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AMEAÇA ARMADA - QUANDO NASCE UM TERRORISTA


Autoria:

Walkyria Carvalho


Wallkyria Carvalho - Advogada; Especialista em Ciências Criminais pela UFPE; Master em Ciências Jurídicas com foco em TPI, crimes de Genocídio, Crimes contra a Humanidade, Terrorismo; professora da Pós-Graduação da Faculdade Joaquim Nabuco e OAB/PE.

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Resumo:

Artigo sobre prováveis causas da mentalidade terrorista, com conteúdo filosófico.

Texto enviado ao JurisWay em 27/01/2015.

Última edição/atualização em 28/01/2015.



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Em questão de segundos, o que era civil se tornou guerra, o que se via em paz se vê em terror. Diante de um carro que explode ou uma aeronave abatida, não é fácil constatar que não se trata de acidente, mas de um atentado à ordem e ao direito à vida. Como explicar a ausência de amor, diante da extrema necessidade de se provar um ponto de vista, um argumento ou uma ideia? Por um lado, numa explicação simplista e superficial, os atentados podem ser traduzidos em uma constante necessidade de se provar uma ideia, estabelecer uma conduta e arrastar multidões para o compartilhamento do que se defende como causa...mas nada é tão simples assim.

A mente criminosa que estabelece sua conduta em uma devassidão de horrores, assumindo uma causa e, através dela, infligindo sofrimento de forma difusa, na realidade, em muito se aproxima do criminoso que adota conduta de dolo eventual. Em uma de suas nuances, na mais das indiferentes ao resultado, o terrorista assume uma posição extremada com relação à dor e ao sofrimento humano.

Ao adotar um posicionamento ideológico, o criminoso de massa se apega à ilusão de que sua construção racional pode se tornar uma razão difundida através do choque diante da população. A morte, que pode se tornar uma realidade próxima, não é a questão mais relevante, se comparada às conquistas em vida. Morrer por um ideal é morrer em praça pública, em defesa do que se acredita, divulgando, assim, em perspectiva global um determinado ponto de vista. No entanto, embora pareça um feito heroico – e para um terrorista, nada mais heroico do que morrer por sua causa – a ação terrorista é lastreada em medo, sentimento amplamente conhecido pela resignação diante da opressão.

O homicida trabalha com a logística de um resultado concreto e presente em sua vida. Ele pode ser um homicida de fato, ou eventual, até mesmo serial, mas todos os homicídios, a despeito do que se propaga em parte da doutrina, têm uma razão de existir. Quem mata, mata por uma razão, ainda que esta razão seja a aparente ausência dela.

Mata-se por amor, por paixão, por vingança, por inveja, mas também se mata por neurose, por compulsão, por desejo, por dinheiro. A morte causada por ataques difusos de terror é a morte por um ideal extremista. Ela encontra respaldo na construção histórica de pessoas que fizeram da bandeira radical armada um motivo para existir. Sem o objetivo final de estabelecer uma razão para morrer, inexiste razão de viver.

É justamente nesse aspecto em que pesa todo o aparato humano voltado para a consecução do terror: vidas sem objetivo comum não precisam ser poupadas. E mais: martirizar o ser humano na busca do ideal de matança coletiva representa o ápice na busca da excelência humana. Sou o melhor que posso ser na vida, se me torno um mártir pela causa comum.

Esse desejo racional do homem de se eternizar na História da Humanidade, executar papeis relevantes na sociedade em que se insere, de modo a tornar perene sua existência após a sua própria extinção é uma questão bastante presente entre todos os seres. Por este motivo, muitos expressam suas ideias através da escrita, mas alguns outros preferem a projeção de sua imagem após a morte como um inesquecível feito, sobre o qual se deleite o desprezo a todos os demais seres humanos, ainda que em fatia desproporcional ao restante do mundo. É a marca que um terrorista deseja imprimir na história dos homens, deixando como legado a atrocidade que lhe foi confiada por missão de vida e, principalmente, de morte.

