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A amizade aristotélica como possível solução para a Crise de Relações do Século XXI


Autoria:

Thayrone Moreira Magalhães


Thayrone Moreira Magalhães Graduando em Filosofia pelo UNISAL-Lorena/SP

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Resumo:

O objetivo do presente artigo é refletir sobre como o pensamento do filósofo grego Aristóteles acerca da Amizade pode contribuir para a vivência da mesma na pós-modernidade liquida.

Texto enviado ao JurisWay em 21/04/2016.

Última edição/atualização em 03/05/2016.



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INTRODUÇÃO

A sociedade hodierna vivencia uma crise relacional, principalmente as de âmbito comunitário em consequência da liquidez da sociedade e da virtualização das relações. Com efeito, essas duas situações provocam deturpações na concepção de pessoa, dentre elas, o individualismo que gera descompromisso com o outro.

Também está sendo vivenciada uma liquidez de conceitos. Segundo o sociólogo polonês Zygmunt Bauman, em sua obra Vida Líquida, a pós-modernidade não se apega a formas e, muito menos, permanece em suas estruturas por muito tempo, tudo é muito rápido e inconstante.

Por outro lado, no campo da filosofia, sempre é lembrada a figura emblemática do grande Aristóteles, também chamado o Estagirita, que escreveu no século IV a. C a obra Ética à Nicômaco com o objetivo de definir a felicidade que, para ele, é o sumo bem do homem. Porém, para se alcançar a felicidade é necessária à prática das virtudes e, dentre elas, o autor coloca em destaque a amizade (φιλία). Para Aristóteles ela é subdividida em três espécies: a amizade enquanto utilidade, prazer e virtude. Dessas espécies, o Estagirita vai dizer em sua Ética que a amizade perfeita é a amizade enquanto virtude, pois, ela promove a convivência e a justiça.

Com efeito, perante o contexto da crise relacional na sociedade do século XXI, reclama a seguinte problemática: Qual é a contribuição de Aristóteles para vivenciar a virtude da amizade numa época de crise de relações?

Diante desse questionamento, a reflexão se dará da seguinte forma: o primeiro tópico A Ética à Nicômaco desenvolve o contexto da obra e seus objetivos. Tem por finalidade apresentar a obra e mostrar que o Estagirita pensa uma ética que perpassa pela virtude e esta como meio para se alcançar a felicidade. Sua intenção é destacar que dentre as virtudes a amizade se situa em um lugar privilegiado, por se tratar de ser necessária à vida.

No tópico seguinte A amizade na Ética à Nicômaco, será analisada o que de fato é a amizade para Aristóteles. Também será iniciada a reflexão acerca da importância dessa virtude para a vida e, porque a amizade é uma virtude. Consequentemente, o desdobramento dessa exposição é o próximo tópico: “A Amizade enquanto virtude”, pois explica porque ela é a amizade perfeita e qual contribuição essa espécie pode dar ao problema já mencionado.

E finalmente o tópico A Amizade na Atualidade: As relações afetivas no século XXI e a crise de relações comunitárias se debruça sobre a questão à procura das possíveis resoluções para a mesma. Trata do contexto da sociedade liquida analisada por Bauman e a questão da instabilidade das relações que se assemelha com a amizade enquanto prazer, que é uma das espécies identificadas por Aristóteles em sua Ética. Nesse tópico é destacado o individualismo que, segundo Mounier, é adverso a um dos pilares fundamentais da concepção de pessoa: a comunidade. Por fim, se é citada a relação entre amizade e amor como o aspecto do companheirismo.

 

1 A ÉTICA À NICÔMACO

 

A Ética à Nicômaco foi escrita num contexto de um Aristóteles mais maduro, com um pensamento mais personalizado e sistemático. “O contexto em que foi escrita a Ética à Nicômaco é a fundação do Liceu em 335 a.C. a 323 a.C., mesmo que a ética, na sua forma atual seria do ano 300 a.C.” (LORENZETTI, 2004) Ela está contida na parte moral de sua filosofia.

Nessa obra, o Estagirita procura compreender a moral para se provocar a reflexão acerca da ética e da política. Segundo Lara:

Aristóteles, sob o método discursivo de argumentação lógica e dedutiva, o silogismo prático, descreve um elenco de virtudes (ou excelência moral) e vícios (ou deficiência moral), com o propósito de refletir sobre a finalidade da ciência ética e política. (2009, p. 16).

