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ADPF 54: UMA ANÁLISE IMPARCIAL DO JUDICIÁRIO ACERCA DO ABORTO DE FETO ANENCEFÁLICO


Autoria:

Ezequiel Ribeiro Silva Resende


Trabalho em escritório de advocacia, bacharel em Direito pela Faculdade de Talentos Humanos (Facthus), Pós Graduado em Ciências Criminais pela rede LFG e buscando a aprovação na carreira de Delegado de Polícia e a docência em instituição de educação

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Resumo:

O presente trabalho monográfico busca contextualizar a descriminalização do aborto anencefálico no Brasil, afastando as análises moralistas e dogmáticas.

Texto enviado ao JurisWay em 21/08/2015.



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ADPF 54: UMA ANÁLISE IMPARCIAL DO JUDICIÁRIO ACERCA DO ABORTO DE FETO ANENCEFÁLICO

 

RESUMO

O presente trabalho monográfico busca contextualizar a descriminalização do aborto anencefálico no Brasil, afastando as análises moralistas e dogmáticas. Visa evidenciar que este tipo de aborto deve ser rediscutido trazendo, contudo, uma visão positiva e legal, ou seja, OPTÁVEL e não EVITÁVEL de acordo com a imparcialidade do Supremo Tribunal Federal. Explorando de forma panorâmica o seu contexto no mundo e nas inúmeras religiões influentes, respeitando sempre o Princípio da Dignidade Humana e a livre escolha da mulher sobre seu corpo, o presente trabalho visa ampliar as pesquisas científicas existentes acerca deste relevantíssimo tema: o aborto de anencéfalo.

Palavras-chave: Aborto; Vida; Imparcialidade; Anencefalia; Descriminalização.

RESUMEN

Esta monografía pretende contextualizar la despenalización del aborto de anencefálicos en Brasil, lejos del análisis dogmático y moral. Su objetivo es demostrar que este tipo de aborto se debe reconsiderar el traer, sin embargo, una actitud positiva y fresca, es decir, OPTÁVEL y no EVITABLE según la imparcialidad de la Corte Suprema. Explorando de forma panorámica, su contexto en el mundo y numerosas religiones influyentes, respetando el principio de la dignidad humana y la libre elección de la mujer sobre su cuerpo.

Palabras clave: Aborto; Vida; Imparcialidad; Anencefalia; Despenalización.

SUMÁRIO

1 INTRODUÇÃO ................................................................................................ 8

2 A VIDA E O DIREITO ..................................................................................... 9

2.1 TEORIAS DA PERSONALIDADE DO NASCITURO .................................... 9

2.1.1 Teoria Natalista ...................................................................................... 10

2.1.2 Teoria Concepcionista ......................................................................... 11

2.1.3 Teoria da Personalidade Formal ou Condicional .............................. 13

3 O ABORTO ................................................................................................... 15

3.1 CONCEITO ................................................................................................ 15

3.2 EVOLUÇÃO HISTÓRICA ........................................................................... 16

3.3 ESPÉCIES ................................................................................................ 18

3.4 O ABORTO E A RELIGIÃO ....................................................................... 22

3.4.1 O Aborto no Mundo .............................................................................. 25

3.4.2 O Aborto no Brasil ................................................................................ 27

4 E O FETO ANENCÉFALO? .......................................................................... 31

4.1 CONCEITO DE ANENCEFALIA ................................................................. 31

4.2 CONSEQUÊNCIAS .................................................................................... 33

5 O DIREITO A UMA VIDA DIGNA ................................................................. 36

5.1 O DIREITO À VIDA .................................................................................... 36

5.2 O PRINCÍPIO DA DIGNIDADE HUMANA .................................................. 38

5.3 O DIREITO DA MULHER SOBRE O CORPO ........................................... 41

6 ADPF 54........................................................................................................ 43

CONSIDERAÇÕES FINAIS ............................................................................. 48

REFERÊNCIAS ................................................................................................ 50

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1 INTRODUÇÃO

O aborto de feto anencéfalo, tema que será discutido neste trabalho, vem investido de grandes discussões em toda a sociedade no Brasil, exatamente por não envolver somente questões jurídicas, mas também de costumes e religiões.

E com a evolução do direito, o aborto tem sido o foco de grandes doutrinadores para tentar mudar a legislação, demonstrando com a ciência e com a medicina, os perigos que a gestante de um feto anencefálico poderá correr durante a sua gestação.

Devido a interligação do direito com a medicina, e com a aproximação do ordenamento jurídico com as necessidades do ser humano, o tema ora abordado foi discutido e julgado pelos ministros do STF que tem a competência para tanto.

A ADPF 54 trouxe à baila para julgamento no Supremo Tribunal Federal a questão da descriminalização do aborto de anencéfalo. Esta teve o intuito de fazer valer a vontade da mãe de optar pelo não sofrimento de uma gestação de um natimorto, amparada pelo princípio da dignidade da pessoa humana, perante a confirmação de que o feto anencéfalo não possuirá perspectiva de vida.

Com isso, o tema proposto é de grande valia para a sociedade num todo, já que a descriminalização do aborto de anencéfalo garante o direito da mulher sobre seu corpo e lhe assegura o exercício de sua vontade, a qual por vezes, é ceifada pelo Estado.

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2 A VIDA E O DIREITO

2.1 TEORIAS DA PERSONALIDADE DO NASCITURO

Pessoa natural é o indivíduo que nascendo com vida adquire personalidade, conforme o art. 2° do Código Civil de 2002, o qual determina que “a personalidade civil da pessoa começa do nascimento com vida; mas a lei põe a salvo, desde a concepção os direitos do nascituro”. (VADE MECUM SARAIVA, 2012, p.149).

O ordenamento pátrio adota o sistema de que o nascimento com vida é o marco inicial da personalidade, como pode ser observado pelo artigo retro mencionado.

O nascimento ocorre quando a criança é separada do ventre materno, independentemente de o parto ter sido natural ou com intervenção cirúrgica. O essencial é que tenha ele ocorrido na unidade biológica através da constituição de mãe e filho por dois corpos, com vida orgânica própria, mesmo que ainda não tenha sido cortado o cordão umbilical. (GONÇALVES, 2007, p.77).

Verifica-se, portanto, que o nascimento com vida é constatado por meio da respiração. Se restou comprovado que a criança ao nascer respirou, houve então nascimento com vida. (VENOSA, 2010, p.136).

No entanto, se o infante nasceu morto, ele não adquire personalidade jurídica. E se mesmo após seu nascimento tiver o infante respirado e em seguida falecido, será ele considerado sujeito de direitos, pois por um breve espaço de tempo houve personalidade. (GONÇALVES, 2007, p.78).

Portanto, faz-se mister salientar, que a personalidade é conceito basilar da ordem jurídica, sendo instituída na legislação civil, dando prosseguimento a todos os direitos personalíssimos e materiais, podendo o indivíduo pleitear desde o nascimento seus direitos já resguardados.

No entanto, a determinação do início da vida, personalidade no direito (e também em outras áreas da ciência), é tema controvertido doutrinariamente.

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Assim, necessário se faz estudar as diversas teorias que versam sobre este tema, que se mostram essenciais para o estudo do instituto do aborto.

2.1.1 Teoria Natalista

A teoria natalista preceitua que o inicio da personalidade se dá após o nascimento com vida, tanto na forma de parto normal ou na forma de incisão da camada abdominal, conhecida por cesariana, significando que antes do nascimento não pode haver para o nascituro, personalidade, possuindo o mesmo mera expectativa de direito.

Segundo Moura (2011, p.12):

A doutrina tradicional entende que o direito brasileiro repousa aqui seu entendimento, muito embora a questão não esteja pacificada. Não obstante a maioria de vozes, deve-se observar que a adoção da teoria natalista pelo Código Civil Brasileiro, possui uma ressalva, qual seja, a proteção dos direitos do nascituro desde concepção, os quais estariam, até então suspensos ou em condição potencial ou virtual. Se nasce com vida, sua existência jurídica deve retroagir ao tempo da concepção.

Assim, quando o nascituro nasce e há de imediato o funcionamento do sistema cardiorrespiratório, que é diagnosticado clinicamente, através de exame denominado “docimasia hidrostática de Galeno”, há o início de sua personalidade jurídica, passando ele a ser sujeito de direitos, mesmo que venha a falecer logo em seguida. Este exame mencionado é, nos dias atuais, o mais utilizado para se comprovar se a criança nasceu com vida ,ou se já saiu do ventre materno sem ela.

Contudo, de acordo com os ensinamentos de Rodrigues (2007, p.36), a teoria natalista, mesmo não admitindo a personalidade jurídica antes do nascimento, põe a salvo os direitos do nascituro:

Nascituro é o ser já concebido, mas que ainda se encontra no ventre materno. A lei não lhe concede personalidade, a qual se lhe será conferida se nascer com vida. Mas, como provavelmente nascerá com vida, o ordenamento jurídico desde logo preserva seus

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interesses futuros, tomando medidas para salvaguardar os direitos que, com muita probabilidade, em breve serão seus.

O seguinte julgado confirma este posicionamento conforme expõe Moura (2011):

CIVIL. NASCITURO. PROTEÇÃO DE SEU DIREITO, NA VERDADE PROTEÇÃO DE EXPECTATIVA, QUE SE TORNARA DIREITO, SE ELE NASCER VIVO. VENDA FEITA PELOS PAIS A IRMA DO NASCITURO. AS HIPÓTESES PREVISTAS NO CÓDIGO CIVIL, RELATIVAS A DIREITOS DO NASCITURO, SÃO EXAUSTIVAS, NÃO OS EQUIPARANDO EM TUDO AO JA NASCIDO (BRASIL. SUPREMO TRIBUNAL FEDERAL. RE 99038, Rel. Min. Fernando Rezek, 1984).

Contudo, os doutrinadores que defendem essa teoria natalista, aduzem que esta deve ser a tese acolhida em nosso ordenamento, mesmo diante de vários posicionamentos contrários e que o nascituro dentro do ventre materno é apenas parte das vísceras dessa, com isso dividindo com a mãe um único órgão, a placenta.