O ser é ser percebido. Berkeley defendia que todo conhecimento vem da percepção. O que se percebe no mundo são as ideias, não coisas. Deste modo, pode-se afirmar que o mundo é composto de ideias fora do campo experimental, então quando concretizadas, materializadas, elas se tornam percebidas, passando a existir como coisas. O terrorista, portanto, embora repleto em suas ideias e suas concepções do mundo, não existe para o restante da humanidade. Sua vida tem começo, tem meio, mas principalmente, tem um fim que ele mesmo escolheu, tanto no modo, como no tempo. Isso não tem preço. No entanto, ninguém o conhece. Seus feitos existem no campo abstrato do seu consciente, como planos de vida ainda não concretizados; enquanto um casal planeja um casamento ou uma criança planeja a aquisição de um brinquedo, o terrorista planeja, um dia, executar o extermínio de seres humanos e prédios históricos, ainda que, para tanto, tenha que se incluir na contagem dos mortos. Não estará presente para usufruir da fama conquistada com seu sacrifício, mas eternizará seu nome e marcará a História da Humanidade com o seu sangue e com o dos demais alvejados em seu criminoso intento.

Já inferia Epicuro que o objetivo da humanidade é almejar a felicidade. A infelicidade, portanto, é algo ameaçado pelo medo de morrer ou, ainda, representa a própria morte, o maior medo que um homem pode ter. Quando o medo da morte é superado, seja por uma questão racional, seja por experiência de vida, o ser humano pode, então, ser completamente feliz. A morte encerra os projetos de vida, faz caírem por terra todos os planos, os laços afetivos, a última cerveja na praia, o último abraço nos seus, os pedidos de perdão ainda não feitos, tudo, enfim, que ainda não pôde ser realizado. A morte é o encerramento do tempo. Para um terrorista, no entanto, seu tempo se esgota à medida em que vive (como todo homem), até o dia em que decide pôr fim com seu próprio encerramento. É a ampulheta que insiste em derrubar a areia que lhe resta no espaço de vida. Ele sabe que pode morrer – e provavelmente vai – porquanto sua caça é interminável, diante da veemente necessidade de se apontar à criminalidade latente uma responsabilidade da qual não se poderá se furtar. Para o criminoso que adota as práticas do Terrorismo, não existe o medo do desconhecido, os laços afetivos já estão desfeitos, tudo o que em vida pôde ser feito, foi feito em prol de uma causa. O medo da morte, portanto, é inexistente. Então o terrorista é um homem realizado e só pode ter algo a perder se seu plano não for atingido.

O terrorista é um homem feliz. Sua felicidade está intrinsecamente atrelada a um objetivo, dado que na vida humana o alcance é subjetivo em toda a sua percepção. Todo ser é um ser rumo à morte, mas apenas os humanos se dão conta disso. Após a compreensão de que a vida é temporal, o ser humano vive uma vida significativa e autêntica, arriscando-se a entender o que seu tempo de vida pode lhe proporcionar. Morrer, segundo Heidegger, não é um acontecimento, mas um fenômeno a ser compreendido existencialmente. A compreensão da morte, para o terrorista, é algo a ser esclarecido ao longo de sua vida, onde se trabalham seus medos, suas angústias, o desapego aos familiares e aos que representam caro em sua vida.

O mundo, tal qual nos é apresentado, é constantemente interpretado por todos nós. É através da interpretação que todos conhecemos o universo e tudo o que nos cerca. Tal compreensão nos afeta historicamente, uma vez que nos são proporcionados os preconceitos e predisposições do mundo, com a contingência inefável dos acontecimentos; fora desse contexto, não se compreende o mundo, porquanto a história, tal como nos é concebida, não nos pertence. Nós pertencemos à História do Mundo e nela escrevemos no livro da vida, sendo, portanto, por tal motivo, a razão pela qual o terrorista imprime tamanho fascínio aos criminalistas. Sua interpretação do mundo e suas vicissitudes, as dificuldades, as diferenças sociais e culturais, tudo implica em aditivo específico para a formação do molde para o ser humano que se complementará em seu meio familiar.