 

Como objetivo, a Ética procura definir o sumo bem do homem que é a felicidade, que consiste na plenitude das realizações que o ser humano pode fazer usando o seu intelecto. Segundo Mondin (1981, p. 108), “a perfeita atuação da razão verifica-se na contemplação.” Partindo desse pressuposto, se pode compreender que a felicidade que o homem tanto busca está na contemplação que gera ações concretas, ações essas que Aristóteles chama de virtude.

As virtudes são escolhas que geram equilíbrio e condiciona os princípios racionais do homem. Segundo o autor da Ética, elas são “uma disposição de caráter relacionada com a escolha e consistente numa mediania, isto é, a mediania relativa a nós, a qual é determinada por um princípio racional próprio do homem dotado de sabedoria prática”. (ARISTÓTELES, 1987, p. 73)

As virtudes são dividas em dois grupos fundamentais: virtudes éticas e virtudes dianoéticas. As virtudes éticas estão ligadas ao comportamento prático, isto é, nas ações que o ser humano comete no seu cotidiano. Segundo Reali e Antiseri (1990, p. 204), “esse tipo de virtude se adquire com a repetição de uma série de atos sucessivos, ou seja, com o hábito.” Daí, se é possível tirar a primeira definição de virtude: é um hábito adquirido.

As virtudes dianoéticas estão ligadas às capacidades intelectivas do ser humano, bem como o seu desenvolvimento e funcionamento. São cinco as virtudes dianoéticas: a intuição, a inteligência, a sabedoria, a arte e a prática. Sendo que, elas são fundamentais para o alcance da felicidade suprema, pois, conduz o homem ao ser divino, uma vez que, elas o levam à contemplação: “É precisamente no exercício desta ultima virtude, que constitui a perfeição da atividade contemplativa, que o homem alcança a felicidade máxima, quase tangência com o divino.” (REALE; ANTISERI, 1990, p. 206).

Com efeito, de todas as virtudes que são analisadas pelo Estagirita, a amizade ocupa um lugar de destaque, pois, para ele, ela se faz necessária para a que se haja felicidade.  

 

 

1. 1 A AMIZADE NA  ÉTICA À NICÔMACO

 

Na obra Ética à Nicômaco, Aristóteles dedica dois livros – VIII e IX – à temática da amizade. É notada, no princípio do livro VIII, a seguinte definição: “ela é uma virtude ou implica virtude, sendo, além disso, sumamente necessária à vida.” (ARISTÓTELES, 1987, p. 179). E só é necessária a vida porque ninguém optaria pela vida na ausência de amigos.

Por se tratar de ser ou implicar uma virtude, a amizade é o meiode se alcançar a felicidade. A felicidade, segundo o Estagirita (1987, p. 179), “estimula à prática de nobres ações”, uma vez que, por meio da companhia dos amigos, os homens possuem a capacidade de agir e de pensar virtuosamente.

Como já foi visto, a virtude é escolha que gera equilíbrio, é um hábito adquirido, é prática e é uma justa medida. Segundo Aristóteles, “é um meio termo entre dois vícios, um por excesso e outro por falta.” (ARISTÓTELES, 1987, p. 73) Ou seja, a virtude é o hábito de realizar atos que se encontram entre os vícios.

Mas, de todas as virtudes que o Estagirita vai averiguar, a amizade está em relevo porque sem ela não existe felicidade que é alcançada sem a necessidade de riquezas e honrarias, mas, somente com a plena realização das potencialidades humanas.

Para Aristóteles, existem três espécies de amizade: por causa de sua utilidade, por causa do prazer e por que é bom. A amizade enquanto utilidade, segundo o autor, “é agradável na medida em que despertam uma na outra a esperança de algum bem futuro.” (1987, p. 181) Nessa espécie de amizade, as pessoas convivem tendo como objeto de interesse aquilo que se pode oferecer, o vinculo está atrelado a um bem útil, porém, a utilidade não é algo perene, mas algo que está em constante mudança, sendo assim, ela desaparece com muita facilidade.