Em sentido contrário, há uma grande corrente de doutrinadores defensores da teoria da concepção, que defendem que a personalidade é concedida ao nascituro antes mesmo do nascimento com vida, assim como se verá.

2.1.2 Teoria Concepcionista

Os defensores da teoria concepcionista tais como os doutrinadores Clóvis Beviláqua, Teixeira de Freitas e Maria Helena Diniz, se valem das contribuições trazidas pelo direito civil francês considerando que o nascituro seja viável e se nascer com vida terá sua capacidade remontada na concepção. Sendo assim, a personalidade do nascituro se inicia antes mesmo do nascimento, haja vista que desde a concepção devem ser assegurados os seus direitos.

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Insta mencionar que os direitos aqui defendidos, são aqueles personalíssimos e os de personalidade, restando os de conteúdo patrimonial, que, de fato, serão adquiridos com o nascimento.

Nos tempos atuais, verifica-se o aumento dos adeptos dessa teoria, principalmente após a promulgação da Lei n°11.804/2008, denominada “Lei dos alimentos gravídicos”, que estabelece de forma sistemática uma mudança notória em relação aos direitos desde a concepção, podendo a gestante receber alimentos de forma especial, assistência médica, internações, o parto, dentre outros benefícios, tendo sido defendida em julgados no Superior Tribunal de Justiça, conforme se vê:

DIREITO CIVIL. DANOS MORAIS. MORTE. ATROPELAMENTO. COMPOSIÇÃO FÉRREA. AÇÃO AJUIZADA 23 ANOS APÓS O EVENTO. PRESCRIÇÃO INEXISTENTE. INFLUÊNCIA NA QUANTIFICAÇÃO DO QUANTUM. PRECEDENTES DA TURMA. NASCITURO. DIREITO AOS DANOS MORAIS. DOUTRINA. ATENUAÇÃO. FIXAÇÃO NESTA INSTÂNCIA. POSSIBILIDADE. RECURSO PARCIALMENTE PROVIDO.

I - Nos termos da orientação da Turma, o direito à indenização por dano moral não desaparece com o decurso de tempo (desde que não transcorrido o lapso prescricional), mas é fato a ser considerado na fixação do quantum.

II - O nascituro também tem direito aos danos morais pela morte do pai, mas a circunstância de não tê-lo conhecido em vida tem influência na fixação do quantum.

III - Recomenda-se que o valor do dano moral seja fixado desde logo, inclusive nesta instância, buscando dar solução definitiva ao caso e evitando inconvenientes e retardamento da solução jurisdicional.(BRASIL. SUPERIOR TRIBUNAL DE JUSTIÇA. REsp. 399028/SP. Rel. Min. Sálvio de Figueiredo Teixeira, 2002).

A tese aqui defendida afirma que se o nascituro, desde a concepção, já detém direitos e deverá ser considerado e chamado de pessoa, uma vez que apenas as pessoas podem ser sujeitos de direitos, ou seja, não há como ter direito sem sujeito, e o direito sempre deverá ter um titular.

Os defensores dessa corrente aludem que reconhecer a teoria natalista seria um erro e que seria um retrocesso admitir que o nascituro é simplesmente uma perspectiva de pessoa com mera expectativa de direitos, negando-lhe direitos assegurados a todos de modo indubitável.

Nessa mesma linha de raciocínio, já decidiu o Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul, assim aludindo:

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Seguro-obrigatório. Acidente. Abortamento. Direito à percepção da indenização. O nascituro goza de personalidade jurídica desde a concepção. O nascimento com vida diz respeito apenas à capacidade de exercício de alguns direitos patrimoniais. Apelação a que se dá provimento. (BRASIL. TRIBUNAL DE JUSTIÇA DO RIO GRANDE DO SUL. Ap. 70002027910, Relator: Des. Sálvio de Figueiredo Teixeira, 2001).

Acerca do julgado retromencionado, a professora Maria Helena Diniz (2002, p. 145) se posiciona alegando que:

Parece-nos que a razão está com a teoria concepcionista, uma vez que o Código Civil resguarda desde a concepção os direitos do nascituro e, além disso, no art. 1597, IV, presume concebido na constância do casamento o filho havido, a qualquer tempo, quando se tratar de embrião excedente, decorrente de concepção artificial homóloga. Com isso, protegidos estão os direitos da personalidade do embrião, fertilizado in vitro, e do nascituro.

Hoje, é sabido que a teoria concepcionista é adotada pelo Código húngaro e argentino notadamente.

Contudo, a divergência doutrinária brasileira ainda faz com que outra teoria seja analisada.

2.1.3 Teoria da Personalidade Formal ou Condicional

Essa teoria é, sem dúvida, uma mistura das duas anteriormente esplanadas, fazendo com que vários doutrinadores subdividam a visão concepcionista da personalidade jurídica do nascituro, e sustentem que a personalidade deve se dá desde a concepção, porém condicionada ao nascimento com vida.

Assim sendo, estando o feto no ventre intrauterino teria desde então, direitos assegurados pela lei, entretanto estaria ele sujeito a uma condição suspensiva, qual seja o nascimento com vida. Dessa forma todos os seus direitos, sejam eles personalíssimos ou patrimoniais, seriam assegurados desde a concepção, mesmo que venha a falecer após o nascimento.

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Um dos defensores dessa corrente, Washington de Barros Monteiro (2006), aduz o seguinte:

Discute-se se o nascituro é pessoa virtual, cidadão em germe, homem in spem. Seja qual for a conceituação, há para o feto uma expectativa de vida humana, uma pessoa em formação. A lei não pode ignorá-lo e por isso lhe salvaguarda os eventuais direitos. Mas, para que estes se adquiram, preciso é que ocorra o nascimento com vida. Por assim dizer, o nascituro é pessoa condicional; a aquisição de personalidade acha-se sob a dependência de condição suspensiva, o nascimento com vida. A esta situação toda especial chama Planiol de antecipação da personalidade.

Nesse diapasão, pelo já esboçado, note-se que essa teoria explica que o nascituro poderá ser considerado uma pessoa condicional, por isso, se nasce com vida, passa a usufruir dos seus direitos e deveres que estavam suspensos. De outro lado, caso o neonato nasça sem vida, fica imediatamente isento dos direitos, abandonando a condição de pessoa, tornando-se apenas uma coisa.

Como já esboçado anteriormente, pode-se afirmar que a teoria adotada pela lei no Brasil é a teoria natalista, que coloca a proteção da personalidade do nascituro desde o nascimento com vida, protegendo-o desde a sua concepção, na qual poderá o feto tutelar direitos (por meio de sua representante a mãe) dentro do ventre materno.

Portanto, necessário foi trazer todas essas teorias a baila a fim de direcionar esse trabalho em tela, dando continuidade e conceituando o delito de aborto.

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3 O ABORTO

3.1 CONCEITO

A palavra aborto ou o termo abortamento advém do latim abortus que significa a privação do nascimento ou aquele que nasce antes do tempo, sendo mais correta a utilização da nomenclatura “abortamento”, por entender que a palavra aborto expressa o produto da concepção.

Para alguns doutrinadores o aborto é denominado de “feticídio”, como se dispõe Carrara (2005, p.223, apud SALGE, 2004), “feticídio é a morte dolosa do feto no útero ou a sua expulsão violenta do ventre materno, da qual resulta a morte do mesmo feto”.

O dicionário jurídico Silva. de Plácido (2007, p.08) conceitua o aborto como, “expulsão prematura do feto ou embrião: antes do tempo do parto.”

O aborto de forma geral é a interrupção de uma gravidez por remoção ou expulsão prematura de um feto do útero materno, dando fim a atividade biológica do nascituro, o que poderá ocasionar sua morte instantânea. Os meios mais utilizados para atingir esse fim são o uso de medicamentos e através de cirurgia.

Insta dizer que o aborto induzido, ou seja, aquele realizado por profissional capacitado e com boas condições de higiene é considerado o meio mais seguro. Porém, conforme estatísticas do blog Zona Aborto (2013) “o aborto inseguro, quando não é realizado por profissional de boa qualidade e consequentemente não são empregadas as condições de higiene necessárias, chega a desencadear cerca de 70 mil mortes e mais de cinco milhões de lesões em mulheres por ano em todo o mundo”.

Em regra, o aborto mostra-se para o direito penal punível como se dispõe nos artigos 124 a 128 do Código Penal, contudo existem algumas formas de abortamento legal, quais sejam, o aborto terapêutico e o necessário. O primeiro se dá quando a gestante se encontra em perigo de vida inevitável, ou seja, com a finalidade de salvar sua vida. Já o segundo se torna legal

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quando a gestante foi estuprada e o feto que está gerando é fruto do delito, sendo mais conhecido como aborto ético ou humanitário. Os quais serão explanados mais adiante quando abordados pela seara penal.

Diante disso, ficam conceituadas de forma ampla as várias hermenêuticas em relação ao aborto, objeto de estudo mais adiante de forma sistemática e compreensível. Sendo necessário a priori um conhecimento histórico do tratamento dado ao aborto pela sociedade.

3.2 EVOLUÇÃO HISTÓRICA

Desde os primórdios da evolução humana, o aborto é tema de grande discussão entre as religiões, as diversas culturas, os países, a política, os direitos humanos, principalmente no ordenamento jurídico penal vigente.

Dessa forma, a matéria vem sofrendo inúmeras variações, ficando demonstrada a sua importância em meio à sociedade e discussão polêmica do direito das mulheres sobre seus corpos.

Com efeito, esclarece Maria Helena Diniz (2002, p.35) que:

O aborto sempre esteve presente na história do direito, por ser uma prática comum em todos os povos e épocas, embora não tenha sido incriminado por várias legislações, sendo inclusive considerado, em certo período, assunto estritamente familiar, que podia repercutir no direito privado, e, em outro, severamente castigado com a pena capital, não faltando, ainda, eras em que foi punido brandamente.

Não obstante, o aborto nas suas várias espécies não era punível por alguns povos como os hebreus, os gregos e os egípcios, que, diga-se de passagem, consentiam com o ato e até entendiam sê-lo necessário para afastar as complicações de um parto e até mesmo as fortes dores que a gestante sentia.

