionamentos, a menina se sente rejeitada e culpada pelos acontecimentos em sua vida. Em uma cena diz sofrer de angústia, tem um comportamento além do padrão normal, é supersticiosa como na cena em que tem que pisar nos quadrados na ordem certa para a mãe não morrer e diz não crer em Deus. Assim cria conflito na escola e em sua família que não consegue entende-la.    

 

            A professora de teatro convida a turma para participar de uma produção teatral, a princípio ela rejeita. Depois vê a oportunidade de interpretar Alice, além disso, sua mãe está escrevendo uma dissertação sobre “Alice no país das maravilhas”, o que pode ter influenciado. Phoebe vê Alice na escola e resolve colocar seu nome na lista.  A professora se surpreende com a interpretação dela e de certa forma talvez se identifique com ela, é no teatro que Phoebe dá sinais de que a fantasia e a realidade podem se misturar. Lá ela consegue ser diferente e muito mais confiante.

 

            A professora instiga nos alunos, a capacidade criativa, mostra a eles de maneira educativa o problema do preconceito, como na cena em que está escrito na capa do garoto “viado” questiona o fato de terem escrito algo sem mesmo saber o significado etimológico da palavra. Conta a eles que no tempo de William Shakespeare que as mulheres não atuavam, tendo assim os papéis femininos atuados por meninos, brilhantes apresentações sem preconceitos.  Essa atuação da professora no filme demonstra que educar na infância pode ser pra vida toda, a influência que um professor pode ter na vida de uma criança como teve na vida de Phoebe e até mesmo dos outros alunos. Ensinou-os a terem iniciativas próprias e assim que conseguiram ensaiar a peça e representar, demonstrando capacidade.

 

            Os pais de Phoebe tinham grande dificuldade em lidar com o problema, embora se esforcem muito, relutaram a aceitar que a filha precisava de uma atenção especial.

Phoebe pede ajuda por muitas vezes, diz o tempo todo que não consegue se livrar dos hábitos, a irmã menor percebe antes mesmo dos pais que Phoebe precisa de ajuda. Percebi também uma maturidade bem expressiva nas duas irmãs o que pode ter a influência dos pais.  

 

            Dessa forma o filme abordou um comportamento comum nos pais quando lidam com algo diferente, quando um filho se apresenta diferente do outro. Quando a professora fala de quem realmente somos e descobrimos isso em certa altura da vida, demonstra uma busca por quem somos, o significado da existência como Sartre e Platão já buscavam em suas teorias do existencialismo e a busca pela existência do homem parece ser um estudo antigo, a filosofia demonstra essa busca, quem somos, porque estamos no mundo, o que buscamos...! Esses questionamentos tornam diferentes como era diferente a professora, “estranha” como se referiu a mãe de phoebe, tanto que o diretor intolerante acaba despedindo a professora.

 

            A escola não era suscetível a mudanças, me fez lembra-me do filme “A Sociedade dos Poetas Mortos” Muitas regras e nada de perguntas, sem mudanças, e o castigo é a conseqüência para os que ousam quebrar as regras. E o castigo pode ser drástico, como foi o de Phoebe, proibida de atuar na peça, sendo que era o que mais queria. A mãe e a professora conseguiram que voltasse sob a condição de que não retornasse a cometer os erros cometidos.

 

            Não era incomum no passado de guerras, de famílias extremamente rígidas usar a literatura como válvula de escape da realidade. Muitos filmes demonstram isso, jovens adolescentes a espera por um príncipe, ou querer ser o herói, muito comuns nos meninos e acredito que ainda hoje e principalmente as crianças ainda usem desse meio para refugiar-se no imaginário, na fantasia, o que pode ser natural até certo ponto.  

            A professora de teatro teve uma grande participação, como já disse antes, na aceitação da menina, tanto que no final da peça quando pergunta “Quem é você?” Ela demonstra ter aceitado quem realmente era.  

            O filme mostra as frustrações dos pais naturalmente passadas as filhas, a filha menor não tem a doença de Phoebe, mas tem carência de afeto, enquanto os pais se culpam e se agridem não percebem que a filha caçula também necessita de atenção.

            Os pais não aparentam ser estruturados para criarem suas filhas, demonstrando uma convivência difícil entre pais e filhas, a impaciência. Tanto que ao pedirem a eles um novo irmão, ele impaciente, se irrita e diz que a mãe não iria querer outro que se parecesse com a Phoebe. Magoando a menina mais uma vez, desculpa-se com ela ao dizer que não conseguiu evitar de dizer aquilo ela entende porque também não consegue evitar o que diz.

            Quando é perguntado a mãe “Você gosta de ser mãe?” A resposta não é convincente ela diz “Ah...! Claro!” resposta duvidosa, a mãe não consegue lidar com as filhas. A falta de experiência em entender o mundo dos filhos, participar da vida deles, interagir com eles e não ao inverso como acontece, trazendo-os para dentro dos conflitos. O universo dos adultos não foi feito para crianças, embora pareçam imperceptíveis aos acontecimentos a sua volta, captam tudo como para raios.    

            O filme demonstra também a diferença entre adultos e crianças, pais e filhos, professores e alunos. A falta de liberdade para criar, professores despreparados e uma escola que apenas produz modelos, e não alunos pensantes e Phoebe é criativa, diferente, perspicaz.

            Percebi que ela também tinha problemas como lavar as mãos excessivamente até feri-las. A culpa dos acontecimentos ruins, os machucados que produzia a si mesma quando impunha limites, como pular três degraus. Os xingamentos espontâneos, o cuspe nos colegas, tudo que não conseguia controlar.    

 

            Phoebe vê a rainha de copas, que é a mãe, fala da sensação de correr sem sair do lugar, de que no país das maravilhas não há rigidez que é o oposto da realidade e a realidade para ela é ruim. Deseja a liberdade assim mistura o tempo todo a realidade com a fantasia e todos que vê em sua fantasia são pessoas da vida real, como o diretor, o psicólogo, a mãe, o pai. Conversa com os personagens.

 

            Ela fala ao colega que não consegue evitar os pensamentos ruins, como a voz que ouve mandando-a pular. Em alguns momentos fala do medo que sente. 

 

            Após alguns pedidos de socorro, a mãe finalmente busca ajuda, mas não confia no profissional dizendo que eles precisam de rótulos... Ela se culpa pelas atitudes da filha e reluta em aceitar o diagnóstico. A mãe fala ao marido sobre o descontrole que tem sobre elas, do quanto fica irritada com tudo, com as coisas que não consegue fazer. 

            Phoebe fala da esperança que tem no país das maravilhas, que sabe que está se destruindo, mas não consegue evitar.

            A doença de Phoebe dita pela mãe é a Síndrome de Tourette (um distúrbio caracterizado por tiques, movimentos involuntários), finalmente a família aceita a doença e a menina explica aos colegas passando a aceitar normalmente. A professora de teatro como disse antes, teve grande influência na vida dela, como quando a menina desabafa como num pedido de socorro que faz coisas erradas e não consegue controlar, que se sente feia fora do teatro, neste ela pode representar ser outra pessoa, ser a Alice que ela vê. A professora em resposta diz a ela que em certa altura da vida, ela abrirá os olhos e se verá pelo que é, porque se tornou diferente da chatice das pessoas normais e dirá a si mesma “Eu sou essa pessoa”, disse que aí haveria uma espécie de amor e no final observei exatamente essa diferença nela, quando perguntaram em cena “quem é você?” Entendi que ela havia entendido exatamente o que a professora quis dizer. Ela aceitou quem era e estava feliz. O filme mostra também que podemos e devemos entender e conviver com as diferenças.

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