A amizade enquanto prazer, nos diz o autor, é própria dos jovens, pois, “eles são guiados pela emoção e buscam acima de tudo o que lhes é agradável e o que têm imediatamente diante dos olhos; mas com o correr dos anos os seus prazeres tornam-se diferentes.” (ARISTÓTELES, 1987, p. 181). Os jovens também são afetuosos e amorosos, porém, são inconstantes em seus relacionamentos, pois, esse afeto e esse amor estão ligados à emoção, ao calor do momento. É por essa razão, que os jovens tem uma disposição pra fazer e desfazer a amizade ligeiramente, pelo fato de que a motivação da mesma é causada pelo prazer que também se altera rapidamente.

Posteriormente, será exposta uma terceira espécie de amizade que Aristóteles ainda analisa e conceitua: a amizade enquanto boa ou enquanto virtude. O autor vai chama-la de amizade perfeita.

 

2  A AMIZADE ENQUANTO VIRTUDE

 

Como foi dito anteriormente, para o Estagirita existem três espécies de amizade. Dentre elas, a amizade enquanto boa ou enquanto virtude. Na Ética, ele a chama de amizade perfeita e diz que é a amizade própria de pessoas boas e virtuosas devido ao fato de que elas buscam somente o bem a si e ao outro por si mesmo: “A amizade perfeita é a dos homens que são bons e afins a virtude, pois esses desejam igualmente bem um ao outro enquanto bons, e são bons em si mesmos.” (ARISTÓTELES, 1987, p. 181).

Ao contrário das outras duas já citadas anteriormente, a amizade enquanto virtude é perene, pois, aqueles que se relacionam, encontram coisas em comum que dão prazer. Segundo Aristóteles, essa espécie “como seria de esperar, permanente, já que eles encontram um no outro todas as qualidades que os amigos devem possuir.” (1987, p. 182).

Ainda sobre a amizade enquanto virtude, a Ética vai dar mais um detalhe dessa espécie: ela é invulnerável à calúnia, ou seja, perante as falácias e os embustes, a amizade virtuosa suporta quaisquer ataques por causa da confiança com que os bons tem um para com o outro.

Contudo, o filósofo julga a amizade como virtude, pois encontra em si mesma a justiça, e é nesse contexto que se descortina a amizade civil e política. Todavia, a comunhão da sociedade e da concórdia são bases para a amizade e só se pode existir amizade se houver convivência. Segundo Lara (2009, p. 44), “é nessa tríade (amizade -justiça - felicidade) que identificamos o aspecto comunitário do bem.”

Quando se fala em aspecto comunitário, os olhares desse estudo se voltam para a realidade dos relacionamentos de amizade no contexto do século XXI, que está em crise. Com base no que já foi abordado, serão analisadas a amizade nos dias atuais e o que, de fato, é a crise de relações e a possível resposta a essa questão.

 

 

3. A AMIZADE NA ATUALIDADE: AS RELAÇÕES AFETIVAS NO SÉCULO XXI E A CRISE DAS RELAÇÕES COMUNITÁRIAS

 

A amizade na atualidade vive um processo de fragilidade, pois, as relações afetivas e comunitárias se liquefizeram e se tornaram relações descompromissadas. Segundo o sociólogo Zygmunt Bauman, a sociedade está vivendo uma vida líquida que consiste numa impermanência de vida, nada se forma: “a vida liquida, assim como a sociedade liquido-moderna, não pode manter a forma ou permanecer em seu curso por muito tempo.” (BAUMAN, 2007, p. 7).

Nesse contexto, as relações estão cada vez mais fragilizadas e inconstantes devido à facilidade de acesso das redes sociais na Internet: “as relações entre as pessoas estão cada vez mais vulneráveis e a realidade do mundo virtual proporciona a escolha de novos amigos e novos amores facilmente, ou melhor dizendo, num simples ‘clique’ do computador.” (SANTOS, 2013), sendo assim, o objetivo de amizade modifica-se facilmente, algo muito parecido, senão, idêntico à amizade enquanto prazer que Aristóteles analisa e que foi citado anteriormente.

Também nesse contexto, se manifesta o individualismo que afeta profundamente um dos polos fundamentais da concepção de pessoa: a comunidade. A pessoa, segundo Mounier, “não se nutre autonomamente” (2004, p. 46), mas, que ela precisa se relacionar, interagir e comunicar com o outro.