Alguns povos daquela época entendiam ser o aborto necessário até mesmo pela inexperiência de algumas mães que podiam evitar o peso nas obrigações maternas em relação aos cuidados com os filhos.

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Insta frisar que, diante da percepção grega, povo que honrava a beleza da mulher, o aborto era um meio de resguardar as mulheres das deformidades trazidas com a gravidez e era um meio de fazer prevalecer as curvas femininas que tanto eram defendidas. Para eles, o feto era parte integrante do corpo da gestante, podendo esta a qualquer tempo dispor do nascituro sem qualquer prejuízo.

O doutrinador José Henrique Pierangeli (2011) menciona um trecho de uma dessas passagens históricas como retro mencionado, dizendo:

Ovídio informa que sua amante Corina consentiu num aborto para impedir que se produzissem rugas no seu ventre e dessa maneira manter limpa a sua pele. Afirma-se que em Mileto, uma famosa cortesã chamada Aspásia não só praticou, como escreveu um livro sobre este tema. Todavia, Hipócrates repudiou a prática do aborto, inserindo no seu famoso código de honra dos médicos que, ainda hoje, constitui um juramento simbólico e solenemente proferido pelos formandos em medicina, que ele jamais ministrará à mulher grávida substância para que ela aborte.

Assim, fica claro que os defensores e os críticos do aborto sempre existiram.

O grande filósofo Aristóteles chegou a escrever sobre o tema no sétimo livro de sua obra “Política”, admitindo o aborto apenas quando a gravidez da mulher se desse por meio de ato delitivo ou fosse ele autorizado judicialmente. Tendo o mesmo pensamento, Platão defendeu a proibição do aborto alegando que para a segurança de Esparta, seria necessário um grande contingente de soldados e atletas.

Nessa esteira, dentro do período cristão, vários foram os pensadores e imperadores que defendiam a proibição do aborto, assim como Adriano, Constantino e Teodósio que assimilaram o abortamento ao delito de homicídio.

Na mesma época, Santo Agostinho, baseando-se nos entendimentos e teses de Aristóteles, considerava o delito de aborto apenas quando o feto já tivesse recebido alma, asseverando que este a recebia a partir de quarenta e oito dias após a fecundação. Já para São Basílio, quem praticasse o crime de aborto, deveria ser condenado independentemente de período de gestação.

Ademais, ao fim de todas as provocações e teses defendidas por inúmeros conhecedores da época, o aborto foi considerado como crime pela

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primeira vez na Constitutio Bamberguensis, no ano de 1507 e na Constitutio Criminalis Carolina de 1532, sendo nelas, realizada a distinção de “fetos animados e inanimados”, tendo como punição a pena igual ao delito de homicídio, dados estes segundo Cláudia Aparecida Salge (2005, p.221).

No Brasil, o Código Penal do Império de 1830, punia o aborto apenas quando praticado por terceiro que o realizava com ou sem o consentimento da gestante, escusando-a da punibilidade das sanções penais. Só no ano de 1890 com o advento de um novo Código Penal, a gestante passou a figurar como sujeito ativo do delito, sendo este crime mais tarde, instalado no Código Penal de 1940 (que é vigente até os dias de hoje), nos seus artigos 124 a 128.

Portanto, foi possível observar que desde muito tempo o aborto tem sido tema de grande discussão mesmo nas diferentes culturas e povos ao redor do mundo e esses posicionamentos influenciaram os diferentes ordenamentos jurídicos ao redor do mundo, inclusive o ordenamento jurídico brasileiro, que divide as espécies do crime de aborto da forma que será estudada adiante.

3.3 ESPÉCIES

O delito de Aborto está previsto nos artigos 124 a 128 do Código Penal Brasileiro, os quais preveem as espécies de abortamentos regidos pelo ordenamento jurídico. Vale destacar, de forma especial, cada espécie no seu contexto, quais sejam: o auto-aborto; aborto provocado por terceiro; o aborto consensual; o aborto qualificado; o aborto necessário ou legal; o aborto sentimental e o aborto eugênico.

O auto-aborto está descrito no artigo 124 do Código Penal, sendo este dividido em duas partes, como se vê, “provocar aborto em si mesma ou consentir que outrem lho provoque” (VADE MECUM ÍMPETUS 2013, p.481). A segunda parte descreve um terceiro que comete o delito epigrafado com a ciência da gestante, e será sujeito ativo do artigo 124. O terceiro consentido responderá pelo artigo 126 do mesmo caderno repressor.

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Note-se que há uma grande discussão se há coautoria ou mera participação deste terceiro. Sobre isso Mirabete se manifesta da seguinte forma: “ainda que moral, de terceiros, no incitamento ao aborto, na propiciação dos meios necessários a ele, ou na ministração de instruções, ou, ainda, tornando possível o delito, mesmo que dele diretamente não participem”. (1964, p.60 apud NORONHA, 2010). Com isso, segundo Mirabete (2010, p.61), “o partícipe somente responderia pelo crime previsto no artigo 126 quando participasse do ato executivo, ou seja, quando interviesse na execução ou no emprego do meio abortivo”, em continuidade:

Os verbos dos tipos são consentir (art.124, 2º parte) e provocar (art.126). Se o sujeito intervém na conduta de a gestante consentir, aconselhando, v.g, deve responder como partícipe do crime do art. 124. Agora, se, de qualquer modo, concorrer no fato do terceiro provocador, responderá como partícipe do crime do art. 126 do CP.

Ato contínuo, o aborto provocado por terceiro que se localiza no artigo 125 do Código Penal que diz, “provocar aborto, sem o consentimento da gestante”. Assim, haverá o crime quando o terceiro empregar violência, ameaça ou fraude na prática do aborto. Neste último caso, segundo Mirabete (2010, p.61), seria o caso de “convencer a gestante de que se está praticando uma intervenção cirúrgica para remover um tumor ou de fazê-la ingerir um abortivo supondo que se trata de um medicamento”. Em decorrência do termo “sem o consentimento”, é também aplicável a gestantes menores de 14 anos de idade, ou quando esta for débil mental por haver diminuídos seus discernimentos psíquicos.

A modalidade de aborto consensual, ou seja, com o consentimento da gestante, está prevista no artigo 126 do Código Penal, “provocar aborto com o consentimento da gestante”. Note-se que a “permissão”, não exclui o delito. Neste caso, é necessário que a gestante possua capacidade para consentir, no entendimento de Damásio de Jesus (2010, p.157):

Neste campo, o Direito Penal é menos formal e mais realístico, não se aplicando as normas do Direito Privado. Leva-se em conta a vontade real da gestante, desde que juridicamente relevante. Se, ao contrário, não é maior de 14 anos, ou é alienada ou débil mental, ou se o seu consentimento é obtido mediante fraude, grave ameaça ou

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violência, o fato é atípico diante da norma que descreve o aborto consensual, adequando-se à definição do crime do art.125 do CP.

Assim sendo, o puro consentimento da gestante deverá persistir por toda a conduta do terceiro para a execução do delito.

Neste diapasão, inclui-se nesse rol taxativo, o aborto em sua modalidade qualificada, como assim dispõe o artigo 127 do Código Penal, sendo aplicáveis às formas previstas exclusivamente nos artigos 125 e 126 do mesmo caderno.

Trata-se de crime preterdoloso, ou seja, aquele em que o agente quer praticar o resultado a título de dolo. No caso, fomenta o aborto, e realiza com culpa uma lesão corporal de natureza grave ou até mesmo a morte, razões estas de ser o referido crime punível na modalidade qualificada.

Com isso, se o agente utilizar-se dos meios a praticar o resultado, e sendo ceifada a vida do feto, com a lesão de natureza grave ou a morte da gestante, responderá o agente pela tentativa de aborto em sua modalidade qualificada. Vale lembrar, que nesse caso, não se pune com a qualificadora os casos do art. 124, uma vez que havendo o consentimento da gestante, não há que se falar em punibilidade, vez que não é punível, aos olhos do ordenamento jurídico vigente, a autolesão.

Nos termos do artigo 128 do Código Penal Brasileiro, o aborto legal ou necessário, exclui de punibilidade do médico que praticar o evento abortivo nos casos em que não houver outro meio de salvar a vida da gestante e se restar verificado que ela foi vítima de crime de estupro. Assim sendo, esta modalidade de aborto será praticada por profissional se sua ação preceder da vontade da gestante, ou se ela for incapaz, pelo consentimento dos pais ou representante legal.

No caso do aborto necessário, há o entendimento majoritário dos doutrinadores que ele se caracteriza pelo estado de necessidade, como assim dispõe o ilustre Mirabete (2010, p.63):

Para evitar qualquer dificuldade, deixou o legislador consignada expressamente a possibilidade de o médico provocar o aborto se verificar ser esse o único meio de salvar a vida da gestante. No caso, não é necessário que o perigo seja atual, bastando a certeza de que o desenvolvimento da gravidez poderá provocar a morte da gestante.

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O risco de vida pode decorrer de anemias profundas, diabetes, cardiopatias, tuberculose pulmonar, câncer uterino, má conformação da mulher etc.

Nessa esteira, defende Marrey (2010), “depende o aborto necessário do consentimento da gestante, pois não se equipara à intervenção cirúrgica, que pode ser levada a efeito contra a vontade do paciente”, ou seja, não necessita o médico de consentimento para intervir, malgrado este entendimento venha ferir o inciso II do artigo 128, aludindo que para ser realizado o abortamento deve-se haver o consentimento da gestante.

O aborto eugênico tem sido o mais discutido na atualidade, e é o ponta pé inicial deste trabalho, por tratar de anomalias dadas como graves (como é o caso da anencefalia que será estudada mais adiante). Tem-se o entendimento de que este tipo de abortamento não admite excludente de ilicitude, mas outros doutrinadores defendem sua descriminalização por entenderem que deve-se evitar o sofrimento da gestante desde o diagnóstico médico. No entendimento de Ney Moura Teles (2004, p.188):

Necessário esclarecer que não se trata de buscar a formação de seres perfeitos, de uma raça superior, mas tão somente de facultar à mãe impedir o nascimento de um ser malformado, que não terá vida digna e, em certos casos, nenhuma vida, por sua indiscutível inviabilidade. Exames como a biópsia de corion, a amniocentese e a cordoncentese podem permitir o diagnóstico de que o feto é portador de grave doença ou má formação congênita incurável. Exemplos conhecidos são a acrania e a anencefalia, em que o ser não tem crânio ou cérebro. As lesões devem ser graves e incuráveis, não se incluindo, portanto, as graves que possam ser corrigidas cirurgicamente, nem as não graves incuráveis.”

