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Socorro! A organização adoeceu!


Autoria:

Regina Coeli Sizenando Da Silva


Advogada, Direito UTP, Educação FEMP e Especialização Educação Especial UFPR, atuou na Assessoria Jurídica da Presidência do TJPR 2005/2008, Advocavia, Consultoria e Assessoria RCOELISS atuação nas áreas Cível (Federal e Estadual) e Trabalhista

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Resumo:

O presente trabalho tem como escopo levantar o tema do ambiente de trabalho improprio ao convívio e a produtividade por conta da conduta pessoal no trato da "competitividade", com reflexos na vida das pessoas e na saúde da organização.

Texto enviado ao JurisWay em 09/12/2008.



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                                               SOCORRO, A ORGANIZAÇÃO ADOECEU!
 
                                                                 
                                                           DIREITO DO TRABALHO e ORGANIZACIONAL
                                                            
                   
                                                                                                                             
                                                                 
         “De repente entra aquele ser desvairado a bradar com o dedo em riste por qualquer bobagem.... retrucado por outro alucinadamente motivado pelo e-mail de um sujeito do qual nunca se viu fisicamente e que o encaminhou a pedido de um terceiro, solicitando providências imediatas a respeito de um problema causado por alguém que nem faz parte da organização, mas que teve uma relação comercial terceirizada e que gerou supostos prejuízos por não atender ao telefone celular quando aguardava no aeroporto a chegada de uma pessoa que não embarcou por falta de previsão e autorização da chefia direta..... Pronto!  Foi o bastante para o bate boca.... o empurra, empurra e o caos se instalou....”
          Você não entendeu nada?  Não é para entender, aliás, não é possível entender, mas posso garantir, tem sido possível sentir!
         Esse é o sentimento dos que não enlouqueceram ou não se deixam enlouquecer pelo ambiente de trabalho doente.
         A doença a qual me refiro não é uma anomalia financeira, econômica, ou estrutural da organização. Refiro-me à anomalia chamada de, se me permitem os especialistas da área e desculpem a imprecisão científica, HISTERIA COLETIVA OU INDIVIDUAL ORGANIZACIONAL ou CULTURA DA LOUCURA ORGANIZACIONAL.
         Infelizmente essa “doença” em muitas situações tem sido causada pura e simplesmente pela conduta das pessoas, em conjunto ou separadamente, que convivem na organização, algumas delas  em especial capitaneando por mera vaidade o empreendimento do “inferno laboral alheio”.
         Independente do cargo ou função que as pessoas ocupem, há uma cultura de que “competitividade” (que deveria ser instrumento para agregação de valores entre os profissionais) é sinônimo ou justificativa para “traição”, “baixaria”, “fofoca”, “cinismo”, “dissimulação”, “mesquinharia”, “falta de respeito”, “falta de comprometimento”, “preguiça”, “desídia”...  é um vale tudo no jogo do poder, onde se determinou que o “derrubar” é a solução.
           Não se sabe bem a quem se quer derrubar ou o por que. Mas, quanto mais tumultuado e pesado o ambiente melhor para o intento.
           Vê-se esse comportamento até entre os iguais que nem um poder maior detém entre si.
           Todos se espezinham, jogando as responsabilidades das tarefas entre si, muitas pessoas apenas pelo mero prazer de tumultuar, saem aos gritos, elucubrando e exigindo dos outros soluções mirabolantes e imediatas quando todos necessitariam de cautela, imparcialidade e tempo para gestá-las.
           Outros criticam iniciativas interessantes por serem resistentes às mudanças, sinal de egoísmo, insegurança e imaturidade.
           Alguns por liberalidade ou inveja da paz alheia, numa tentativa de expurgar as próprias frustrações, criam situações que por vezes extrapolam os muros da organização, invadindo a vida pessoal e familiar das pessoas.
           Há um clima de auto e inter flagelo e auto e inter fagia!
           Dentro dessa concepção, o dia tornou-se pequeno para os compromissos e os interesses laborais; é preciso deliberadamente mais e mais, é preciso perder o sono, os momentos de lazer, o jantar com os filhos, a companhia dos amigos, o encontro com a pessoa amada, é preciso em nome sei lá de que “perder a si próprio”.
           Parece que todos esqueceram as lições mais elementares e singelas da convivência humana, a fraternidade, a cooperação, a solidariedade, a autocrítica e o bom senso.