A compreensão do mundo e dos fatos que abalam a humanidade, tais como as guerras de grande vulto ou os maiores conflitos armados do planeta, são captados por crianças, adolescentes, famílias abatidas e dilaceradas que, por uma questão de vivência, suprimem toda a dor e toda a angústia, de modo a permitirem, em seu íntimo, uma construção ideológica totalmente desvirtuada de uma espécie de “Justiça Paralela”, proporcionada por um deus maior, que representa sua própria consciência, permitindo que se trabalhe, naquele que foi uma criança sofrida, a culpa de ainda estar vivo, diante de toda a desgraça que assola os seus que lhe são prezados. Por falha do próprio Estado, que permite uma vida de privações ou fascismo corrente em meio social, é comum constatar que o próprio homem procura suprir as carências laconizadas de seu meio social. Se por um lado é verdade que uma criança pode se formar em meio ao caos, é provável, por conseguinte, afirmar que ela certamente se desviará da formação proporcionada pela maioria social, caso esteja inserida em um ambiente desfavorável.

Nem todo terrorista foi, no entanto, uma criança assustada, carente e vulnerável em sua dor existencial. No entanto - é bem verdade - um terrorista, por assim perceber, é um dependente em vida, tanto da percepção do outro, quanto da dimensão de sua importância enquanto ser humano: ele quer projeção na posteridade e isso não tem preço. O projeto de um terrorista pode ter início já na fase adulta, quando sua formação já se estabeleceu de maneira completa. A criança, entretanto, persiste no criminoso, trazendo consigo sua carga emocional que, por diversas circunstâncias, pode determinar seu trajeto até a morte. O inconsciente pode ser fonte de angústias e de injustiças, cujos efeitos são perceptíveis desde a infância.

Os traumas de vida não são responsáveis pela criação da mente criminosa. Muitos são os homens que amealham diversos traumas na infância e, não por este motivo específico, se tornam criminosos ou psicopatas de formação.

Em verdade, pode-se afirmar que a formação do terrorista é questão de cultura. Cultura, saliente-se, nem sempre é inventário de bem positivo. Em sua ação armada, ele aprende idiomas, se insere em culturas diferentes, se infiltra nas escolas, nas universidades, em qualquer ambiente de trabalho. O terrorista é, por natureza, a dissimulação do bem.

Para que sua consecução final seja alcançada, o terrorista é capaz de limitar sua vida social, negligenciando ou mesmo eliminando de seu convívio os amigos e familiares, mantendo-se isolado em seu meio social. Muitas vezes, em sua vida, dependeu de aprovação do outro para estabelecer sua própria identidade, ainda que, para tanto, deixe extravasar sentimentos como ciúme, possessividade e medo. Essa constante busca da invencibilidade é o maior objetivo de um terrorista, uma vez que é através da invulnerabilidade que ele se torna invencível. E como se elimina uma vulnerabilidade? O terrorista traça uma meta de vida e outra de morte: seus parentes, seus familiares, todos são pessoas que, por casualidade, o acompanha em sua trajetória de vida. Suas opções e seu modo de viver e ver a vida são assuntos proibidos em seu meio social; por esta razão, raros são os que têm amigos fora do ambiente de terror. Quando não existe percepção da causa como centro maior da formação da consciência existencial, a própria causa é responsável pela eliminação dos arredores da vida de um terrorista e, subitamente, não existem pais, filhos, tios, amigos, colegas. Fora da percepção, nada existe. E é exatamente assim que se deve projetar a vida: eliminados os laços de afeto, restam a objetividade do ideal e a consciência do fim. E ao fim, diga-se, submeter-se-ia, em sua condição anômala, à infeliz tarja marginal da sociedade, incompreendido por sua causa, rejeitado por sua escolha.

A intolerância proveniente do íntimo de um terrorista é a primeira imagem que se extrai do comportamento do homem atrelado ao fim extremista. É uma agonia letárgica, uma megalomania que invade as sensações e elimina os riscos. O terrorista é um ser que sabe que pode ter fim e disso não abre mão. E tudo por uma única causa.

 

Autora: Walkyria Carvalho – Advogada; Especialista em Ciências Criminais pela UFPE; Master em Ciências Jurídicas com foco em Tribunal Penal Internacional, crimes de Genocídio, Crimes contra a Humanidade, Terrorismo e Ação Armada Internacional; professora da Pós-Graduação da Faculdade Joaquim Nabuco e da OAB/PE.

 

 

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