Portanto, para este doutrinador, a inviabilidade do feto anômalo e os danos psicológicos à gestante justificam essa posição, dando azo a vários entendedores que também defendem a descriminalização desse tipo de aborto.

Ultimamente, o Supremo Tribunal Federal por meio da ADPF 54 (Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental) colocou em pauta a descriminalização do aborto de feto anencefálico, que será analisado outrora.

Antes, contudo, há ainda que se analisar as posições políticas, sociais e principalmente religiosas, que tem sido um diferencial através de seus líderes para tornar possível ou não a descriminalização do aborto de fetos anencéfalos

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no Brasil, através de seus ensinamentos bíblicos e até mesmo antropológicos, como assim se verá posteriormente.

3.4 O ABORTO E A RELIGIÃO

O tema ora explanado, já foi estudado sob o ponto de vista de algumas religiões que tem demonstrado suas insatisfações ou concordâncias com a pratica abortiva. De igual modo na visão de Telles (2004, p.184):

Direito Penal nada tem a ver com religião, a não ser para garantir a liberdade de cultos. Que obstetra, se católico, faça chegar ao feto, como aconselhava MARCHAND, gota de água benta e o batize, vá; mas terá faltado ao seu mais elementar dever se, podendo poupar a vida preciosa de uma mãe de família com o sacrifício de um ser ainda não totalmente formado, deixar que ambos pereçam.

Sem dúvida o aborto, tem sido objeto de inúmeras discussões por todo o mundo, e é alvo de críticas principalmente se analisa sob um prisma religioso, já que cada religião possui um ponto de vista, e essa discussão é essencialmente voraz nos países em que há uma forte tradição cristã, como o Brasil.

Muito embora uma democracia laica não necessite de consenso religioso a fim de legalizar ou descriminalizar o aborto, o debate do tema proposto é capaz de suplantar o dilema moral desafiando os conceitos jurídicos e éticos quando se trata de interrupção de gestação.

Diante dessa situação, o Brasil (nação laica) vive um desconforto por haver e aceitar várias religiões, crenças e costumes, cada qual defensora de sua opinião de forma incisiva e por precisar conciliar todas elas no intuito de dar tratamento mais justo ao aborto.

Dessa forma, note-se que um indígena de acordo com seus costumes culturais e baseados nas crenças de seu povo, pode ceifar a vida de um recém nascido, malgrado essa situação seja reprimida de forma social e jurídica. De

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outra maneira um cidadão brasileiro não poderá seguir o mesmo ritual ou costume, se estiver em desconformidade com a Constituição Federal vigente.

No cristianismo, sejam as igrejas católicas ou protestantes, o ponto de vista é o mesmo em relação as suas doutrinas, que se fundamentam no respeito à vida humana e na igualdade de todos perante Deus. Porém, em relação à interrupção da gravidez divergem, a saber, se o embrião ou o feto teriam ou não vida a partir do desenvolvimento ultra-uterino. Essa discussão já esboçada mais acima, compreende que há vida a partir das práticas incisivas ou do parto normal. Muitas foram as descobertas científicas em relação a este assunto que sempre foi objeto de uma pressão social que tinha como intuito atrapalhar ou dificultar esse trabalho. Danda Prado (1984, p.59) relata que:

É fácil constatar que a maioria dos estudos conhecidos nos vem das últimas décadas, porque até então a força da igreja católica era maior e impedida que verbas fossem aplicadas em pesquisas nesse setor da ciência. Afirmações categóricas, regras morais, debates de opinião se multiplicaram, mas poucas análises objetivas e filosóficas foram feitas.

A igreja católica mantém até os dias atuais a punição para a interrupção de uma vida, mesmo que seja ainda um embrião. O Papa Paulo VI, em meados de 1976, defendeu a tese de que o feto possui um pleno direito à vida, e que a mulher não tem direito algum de abortar, mesmo para se necessário salvar sua própria vida. A igreja defende a interrupção da gravidez apenas quando a mulher se encontra enferma de câncer uterino, pois há a necessidade de remover o útero.

A doutrina das igrejas protestantes é mais flexível. Para Danda Prado (1984, p.64):

A grande diferença entre católicos e a maioria das igrejas protestantes, está no respeito à vida da mãe. Assim, todos concordam, em que é no momento da concepção que esta adquire todos os direitos pessoais e deveres atinentes à maternidade, pois é encarregada de gestar, cuidar e alimentar o embrião desde o momento de sua concepção até o momento de seu nascimento. Ao mesmo tempo, é preciso ver que o médico tem um dever primordial para com a mãe, pois foi ela a pessoa que o requisitou. Assim, se uma escolha tiver de ser feita entre a vida da mãe e a do embrião ou do feto, recairá sempre sobre ela a escolha prioritária, cabendo

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portanto ao médico decidir, em última análise, quando ele poderá desligar a mãe de sua responsabilidade em relação ao feto.

Os líderes da religião islâmica também são contra o aborto, mas ultimamente alguns deles têm sido menos conservadores e aprovam os medicamentos abortivos durante a fase da gravidez, o qual, contudo, deve ser ingerido antes da formação do embrião. Esse período compreende os primeiros 120 dias de gestação. Assim alude o Alcorão (livro sagrado muçulmano):

Nós o colocamos como gota de semente em local seguro preso com firmeza: depois fundimos a gota em coalhos, moldamos um (feto) bolo; então nesse bolo talhamos ossos, e vestimos os ossos com carne; então o produzimos como a outra criatura. Assim, bendito é Deus o melhor criador.

O espiritismo, religião bastante difundida por todo o mundo, que tem como vértice o Kardecismo, defende de forma esgotável que o aborto é crime, mas, restringe o aborto quando há risco de vida para a gestante. Para eles o espírito sempre existiu, sendo retirado do corpo pela morte e reencarnado, posteriormente em outro corpo. Em seu ponto de vista quando realizado o aborto, os seus causadores terão um espírito inimigo e perigoso que poderá causar danos futuros.

No judaísmo, defende-se que se o aborto não foi desejável, não poderá ser considerado crime, e leva-se em conta, principalmente, a saúde da mulher. Para os judeus o feto só se transforma em um ser humano, quando nasce com vida. Com isso, a alma só é adquirida após o nascimento, não sendo extensível, ou seja, na visão dos judeus, a alma não cresce durante os nove meses de gestação juntamente com o feto.

Em suma, a pretensão não é esgotar o tema ou mesmo defender a prática do aborto, mas sim expor a opinião de cada religião vista por seus líderes. Considerando essa pluralidade de opiniões, claro fica que o ordenamento jurídico pátrio não conseguiria (e nem poderia) adotá-los em sua totalidade e de forma coerente.

Assim, adotando a laicidade como preceito inaugural da nova ordem jurídica instituída em 1988, o Estado Brasileiro decidiu, como o fizeram

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diversos outros países, elaborar leis que não se deixassem reger por doutrinas ou posições religiosas.

Com isso em mente, a previsão legal do aborto, no Brasil e no mundo, será a seguir estudada de forma simples e dinâmica.

3.4.1 O Aborto no Mundo

Sabe-se que o aborto tem sido objeto de grande discussão por todo o mundo, principalmente no tocante às legislações de países conservadores que vem admitindo a liberação abortiva em alguns casos específicos. Diante de uma visão global, um país que não pode manter seus filhos não tem o direito de exigir seu nascimento, ficando evidenciado a ineficaz sanção penal, uma vez que raramente o aborto tem sido punido de forma coercitiva. Essa proibição abortiva instituída por vários Estados tem levado as mulheres gestantes, a procurar profissionais negligentes e desonrados a executar de forma fria o aborto de forma cruel. Por isso, nesse trabalho em tela, é defendida de forma enérgica a descriminalização do aborto por ter a mulher o direito de dispor do seu próprio corpo independentemente de sua federação, no que tange ao aborto de anencéfalo.

Atualmente, vários países tem entendido, que o aborto provocado até o terceiro ou quarto mês de gravidez não pode ser incriminado, dentre eles, a Suécia, Dinamarca, Finlândia, Inglaterra, França, Alemanha, Áustria, Hungria, Japão, Estados Unidos etc.

Estima-se que o número de abortos durante um ano é de 46 a 55 milhões em todo o mundo, é de aproximadamente 126.000 mil por dia. Mas quando essas estatísticas, ofertadas pelo Dr. Luis Bethancourt (2010), vêm à tona o nosso raciocínio é remetido a países subdesenvolvidos, momento em que somos traídos. As estatísticas revelam que 78% dos abortos são praticados em países em desenvolvimento e os outros 22% em países já desenvolvidos.

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Hoje, são realizados 26 milhões de abortos legais e 20 milhões de abortamentos em países em que a sua prática é restringida ou proibida por lei, conforme estipulado no fórum Eco-Gaia – Por um Mundo Melhor (2007).

O professor Humberto Vieira, cita trechos de um documento confidencial dos Estados Unidos, onde foram realizados vários projetos por defensores da eugenia, que procuram através disto, melhorar a raça humana, assim como dispõe:

O documento do Conselho de Segurança Nacional, dos Estados Unidos, também conhecido como “Relatório Kissinger” e classificado com o código NSSM 200, só veio ao conhecimento público, quando desclassificado pela Casa Branca em 1989. Nesse documento, assinado pelo então Secretário de Estado Henry Kissinger, enviado, na ocasião, a todas as embaixadas dos Estado Unidos, como instrumento de trabalho para que agentes pudessem pressionar os governos a fim de aceitarem a política imperialista, ali descrita, com estratégias de ação e objetivos bem definidos, encontramos “a condição e a utilização das mulheres nas sociedades dos países subdesenvolvidos são particularmente importantes na redução do tamanho da família...as pesquisas mostram que a redução da fertilidade está relacionada com o trabalho fora do lar” (NSSM 200, pág. 151). “ter com prioridade educar e ensinar sistematicamente a próxima geração a desejar famílias menos numerosas” (Idem, p. 111).