           Nesse caos não é possível prosperar, já não bastasse o próprio mercado exigente e cruel, a necessidade de se aperfeiçoar dia a dia como ser humano e como profissional, investir tempo e dinheiro na busca de novos conhecimentos, driblar o salário para sobreviver ao mês e ainda ter que enfrentar um ambiente laboral inóspito como um campo minado prestes a explodir... não há auto estima que resista...não há livro de auto ajuda milagroso que possa modificar essa situação.
           É preciso entender que as pessoas são as organizações, se as pessoas estão “doentes”, a organização está “doente”, e o que é pior, a doença das pessoas é a doença econômica da organização.
           Casos de Síndrome do Pânico, Depressão, Estresse, Crises de Ansiedade, Neurose Profissional, Transtorno do Ciclo de Vigília-Sono, Síndrome de Burn-Out, também estão intimamente ligados ao ambiente de trabalho e suas condições, tanto assim, que já constam da Lista de Doenças Relacionadas ao Trabalho do Ministério da Saúde e que foram denominadas e codificadas segundo a CID 10[1].        
            Assim como as doenças acima mencionadas, também a baixa estima, o desânimo, o desestímulo profissional traz conseqüências nefastas à pessoa que a experimenta, e os reflexos por ela vividos são devastadores para a organização, principalmente se caracterizado casos de “mobbing”, “acosso psíquico” ou “terror psicológico coletivo” que podem acarretar responsabilização inclusive jurídica assumindo nestes casos os custos indenizatórios.
           Esse custo de certa forma também é rateado por toda a sociedade, no caso de conseqüências mais graves como o desencadeamento de doenças onde sejam necessários tratamento de saúde prolongado e afastamento do trabalho  para a sua recuperação.
           Se desses casos de afastamento nem todos são causados diretamente pelo ambiente do trabalho, sem dúvida que, a falta de qualidade no labor contribui e muito para o agravamento do quadro de quem foi acometido por desses  males.
           A Constituição Federal de 1988 em seu art.225 nos dá a garantia de que todos têm direito a um meio ambiente “equilibrado”, qualquer deles, o natural-ecológico, o cultural e o do trabalho, equilíbrio esse, essencial para a sadia qualidade de vida, sendo assim, é dever de todos observar e cumprir os ditames da Carta Mãe.
           A questão é a seguinte, como entender e aceitar tamanha infelicidade quando se investiu tempo, dinheiro, sonhos, projetos em uma carreira ou uma organização? Onde está o problema? Por que não deu ou não dá certo?
           Obviamente não estamos a falar especificamente de uma organização ou de uma determinada pessoa, falamos de uma queixa quase unânime das pessoas, que se sentem infelizes no trabalho porque não se sentem reconhecidas, motivadas, impulsionadas a buscar novos caminhos e empreendimentos e de certa forma reagem mal a esse sentimento de rejeição e desprezo, gerando um efeito dominó que contamina à todos na organização.
           Procure fazer uma enquete com seus familiares, amigos, vizinhos, com os próprios colegas de trabalho, observe “in loco” os resultados!
           O labor é prática essencial na vida das pessoas, extremamente valorizada nas mais diferentes formas de cultura, através dele o ser humano conquista sua emancipação pessoal e profissional, sua independência econômica e seu reconhecimento social.
           Nossa Ordem Jurídica, através dos Princípios Fundamentais Constitucionais da Dignidade da Pessoa Humana e os Valores Sociais do Trabalho, seus direitos e garantias fundamentais, bem como as disposições da Consolidação das Leis do Trabalho e da legislação previdenciária, nos mostram a exata medida dessa importância e da proteção dispensada ao trabalhador.
           Pensemos que dedicamos a essa atividade  praticamente um terço de nossos dias, é natural que precisemos de “combustível” para mantermos o vigor, o entusiasmo e o padrão quantitativo e qualitativo no trabalho, entretanto, trabalhamos de maneira natural, não ficamos o tempo todo ligados se há ou não leis ou regulamentos, apenas trabalhamos... por isso essa “energia extra”, esse “combustível” pode se resumir numa única palavra chave dentro da organização a “valorização humana”.
           A valorização humana nem sempre tem relação direta com promoção de cargo, função ou salário dentro da organização.
           Como valorizar alguém que não se conhece? Que nunca se viu?
           Conhecer a equipe de trabalho é um bom começo, muitas organizações, seus gestores, não têm nem idéia de quem são seus colaboradores ou empregados.
           Conhecer nossos pares, nossos colegas, saber seus nomes é o mínimo a ser feito.    