Partindo desse pressuposto de que o outro é importante para a formação da pessoa, pode-se afirmar que o outro é a extensão do eu e que a pessoa se torna mais pessoa na proporção em que se oferece ao outro, isto é, “só existo na medida em que existo para os outros ou numa frase-limite: ser é amar” (MOUNIER, 2004, p.46), assim, o amor está intrinsicamente ligado à existência da pessoa.

Sendo que, a amizade é uma demonstração de amor de uma pessoa para a outra. Segundo Barthes, “ninguém tem vontade de falar de amor, se não for para alguém.” (1989, p. 65), por isso, não há possibilidade falar de amizade sem amor, pois, o amor é comunicação entre pessoas.

Contudo, essa sociedade que se liquefez e que vive motivações momentâneas passa por uma crise devido à virtualização das relações comunitárias que promove uma amizade sem bases sólidas, sem compromisso. Isso se dá pelo fato da ausência de características essenciais para que se aconteça uma boa relação, dentre elas, o companheirismo.

Segundo o Estagirita, “a amizade é parceria, e tal é um homem para si mesmo, tal é para o seu amigo; ora, para ele a consciência torna-se ativa quando eles convivem. Por isso, é natural que busquem o convívio.” (ARISTÓTELES, 1987, p. 214). Repare que, com essa estrutura em que a sociedade hodierna vivencia, a concepção de pessoa está deturpada, pois, são de sua natureza o convívio e a parceria.

De fato, a sociedade do século XXI está necessitada de retornar às origens do conceito de amizade, no caso em Aristóteles, pois ele propõe a vivência da amizade enquanto virtude que “é boa porque cresce com o companheirismo.” (1987, p. 215). Em última análise, só pelo companheirismo e pela convivência se é possível solucionar a crise relacional hodierna, pois, são através dessas posturas que se edificam bases sólidas e consistentes para relações mais saudáveis.

 

CONCLUSÃO

 

Embasando no estudo da Ética de Aristóteles e, levando em consideração os conceitos de amizade, virtude e felicidade, infere-se que só será possível resolver o problema da crise relacional da sociedade hodierna quando a mesma retomar os valores do companheirismo, da convivência, do desinteresse, entre outros. Dessa forma, existe a possibilidade de promover o amor que gera comunicação e felicidade e esta que, como foi visto, é o sumo bem do ser humano. Entretanto, embora as redes sociais promovam conhecimento e relação entre pessoas, é fundamental que houvesse a valorização da conversa ‘presencial’ pois, ela favorece a convivência que humaniza.

Enfim, o mesmo homem que descobriu que pode formar novos amigos na mesma velocidade de um clique do computador precisa redescobrir os conceitos fundamentais de afeto e carinho que só é proporcionado por outro ser humano, afinal de contas, a melhor rede social que o homem pode frequentar é uma boa conversa cara a cara.


REFERÊNCIAS 

ARISTÓTELES. Ética a Nicômaco; Metafísica; Poética. Seleção de textos de José Américo Motta Pessanha. – São Paulo: Nova Cultural, 1987. (Os pensadores)

BAUMAN, Zygmund. Vida Liquida. Tradução de Carlos Alberto Medeiros. Rio de Janeiro: Ed. Jorge Zahar, 2007. 

BARTHES, Roland. Fragmentos de um discurso amoroso. Tradução de Hortência dos Santos. Rio de Janeiro: Ed. Francisco Alves, 1989.

LARA, Renata de Oliveira. Amizade na Ética à Nicômaco. 2009, 90 p. Dissertação (Mestrado Acadêmico em Filosofia) - Universidade Estadual do Ceará, Fortaleza, 2009.

LORENZETTI, Josemar Pedro. Ética a Nicômaco de Aristóteles – Resumo e Análise. [S. l.], 2004. Disponível em: . Acesso em: 30. abr. 2015.

MONDIN, Battista. Curso de Filosofia. Tradução de Benôni Lemos. São Paulo: Paulus, 1981, vol. I.

MOUNIER, Emmanuel. O Personalismo. Tradução de Vinícius Eduardo Alves. São Paulo: Centauro, 2004. 

REALE, Giovanni; ANTISERI, Dario. História da Filosofia: Antiguidade e Idade Média, vol. 1. São Paulo: Paulus, 1990. (Coleção Filosofia) 

 

SANTOS, Fabrício. Relações Sociais no Século XXI.  Goiânia, 2013. Disponível em: . Acessado em 29. abr. 2015.

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