Dessa maneira, fica claro que o pensamento da população nos dias atuais tem sido sobremaneira dessa forma, haja vista ter todos a ciência de que em determinados países não há saúde pública, saneamento, educação, ficando cada vez mais dificultoso a formação de uma família maior.

Imperioso apontar, os países que de forma legislativa e de acordo com a tradição jurídica de cada um, proíbem o aborto, sendo eles: Andorra, Angola, Chile, Congo, Egito, Haiti, Somália, Honduras, Micronésia, Nicarágua, Omã, Palau, República Centro-Africana, República Democrática do Congo, El Salvador, República Dominicana, Filipinas, San Marino, Gabão, São Tomé e Príncipe, Senegal, Guiné-Bissau, Iraque, Suriname, Síria, Laos, Lesoto, Tonga, Madagascar, Malta, Ilhas Marshall, Mauritânia e Maurício.

Em decorrência disso, é necessário alinhavar de forma resumida, os países que permite o abortamento sem qualquer restrição ou incriminação do fato, quais sejam, Albânia, Armênia, Estados Unidos, Áustria, Azerbaijão, Bielorrússia, Bósnia, Canadá, Cuba, Cabo Verde, Bahrain, China, Croácia,

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Bélgica, Bulgária, Camboja, Coréia do Norte, França, Estônia, Macedônia, Dinamarca, Alemanha, Hungria, Itália, Grécia, Geórgia, Guiana, Vietnã, Quirguistão, Lituânia, Mongólia, Latvia, Montenegro, Nepal, Países Baixos, Portugal, Porto rico, Noruega, Rússia, Sérvia, Tunísia, Turquia, Turcomenistão, Uzbequistão, Tadjiquistão, Ucrânia e Suécia.

Diante o exposto, ficam clarividente as controvérsias legislativas e culturais de cada país, demonstrando-se que há visões diferentes sobre o abortamento, e que por trás de todo esse emaranhado de discussões, cada um desses, utiliza as mulheres em benefício do próprio país sendo totalmente imperialistas, não sujeitando as gestantes o seu instinto ou suas opiniões acerca de seus nascituros, impossibilitando a sua livre escolha.

3.4.2 O Aborto no Brasil

Não diferente dos outros países, o aborto no Brasil tem sido um dilema por se tratar de saúde pública, a qual está cada dia mais desgastada. A gravidade do problema aumenta quando se constata a facilidade de praticá-lo, que vem aumentando a cada dia, seja através de medicamentos ou de meios mais ostensivos a abortar.

Esse fato não seria um problema, se o governo brasileiro empenhasse mais em divulgar e distribuir meios contraceptivos.

Com medidas desta natureza, as gestações indesejadas e até mesmo as que advém de crime, como por exemplo, o estupro, seriam sensivelmente reduzidas.

O aborto ainda é um risco para aproximadamente 1 milhão de mulheres por todo o país que passam por um dilema social, jurídico e humano. Estima-se que somente a pílula do dia seguinte pode ter diminuído em 30% (trinta por cento) o numero de abortos clandestinos em todo o país.

Diante disso, os médicos têm atendido inúmeras gestantes com a intenção de abortar, e consideram um dever como profissionais da área de

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ajudar essas mulheres a enfrentar da melhor maneira possível de decidir essa questão e suas conseqüências.

O obstetra Osmar Ribeiro Colas, da Unifesp (2009), afirmou: “não posso interromper uma gestação, mas tenho o dever ético de explicar a minha paciente quais são os métodos abortivos e, depois, se necessário, acudi-la”.

Para as mulheres que possuem um poder aquisitivo superior, o aborto se dá de forma mais fácil, pois paga-se um médico que realiza o abortamento em sua própria clínica. Porém, para as gestantes que não possuem dinheiro para realizar o mesmo feito, o aborto é realizado de forma clandestina, introduzindo-se uma sonda de plástico ou uma agulha de tricô perfurando a placenta, fazendo com que todo o líquido ali existente saia até que as bactérias da vagina invadam o colo do útero, condicionando-o a expelir o feto.

As palavras do ginecologista Malcolm Montgomery (2009) explicam:

Quando uma mulher está decidida a fazer um aborto, não há quem faça mudar de idéia. É uma decisão muito pessoal. E, ao longo da carreira, aprendi que não posso ser médico apenas nas horas boas. Se minha paciente não quer levar a gestação adiante, eu devo orientá-la sobre a maneira mais segura de fazer isso. Não posso deixá-la desamparada, sob o risco de sofrer as conseqüências de um aborto malfeito.

As estatísticas feitas por meio dos especialistas, conforme dados de Adriana Dias Lopes (2009), confirmam que são realizados por ano no Brasil, cerca de 1 milhão de abortos de maneira clandestina, ou seja, sem acompanhamento médico. Em decorrência da precariedade dos meios empregados, como a falta de higiene e segurança, essa é a quarta causa de morte materna no país, chegando a 200 mortes. Mas tal conduta vem sendo praticada há décadas e com grande número de abortamentos clandestinos já diagnosticados. Estima-se que na década de 80 foram executados aproximadamente 4 milhões de abortos no Brasil.

Com o passar do tempo, a ciência foi aprimorando os contraceptivos e a política foi disseminando o planejamento familiar. Desde o ano de 2002 o governo brasileiro tem distribuído preservativos, anticoncepcional e a chamada “pílula do dia seguinte” que, contém uma substância capaz de impedir que o

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óvulo fixe no útero da mulher, fazendo com que o próprio organismo expulse-o. Essa estimativa levantou estatística revelando que após a distribuição da pílula, o nível de abortamentos clandestinos caiu em trinta porcento.

No ano de 2008 o STF (Supremo Tribunal Federal), deu início a debates em plenário sobre a legalização da interrupção de fetos com anencefalia, propiciando ao Deputado e presidente da Câmara Arlindo Chinaglia, à aprovação de CPI do aborto, tendo com finalidade, a investigação de práticas abortivas ilegais no Brasil.

Destarte, a população de modo geral acredita que a prática de aborto é realizada apenas por pessoas sem nenhum grau de instrução familiar, aquisitiva ou social, mas é necessário dizer que muitas mulheres conhecidas socialmente e até do meio artístico já realizaram o abortamento, é o caso da modelo e empresária Luiza Brunet que cedeu entrevista a revista Veja (2009):

Eu tinha apenas 17 anos, era recém-casada e começava a despontar como modelo, quando engravidei. Sonhava em ser mãe. Sempre fui contra a liberação do aborto, mas não podia levar aquela gravidez adiante. Eu era responsável pelo sustento de toda minha família. Não sofri nenhum dano físico, mas carregarei para sempre as marcas psicológicas daquele aborto.

Isto posto, em decorrência da iniciativa do Poder Judiciário, nos últimos anos, foram deferidos cerca de 3.000 mil alvarás judiciários para a interrupção de gravidez por má formação fetal, principalmente por fetos anencéfalos.

O médico ginecologista Jorge Andalaft (2009), é o profissional da área que mais realizou abortos legais, ou seja, autorizados por meio de alvarás judiciais, chegando a proceder mais de 400 abortamentos no país. Abaixo, o ginecologista relata:

Eu já fiz cerca de 400 abortos legais. Nunca uma história é igual a outra. Uma das que mais me tocaram foi a de uma mulher de 42 anos, separada, grávida em decorrência de um estupro. Aquela seria provavelmente sua última chance de ter um filho. No dia da cirurgia, porém, com a sala já preparada, ela medisse, chorando, que estava em dúvida. Mandei-a para casa para pensar. Dez dias depois, ela voltou decidida e o aborto foi realizado.

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Ademais, mister se faz dizer que com todos esses testemunhos relatados, que o aborto no Brasil tem sido uma grande preocupação ao Judiciário e aos profissionais da área. Esse, sem dúvida, é um assunto que toca a qualquer pessoa, pois cada um possui uma opinião e a simples menção ao assunto, provoca reações emocionais e imobilizantes.

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4 E O FETO ANENCÉFALO?

4.1 CONCEITO DE ANENCEFALIA

Como já esboçado anteriormente, no Brasil há tipificado no Código Penal vários meios de abortamento, contudo o aborto terapêutico será alvo do estudo deste trabalho, posto que nesta categoria se enquadra o aborto de feto anencéfalo. Por isso, mesmo com a legislação penal vigente descrevendo e proibindo o aborto, deve ser lembrado que a antecipação terapêutica de parto de feto anencefálico não prejudica os bens constitucionais ora protegidos.

O mais lógico, é pensar que em 1940, ano de nascimento do Código Penal Brasileiro, o conhecimento da medicina dentro desse contexto do aborto era de certa forma deficiente, não dando margem aos legisladores para tipificar o aborto de anencéfalo, pois se tratava de uma matéria desconhecida.

Diante disso, é coerente defender que o caderno repressor deveria acompanhar a evolução da ciência e da tecnologia, a realidade humana e o clamor social, mas não dando ouvidos às opiniões religiosas, pois essas, não podem ser igualadas, comparadas com o direito, principalmente quando se trata de dor física e psicológica de gestantes que desde a gestação sabe que gera um corpo inanimado. E é nesse ponto que o direito deve atentar, para não cair em simples emoções sociais, passando a tutelar e textualizar dentro do Código Penal o aborto de feto anencéfalo.

A anencefalia é sem dúvida uma das mais graves má formações fetais congênitas, sendo impossível a vida extra-uterina. A definição médica mais plausível é dizer que a anencefalia é uma má formação congênita do sistema nervoso central, ou seja, momento em que o cérebro não há desenvolvimento e a caixa craniana inexiste, ficando o que se fez de massa cerebral exposta. Os hemisférios cerebrais e o cerebelo estão ausentes identificando-se apenas um resíduo no tronco encefálico. Essa anomalia acarreta a inexistência de todas as funções do sistema nervoso central, responsável pela cognição, comunicação, consciência, afetividade e emotividade. Dessa feita, para a maioria de

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especialistas, o prognóstico de sobrevida é de alguns segundos, podendo chegar a algumas horas ou poucos dias após o parto.