           A valorização por vezes pode ser simplesmente aprendermos a usar as tão ufanadas na infância “palavrinhas mágicas”, e tão exorcizadas na vida adulta, quais sejam: por favor, obrigado, com licença, esteja à vontade, pois não, não há de que, etc...
           Por vezes, ao delegarmos a alguém uma tarefa, não simplesmente delegá-la, mas “dizer com os olhos firmes, ternos, afetuosos e atentos que confiamos na realização daquela tarefa”.
           Proferir um simples elogio pelo trabalho realizado com eficiência, com esmero e dedicação pode ser uma injeção de ânimo e tanto!
           Dar um “bom dia”, acreditar que realmente aquele dia será um bom dia de trabalho e contribuir para que o seja!
           Respeitar o espaço do outro, e exigir respeito ao seu!
           Resolver os problemas, buscar soluções dentro do “impossível-possível” sem transformar o ambiente laboral numa torre de babel, o caos só favorece a infelicidade, tornando o ambiente propício para as “doenças oportunistas”.
          Ser solícito, cortez, amistoso, diplomático são condutas que não podemos esquecer do lado de fora da porta de entrada do trabalho.
           Se julgarmos saber mais do que o outro, não queiramos apontar a burrice alheia, demonstremos o quão generosos podemos ser, e não esqueçamos; generosidade não é paternalismo, mas individualismo exacerbado pode ser falta de caráter e de comprometimento com a organização.
           Não somos sozinhos no mundo, cada um deve achar seu espaço e conquistá-lo, há lugar para todos, embora nesse ambiente truculento, seja quase impossível acreditar nisso.
           Sejamos transparentes para não darmos munição a quem gosta de intrigas e maledicências.
           Sejamos solidários com a dificuldade dos outros, amanhã ela poderá ser a nossa.
           Sejamos competentes e busquemos a excelência por esforço próprio, a pior  “pecha”  é a de chupim, carreirista e chaveirinho.
           Pode parecer chavão, mas, parafraseando Napoleon Hill e Andrew Carnegie em seu livro “A Lei do Triunfo” de 1928: “nunca exija do outro aquilo que você abomina!”, aliás, a frase é baseada na 16ª lei do êxito apresentada no referido livro, entretanto, há mais de 2000 anos já fora pregada por Jesus Cristo: “não faça ao próximo o que não quer que façam a você”, é regra simples, basta aplicá-la.
            Simplicidade, bom senso, cooperação, autocrítica, solidariedade, bondade, respeito, comprometimento e responsabilidade, estes são os ingredientes da saúde organizacional.
           A palavra “organização”, segundo o dicionário HOUAISS[2], significa “composição, estrutura, inter-relacionamento regular das partes que constituem um ser vivo”.
           Sua derivação por analogia é : “grupo de pessoas que se unem para um objetivo, interesse ou trabalho comum”.   
         “Equilíbrio”  segundo o mesmo dicionário, é : “igualdade de forças entre duas ou mais coisas ou pessoas, grupos, etc... em oposição”.
           Sua derivação no sentido figurado e dentro da nossa perspectiva é: “harmonia, estabilidade mental e emocional; autocontrole, autodomínio”.
           Sendo assim é através dessa união de objetivos, desse inter-relacionamento que surgem os ambientes sociais, dentre eles, o do trabalho.
           Esse ambiente do trabalho é formado pela expectativa de realização de cada pessoa que o compõem, que embora tenham o mesmo objetivo, podem alcançá-los de forma e tempo desiguais, é a tal competitividade.
           No embrião da organização o ambiente de trabalho surge saudável, equilibrado, serve de instrumento para que cada pessoa que o compõem possa prosperar, crescer,  para concretizar os fins da organização, bem como ser objeto de felicidade e realização de todos.
          Mas, como já vimos, infelizmente em algumas organizações esse ambiente laboral tem-se transformado, perdendo a sua harmonia e desestabilizando emocionalmente as pessoas, por conta da deturpação no conceito e na aplicação da competitividade.
           Neste momento, lembro-me das palavras de minha mãe, “ – Não se deve dar adubo à erva daninha ”, à propósito, tenho que fazer um parêntese, pense nessas palavras como se tivessem sido ditas por algum “guru organizacional” do momento... pois mãe, sabe como é, né?  Agente só vai admitir que ela estava certa quando quebramos a cara! Ou seja, se tem alguém na organização que adora ver o “circo pegar fogo”, esse alguém não merece trabalhar no circo, ele nunca será capaz de dividir o picadeiro e os aplausos com ninguém.
          Por isso, se de tudo até aqui dito não valer para coisa alguma, só há uma coisa a fazer, se desvencilhe logo desse alguém com espírito de Nero, para que ele não incendeie a vida das pessoas e não comprometa a saúde da organização, do mais... façamos a nossa parte!  
         Sábias palavras...
         