Não obstante, não tratando o caso com ironia, o pior ainda está por vir, pois o feto anômalo dentro do útero materno pode acarretar sérios problemas físicos, psicológicos e até a morte da gestante. Por isso, o laudo de junta médica é essencial para detectar a má formação cerebral, a fim de ser decisivo a autorização da antecipação terapêutica do parto, partindo da boa vontade da gestante a determinação legal do procedimento cirúrgico.

Neste caso, note-se a importância de laudo médico constatando a morte para efeitos legais, uma vez que num consenso de valores médico-jurídicos, dá-se a morte quando da constatação da falência encefálica, momento em que se verifica lesão ou deterioração substancial e irrecuperável do cérebro, tornando a pessoa inanimada, sendo possível a doação de seus órgãos.

De forma didática, é o que preconiza o artigo 3° da Lei 9.434/97 (VADE MECUM ÍMPETUS, 2013, p.1512):

A retirada pos mortem de tecidos, órgãos ou partes do corpo humano destinados a transplante ou tratamento deverá ser precedida de diagnóstico de morte encefálica, constatada e registrada por dois médicos não participantes das equipes de remoção e transplante, mediante a utilização de critérios clínicos e tecnológicos definidos por resolução do Conselho Federal de Medicina.

Neste diapasão, não se pode aceitar que o feto anencefálico possa obter condições de vida se as suas deformações constatadas por laudo de junta médica indicam que o nascituro trata-se de um ser que possui apenas resíduos de troco cerebral. Visto que este, apenas tem condições de manter algumas funções do organismo como batimentos cardíacos, à medida que encontra-se ligado a mãe ou amparado por aparelhos mecânicos.

Portanto, deve ser respeitada a vontade da gestante, uma vez que o feto anencefálico desde seu desenvolvimento intra-uterino, não possui aspectos de sobrevivência após seu nascimento, fazendo com que a gestante a cada dia passe por um sofrimento inesgotável por já ter a ciência do seu filho nascer sem vida ou viver por alguns instantes e falecer. E principalmente

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resguardar sua integridade física, psicológica e até mesmo cuidar para que não haja complicações na gestação e durante o parto, o que será discutido a seguir.

4.2 CONSEQUÊNCIAS

Em decorrência do tema acima abordado, há uma série de problemas que podem ser passados para a gestante em relação à existência de um feto anencefálico que está sendo gerado.

Sabe-se que o ser humano é dotado de três dimensões, sendo elas, física, psíquica e espiritual. Essas são inerentes ao ser humano que em relação ao aborto de um feto anencéfalo podem ser afetadas.

As mulheres que tentam levar a gestação de anencéfalo adiante poderão ser vítimas de vários riscos à sua saúde.

A anencefalia ocorre, quando falta no organismo da gestante o ácido fólico (vitamina do complexo B), e como o nascituro não faz a deglutição do líquido amniótico, este terá várias chances de não se desenvolver.

Assim, como o feto se encontra de forma desconfortável para a gestante, chegando a causar grande sofrimento a ela, poderá aumentar de forma significativa a sua pressão arterial trazendo várias complicações.

Estipula-se que cerca de 50% (cinquenta por cento) das gestantes com falta de líquido amniótico que leva a gravidez até o parto, pode resultar em hemorragia causando grandes complicações. Ocorre que este líquido e com o aumento natural do útero, a gestante perde as contrações necessárias para o parto.

Por isso, diante de tais situações de risco, os médicos tem indicado às mulheres o consumo de ácido fólico três meses antes da gravidez ou até na 14ª semana de gestação. Essa vitamina pode ser encontrada em vegetais de folhas verdes, mas geralmente o método é por suplementação de comprimidos a base da vitamina.

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Nesse diapasão, mulheres diabéticas possuem oito vezes mais chances de ter um bebê com alguma anomalia, principalmente com um feto anencefálico.

Toda essa situação traz para a mulher grande dor e sofrimento. Num primeiro momento por ser cientificado que os fetos anencéfalos poderão já nascer mortos ou ter seus órgãos, salvo o cérebro, em total funcionalidade por horas ou até dias vindo ao óbito logo em seguida.

Os números são alarmantes quando se trata de feto anencefálico, onde 1 em cada 1.600 crianças possuem anencefalia, e de todos os nascituros, apenas 8% sobrevivem mais de uma semana. Insta dizer que entre 40% e 60% dos nascituros nascem vivos e que do total de anencéfalos, apenas 1% sobrevive no máximo até o 3º mês de vida.

No Brasil há vários casos de crianças com má formação cerebral, como o de Vitória Croxato de 2 anos, que foi levada pelos pais, Marcelo Croxato e Joana Croxato, ao Supremo Tribunal Federal, com suspeita de anencefalia. Eles afirmaram que o diagnóstico de Vitória foi dado pelo médico responsável durante a gravidez e a mesma nasceu com resquício de cérebro e couro cabeludo. Segundo a mãe dela, Joana Croxato (G1, 2012), “ela é uma criança com deficiência neurológica e precisa de estimulação, porém ela não é um vegetal, não é uma coisa. Ela é um ser humano com sentimentos”.

Em resposta a essa situação ora demonstrada acima, o ginecologista Cristião Rosas, membro da Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia, aduziu o seguinte (G1, 2012):

A anencefalia é uma patologia totalmente incompatível com a vida extra-uterina, não tem nem a calota craniana nem o cérebro. O caso dela é outro caso, na anencefalia o diagnóstico é totalmente fechado. [...] A anencefalia não tem membrana por cima, não tem calota, não tem couro cabeludo, não tem crânio, não tem encéfalo, tem apenas tronco cerebral que mantém apenas os impulsos para batimento cardíaco e movimentos respiratórios. Não há cognição.

Laboissière (2012) traz o relato de Cátia Corrêa de 42 anos, a qual afirma que interrompeu sua gravidez quando teve ciência de que o filho que esperava era anencéfalo. Ela tomou essa decisão sem medo e defende com

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firmeza a iniciativa feita há 20 anos, sendo a primeira mulher do Estado de São Paulo a conseguir uma autorização judicial para o feito, que relatou o seguinte:

É uma sensação muito ruim a de querer o seu filho e saber que ele vai nascer morto. Entrar na Justiça foi minha melhor decisão. (...) Morri mais um pouco naquele dia. Saí de lá e não via nada, só chorava. Não tinha o que fazer, tinha que esperar nascer. Passados alguns dias, entrei em trabalho de parto. (...) Faria tudo de novo. Ainda sou contra o aborto quando a mãe não quer o bebê. Acho um absurdo porque muitas mulheres querem e não podem. Mas digo, sim, para o aborto de anencéfalo, pelas minhas próprias dores.

No entanto, percebe-se o quanto é difícil para uma mulher gestante, passar por toda essa grave situação, principalmente por saber que não verá seu filho mais. Há casos em que a gestante fica em estado depressivo e sob efeito de medicamentos, buscando ajuda espiritual para tentar amenizar a dor de não ter um filho, perdido pelas diversas situações humanas explicáveis, porém não entendidas.

Entretanto, diante da legislação penal vigente, não se pode imaginar e continuar causando dor à gestante, impondo danos à sua integridade física, moral e psicológica, mesmo sabendo que o feto em expectativa será de fato inviável, ou seja, será um ser natimorto.

Devido a tantas consequências que a gestante poderá sofrer se levar adiante uma gestação de feto com anencefalia, é importante destacar o direito a uma vida digna, amparado constitucionalmente, que a mesma faz jus, conforme exposto adiante.

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5 O DIREITO A UMA VIDA DIGNA

5.1 O DIREITO À VIDA

A vida humana, antes de tudo, está resguardada como um bem jurídico protegido pelo Estado, juntamente com outros direitos e garantias fundamentais como a liberdade, a igualdade, a propriedade e a segurança, assim elencados pelo artigo 5° caput da Constituição Federal vigente.

Cumpra-se destacar assim, que a convenção dos direitos da criança também protege o direito à vida mesmo antes do nascimento, e define que a criança, como não possui maturidade mental e física o suficiente, necessita de cuidados especiais a serem tutelados.

Como já esboçado anteriormente, a vida humana tem seu início na fecundação, mas obtém a sua proteção jurídica a partir da nidação. A nidação é o momento em que o óvulo fecundado é fixado na parede uterina dando assim início a gestação de um feto.

Na égide da lei civil brasileira, para se tornar uma pessoa o ser humano deve nascer com vida, o que para a seara jurídica penal, a vida humana deve ser tutelada desde o período intra-uterino.

Por isso, mostra-se a importância e a indispensabilidade do direito ora discutido para a aquisição dos demais direitos ora tutelados. Tanto o direito de permanecer vivo, quanto o direito a uma vida digna são características inerentes ao direito à vida como um todo, sendo ambos são inseridos no dever do Estado

Diante dessa ideia de vida, a questão demanda atenção quanto ao momento de término desse direito, tratando os critérios de avaliação de óbito conforme legislação vigente. Essas metodologias vêm se aperfeiçoando de acordo com a evolução da ciência e da medicina na forma do conceito básico de morte que se dá com a cessação das funções cardiorrespiratórias.

Porém, com todas as mudanças, até mesmo legislativas, o entendimento que se preceitua é dizer que a morte é constatada com a

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supressão das funções cerebrais, ou seja, com a extinção de toda a atividade cerebral.

Muitos tentam decifrar a vida em vários contextos. A filosofia, a literatura, a religião, a antropologia e a medicina são áreas do estudo humano que buscam um significado para a vida e a morte como condição humana. Desta feita, vários são os questionamentos, mostrando-se válida a opinião de Castro (2008, p.118, apud Fabriz, 2003, p.271/272):

O direito à vida, ou outro direito, compreendido como superior – fundamental e humano – exige a tutela do Estado. Os direitos fundamentais obrigam os direitos públicos. Mas como ficam as questões que envolvem situações limites, como, por exemplo, a necessidade de se prolongar a vida de um canceroso em fase terminal; reanimar um idoso que não mais deseja a vida, tratar de um recém nascido detentor de anomalias incuráveis? Podemos esterilizar ou fazer experiências com débeis mentais? Que dizer de um banco de espermas, cujos doadores são ganhadores de Premio Nobel? Temos o direito de criar a vida por outros meios, que não o natural? Até que ponto podemos manipular os genes para determinar a personalidade ou identidade dos indivíduos? Com os avanços biotecnológicos, o direito à vida tem sido objeto de várias indagações interdisciplinares, procurando destacar as relações das várias possibilidades de sua manipulação e as questões de ordem moral, social e jurídica (FABRIZ, 2003, p. 271-272).

Entretanto, vale mencionar que os valores sociais também influenciam em todos os ramos do direito, assim como dispõe o tema proposto sobre abordo de feto anencefálico, ficando demonstrado os valores sociais em relação ao aborto, sendo eles religiosos e costumeiros. Não se descarta também a opinião formada no contexto social no que tange ao direito à vida que tem sido contra a descriminalização do aborto de anencéfalo. Conforme pré dispõe Castro (2008, p.118, apud Sarmento, 2007, p.04/05):

Ademais, a cristalização de novos valores sociais sobre o papel da mulher no mundo contemporâneo, o reconhecimento da igualdade de gênero e a mudança de paradigma em relação a sexualidade feminina, com a superação da ótica que circunscrevia a legitimidade do seu exercício às finalidades reprodutivas, são componentes essenciais de um novo cenário axiológico, absolutamente diverso daquele em que foi editada a legislação repressiva de cuja revisão

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ora se cogita. Hoje, não há mais como pensar no tema da interrupção voluntária da gravidez sem levar na devida conta o direito à autonomia reprodutiva da mulher, questão completamente alheia às preocupações da sociedade machista e patriarcal do inicio da década de 40 do século passado. Parece assente que, embora esta autonomia não seja absoluta, ela não pode ser negligenciada na busca da solução mais justa e adequada para problemática do aborto, seja sob o prisma moral, seja sob a perspectiva estritamente jurídica (SARMENTO, 2007, p. 04-05).

Com isso, o que se pretende demonstrar, é que o direito à vida do feto anencefálico é tão valioso quanto à dignidade da pessoa humana da gestante e da autonomia de sua vontade de dispor do feto.

Esse direito de viver que todos possuem é o mais precioso dentre os outros. O feto anencéfalo que já se encontra morto dentro do ventre materno da gestante não pode ser taxado como o nascituro que nasce com vida potencial, pois esse feto é naturalmente um natimorto por não haver atividade cerebral, como assim se aplica a resolução nº1.480/97 do Conselho Federal de Medicina.

5.2 O PRINCÍPIO DA DIGNIDADE DA PESSOA HUMANA

A dignidade humana advém de um dos direitos indisponíveis constitucionais, uma vez que o legislador tratou de dispor no texto da carta magna em seu artigo 1º, inc. III, como o fundamento da república significando que o princípio é conformador do nosso ordenamento jurídico, demonstrando que somos o argumento de ser do Estado.

Salienta pensar que o princípio da dignidade humana na prática, mesmo podendo ser violado, deve ser respeitado, reconhecido e protegido, não podendo ser disposto e nem ser retirado.

O progresso por uma vida social e mais humana deve ser sempre tutelado pelo Estado, respeitando sempre o nosso ordenamento jurídico que tem tentado mesmo que de forma simples, resguardar todos os direitos que a Constituição Federal protege.

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É de grande valia dizer que a Constituição Federal e o Código Penal trabalham atrelados à proteção do maior bem que se sabe resguardado que é o direito à vida. Porém, convém ressaltar que nenhum direito é totalmente absoluto, inclusive o direito à vida.

Há situações em que a vida humana tem sido um mero direito por não estar totalmente protegido pelo caderno repressor brasileiro. Note-se que são vários os homicídios de mulheres vítimas de seus companheiros, ou como no tema em epígrafe, quantos são os abortos ilegais cometidos em clínicas clandestinas que nem sequer a vida da gestante está resguardada, por se pensar apenas na morte do feto que se encontra na mais perfeita condição física. Com isso, fica demonstrado que o direito à vida é ainda passível de grande discussão judicial.

Segundo explica Bester (2005, p. 68 apud Fachinelli 2006, p. 155):

Hans kelsen, cuja teoria, desenvolvida na década de 1920, prevê que cada comando normativo encontra respaldo naquele que lhe é superior e lhe deve obediência, sobre pena de incorrer em inconstitucionalidade da espécie normativa infraconstitucional, tendo como consequência sua retirada do ordenamento jurídico.

Por isso, para o melhor entendimento do caso acima relatado, devemos partir do princípio de que a dignidade da pessoa humana é fundamental de um Estado Democrático em que vivemos, ou seja, todas as manifestações e resultados do Judiciário devem estar fincados neste princípio, uma vez que este é considerado um megaprincípio e que se sobrepõe a tudo.

Rumo ao norte, a Declaração dos Direitos Humanos que se encontra amparada pela resolução 217 A (III) da Assembléia Geral das Nações Unidas em 10 de dezembro de 1948, preceitua em seu artigo 1° que, “todas as pessoas nascem livres e iguais em dignidade de direitos. São dotadas de razão e consciência e devem agir em relação umas às outras com espírito de fraternidade”.

E é exatamente nesse contexto que deve-se analisar cada caso de abortamento realizado nesse país. A Declaração dos Direitos Humanos diz que é necessário se pensar na dor de uma gestante ao tomar ciência de que seu

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feto está sendo gerado com uma anomalia. Necessário se faz analisar o quanto isto pode trazer à gestante grandes complicações físicas, morais e psicológicas, sendo que se, caso leve esta gestação até o parto, verá que seu filho não terá nenhuma condição de vida.

Ademais, é o que esse trabalho acadêmico vem respeitosamente defender, colocando a satisfação da gestante de feto anencéfalo sempre em primeiro lugar, respeitando sua opinião acerca da interrupção de sua gravidez. Como já dito anteriormente, os médicos pesquisadores do caso afirmam categoricamente que todos os fetos portadores dessa anomalia não possuem vida em virtude da falta de massa encefálica.

Nesse mesmo sentido, Fachinelli (2006, p. 155) aduz o seguinte:

Por fim, a medicina se declara favorável à interrupção da gestação quando se tratar de fetos anencefálicos, ao fundamento de que levar uma gravidez desse gênero até o fim, com certeza, trará como corolário vários danos à saúde física, moral e psicológica dos genitores. Daí, a terminologia apropriada: conduta terapêutica de antecipação de parto.

No ensinamento de Resende (2012, p.02 apud Cândido 2007,):

Por ser valor da pessoa humana o motivo da existência é que se deduz que as normas existam em benefício da pessoa, ou seja, a serviço de sua dignidade. É o princípio fundamental da dignidade da pessoa humana a tradução jurídica da valor da pessoa humana.

Diante o exposto, é por estes fatores que o princípio da dignidade humana deve sempre se prevalecer, dando a garantia à gestante de optar pelo abortamento ou não, buscando sempre a melhor importância da mulher de dispor de seu corpo para a realização dos meios.

Portanto, o legislador não pode se descuidar em defender a dignidade da pessoa humana, esquecendo prioritariamente dos valores de uma sociedade, onde se deve sempre zelar neste caso, pela ciência e boa vontade da gestante.

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5.3 O DIREITO DA MULHER SOBRE SEU CORPO

No mundo em que vivemos, principalmente em decorrência de tantas mudanças globais, é inaceitável permitir que os homens, a religião e a sociedade, em sua forma machista, retire a vontade da mulher em dispor de seu próprio corpo.

E nesse contexto, várias são as mulheres ao redor do mundo que, não assim fazendo, são mutiladas, aniquiladas de sua natureza maternal. É o que podemos conferir principalmente nos países do continente Africano e no Oriente Médio.

As leis em conjunto reprimem o aborto, mas não contestam de nenhuma forma os direitos da mulher, pois defendem sempre o direito à vida do nascituro. Logo pensamos que no aborto de anencéfalo a vítima é a própria gestante que se encontra enclausurada em normas rígidas. A mulher ao expor a vontade de dispor de seu próprio corpo, passa a ser afrontada pelos familiares e pela sociedade, que muitas das vezes a julgam como a causadora da anencefalia. Porém, o que ela apenas exige é o respeito de todos, em conseguinte também, a igualdade de direitos em relação à vida.

Outrossim, o direito da mulher sobre o seu corpo ainda está longe de ser conquistado como direito fundamental da pessoa humana, uma vez que tem se banalizado o tema discutido, tratando-se apenas de limitação à sexualidade, e tudo isso para a satisfação da coletividade.

O que se tem afirmado é dizer que mulheres maiores e capazes devem ser livres para dispor de seu corpo desde que suas condutas não prejudiquem um terceiro.

Com isso, a mulher deve ser capaz de escolher, de acordo com sua vontade, se deseja ter seu filho anencéfalo que nascerá sem vida, ou pela interrupção da gestação mediante o aborto.

A gestante, nesse caso, é vítima de graves problemas físicos e psicológicos que podem chegar até a morte. No caso de aceitação do abortamento, não se pode dizer que a gestante está sendo individualista, mas não deixa de ser fato que sua gravidez é um estágio emocionalmente abalado

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por ter a ciência de que o feto gerado já se encontra sem vida desde a vida intrauterina.

De acordo com Patrícia Rodrigues, o Conselho Federal de Medicina relata o seguinte:

É importante frisar que não se decidiu serem os Conselhos de Medicina favoráveis ao aborto, mas, sim à autonomia da mulher e do médico. Neste sentido as entidades concordam com a proposta em análise no âmbito do Congresso Nacional.

O Conselho Federal de Medicina, refere-se a reforma do artigo 128 do Código Penal que foi discutida pelo Supremo Tribunal Federal com a ADPF 54, uma vez que no inciso IV do referido artigo, elenca o seguinte, “por vontade da gestante até a 12ª semana de gestação, quando o médico ou psicólogo constatar que a mulher não apresenta condições de arcar com a maternidade”.