          
           
         
  REGINA COELI SIZENANDO DA SILVA
  Bacharel em Direito – UTP
  Educadora – FEMP (FAP) e
  Pós-graduada – UFPR
       


[1] CID-10 Código Internacional de Doenças. A referida lista foi elaborada em cumprimento da Lei 8.080/1990. Anexo integrante do documento Diagnóstico e Manejo das Doenças Relacionadas com o Trabalho:Manual de Procedimentos para os Serviços de Saúde.Ministério da Saúde-OPS.Disponível em http://www.saude.gov.br acesso em 23 de setembro de 2008.
 
[2] HOUAISS.Instituto Houaiss.Dicionário Eletrônico da Língua Portuguesa.versão2.0a.
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Comentários e Opiniões

1) Carlos Henrique Ribeiro Ferreira (09/10/2009 às 11:16:31) IP: 189.6.142.34
muito interessante este artigo e condiz com a realidade do mercado, principalmente em empresas familiares, onde lamentavelmente impera o principio de dividir para reinar...
importante pois ao ler podemos indentificar e tentar nos prevenir.
2) Malintkim Marina Reis (13/10/2009 às 18:14:02) IP: 201.38.214.18
certeiro!!!!!!!!!!!!!!!
muito claro!!!!!!!!!!!!
oferece motivo,causa consequencia e solução!
é a descrição mais perfeita da realidade organizacional e institucional das entidades,empresas, familias e celulas da atualidade.
mas a verdade é que se olhar ,se reconhecer nessa realidade,e tentar solucionar é quase como dar o braço a torcer para a imcompetencia e maus costumes.
e isso pode sim ficar debaixo dos panos,porque por cima deles...é necessario manter as divisas...


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