O que acontece é um receio por parte de quem é contra o abortamento, afirmando que se a mulher poder dispor de seu próprio corpo para a sua realização, será um método desenfreado que poderá causar vastos problemas, tendo um deles, a não utilização dos meios contraceptivos. Em continuação, até onde se sabe, os meios contraceptivos são realizados por questões religiosas, não sendo objeto desse tema, mas se ainda sim o aborto for unânime, deve ser empregado com todos os cuidados, garantias e segurança às mulheres.

Ademais, é necessário dizer que a afirmativa dos “contra o aborto” é falsa, e que podemos perceber de maneira geral que se o aborto fosse legalizado no Brasil, os índices seriam os mesmos, pois os meios abortivos empregados em mulheres são realizados em clínicas clandestinas, portanto, apenas passaria a ser legal e todos esses meios se dariam de acordo com os padrões da Lei.

Diante o exposto, condenar o aborto de anencéfalo é o mesmo que apenar as mulheres que recorrem a sua prática a morte. E criminalizá-lo é não reduzir a prática, tendo como preço a pagar da ilegalidade a vida das mulheres que são vítimas dessa vontade coletiva e não de si própria.

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6 ADPF 54

Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental foi criada pelo direito brasileiro a fim de evitar ou reparar lesão a preceito fundamental de ato do Poder Público. Ela foi criada pela Constituição Federal de 1988 sendo mais tarde regulamentada pela Lei nº 9.882/99, tendo como intuito maior suprir as lacunas deixadas pelas Ações Diretas de Inconstitucionalidade (ADIn), considerando que a competência para julga-la é exclusiva do Supremo Tribunal Federal.

Quanto aos efeitos de uma decisão da ADPF, assim encontra-se exposto no Wikipedia (2013):

A decisão da ADPF produz efeito erga omnes (contra todos) e vinculantes em relação aos demais órgãos do poder público. Os efeitos no tempo serão ex tunc (retroativos), mas o STF poderá, em razão da segurança jurídica ou de excepcional interesse social, restringir os efeitos da decisão, decidir que essa somente produzirá efeitos a partir do trânsito em julgado ou de outro momento futuro que venha a ser fixado. Decisões nessa linha excepcional exigem voto de dois terços dos membros do STF.

Sob a ótica jurídica da questão, foi votada pelo Supremo Tribunal Federal, em 12 de abril de 2012, a Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental 54 – ADPF 54 – em que a interrupção da gravidez de feto anencefálico foi o tema discutido.

O intuito da ADPF 54 era julgar a declaração de inconstitucionalidade da interpretação dos artigos 124, 126, 128, incisos I e II, todos do Código Penal, em que a conduta de interrupção de gravidez de feto anencefálico era tipificada.

A ADPF 54, ora discutida, foi proposta pela Confederação Nacional dos Trabalhadores na Saúde, cuja atuação teve como representante Luis Roberto Barroso, que expediu as alegações seguintes, conforme trouxe Schulze (2012):

a) a hipótese em julgamento não configura aborto, que pressupõe potencialidade de vida do feto. A interrupção da gravidez de feto anencéfalo não configura hipótese prevista no artigo 124 do Código Penal;

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b) o sistema jurídico pátrio não define o início da vida, mas fixa o fim da vida (com a morte encefálica, nos termos da Lei de Transplante de Órgãos). Na hipótese em julgamento não haveria vida e, portanto, não haveria aborto;

c) as normas do Código Penal que criminalizam o aborto são excepcionadas pela aplicação do princípio da dignidade da pessoa humana (artigo 1º da Constituição).

O pedido formulado na ADPF 54 foi julgado procedente pelo STF por maioria dos votos (8x2), conforme se verificam os fundamentos dos excelentíssimos ministros.

Outrossim, o Ministro Marco Aurélio de Melo, relator da ADPF 54, revelou que tal questão é uma das mais importantes já analisadas pelo tribunal. Em seu voto, demonstrou a característica de o Brasil ser um Estado laico com muita propriedade ao argumentar com passagens religiosas em diversos documentos constitucionais desde os primórdios do império.

Segundo o relator Melo (2012, p.42):

Se, de um lado, a Constituição, ao consagrar a laicidade, impede que

o Estado intervenha em assuntos religiosos, seja como árbitro, seja como censor, seja como defensor, de outro, a garantia do Estado laico obsta que dogmas da fé determinem o conteúdo de atos estatais. Vale dizer: concepções morais religiosas, quer unânimes, quer majoritárias, quer minoritárias, não podem guiar as decisões estatais, devendo ficar circunscritas à esfera privada. A crença religiosa e espiritual – ou a ausência dela, o ateísmo – serve precipuamente para ditar a conduta e a vida privada do indivíduo que a possui ou não a possui.

O referido ministro prossegue ainda em seu voto afirmando, que o feto anencéfalo não possui vida em potencial, mas de morte segura.O anencéfalo jamais se tornará uma pessoa, pois foram consignados pelo CNM (Conselho Nacional de Medicina), seres natimortos cerebrais conforme resolução nº 1.752/2004.

Abordou também a doação de órgãos de anencéfalos, o direito à vida, o caráter não absoluto do direito à vida, concluindo que o feto anencéfalo é incompatível com a vida e por isso não se deve defender o feto e deixar sem proteção a saúde da mulher, julgando procedente o pedido formulado na inicial.

Nesse mesmo contexto, também julgou procedente a ministra Rosa Weber, conforme citou Schulze (2012), alegando que “deve-se proteger a

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liberdade individual e de opção da gestante, pois não há interesse jurídico na defesa de um feto natimorto”.

Ato contínuo, o Excelentíssimo Ministro Joaquim Barbosa em seu breve relato manifestou-se a favor da ADPF 54, assim dizendo (2012, p.151):

Ora, se o feto ainda se encontra no ventre da mãe, é evidente que sua situação jurídica, penal inclusive, é diversa da situação da gestante. [...] Daí por que a de se separar a situação em que o feto se encontra em desenvolvimento das situações em que ele está biologicamente morto e, ainda, da situação em que ele está biologicamente vivo, mas juridicamente morto.

Nessa esteira, o ministro Luiz Fux que também julgou procedente, declara que o tema discutido trata-se de uma questão de saúde pública e que na época do nascimento do Código Penal, década de 1940 era impossível identificar o feto anencéfalo.

O ministro Fux (2012, p.163) aduz que:

(...) Levar a gestação até os seus últimos termos causa na mulher um sofrimento incalculável do qual resulta chagas eternas que podem ser minimizadas caso interrompida a gravidez de plano, se esse for o desejo da gestante.

Na mesma linha de raciocínio do ministro Luiz Fux, o também ministro Gilmar Mendes julgou procedente a ADPF em tela, alegando que o legislador do Código Penal por falta de elementos identificadores da anencefalia não era capaz de proteger a saúde da gestante no caso da interrupção da gestação. Segundo ele (2012, p. 294/295):

Essas constatações permitem concluir, conforme afirmei acima, que o

aborto de fetos anencéfalos está certamente compreendido entre as duas causas excludentes de ilicitude, já previstas no Código Penal, todavia, era inimaginável para o legislador de 1940. Com o avanço das técnicas de diagnóstico, tornou-se comum e relativamente simples descobrir a anencefalia fetal, de modo que a não inclusão na legislação penal dessa hipótese excludente de ilicitude pode ser considerada uma omissão legislativa não condizente com o espírito do próprio Código Penal e também não compatível com a Constituição. A interpretação que se pretende atribuir ao Código Penal, no ponto, é consentânea com a proteção à integridade física e

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psíquica da mulher, bem como com a tutela de seu direito à privacidade e à intimidade, aliados à autonomia da vontade.

Julgando procedente a ADPF 54, a ministra Carmem Lúcia, enfatizou em seu voto os direitos fundamentais da gestante dizendo que o quadro de angústia e dor constitui injusta opressão ferindo o princípio da dignidade humana, ao obrigar a gestante de feto anencefálico de prosseguir com uma gravidez fadada à morte do nascituro.

Cabe ressaltar que o ministro Ayres Britto, ao afirmar que todo aborto interrompe uma gestação, mas nem toda interrupção é um aborto, julgou procedente a ADPF 54 sob a alegação de que não se pode impor à mulher o fardo de gestar um feto anencéfalo.

Segundo Britto (2012, p.264/265):

É o reconhecimento desse direito que tem a mulher de se rebelar contra uma gravidez, um tipo de gravidez tão anômala que corresponde a um desvario da própria natureza – porque a natureza também se destrambelha, já dizia Tobias Barreto. É um direito que tem a mulher de interromper uma gravidez que trai até mesmo a ideia-força que exprime a locução "dar à luz". "Dar à luz" é dar a vida; não é dar a morte. É como se fosse uma gravidez, metaforicamente, que impedisse o rio de ser corrente; o rio salta da nascente para a embocadura. E é o que sucede, sem fluir, sem a ventura de se assumir também como corrente porque o rio é um rio só, da nascente à foz, passando pela corrente. E, no caso da gravidez de que estamos a falar, a fase corrente do rio é totalmente eliminada. A mulher já sabe por antecipação que o produto da sua gravidez, longe de, pelo parto, cair nos braços aconchegantes da vida, vai se precipitar - digamos assim - no mais terrível dos colapsos. É o colapso da luz da vida. O feto anencéfalo não passa de um organismo prometido à inscrição do seu nome não no registro civil, mas numa lápide mortuária.

Neste diapasão, o ministro Celso de Mello também julgou procedente a ADPF 54, defendendo que se o feto que não tem cérebro não está vivo, a sua morte, então, não caracterizaria a prática abortiva prevista no Código Penal.

Contrário aos votos favoráveis supra mencionados, os ministros Cézar Peluso e Ricardo Lewandowski, votaram pela improcedência da ADPF 54.

Para Peluso segundo Schulze (2012), “ o feto anencéfalo é um ser vivo e por conseguinte a interrupção da gestação caracteriza o aborto”.

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Ainda segundo Schulze (2012), “o ministro Ricardo Lewandowski votou pela improcedência do pedido, entendendo que o STF não possui legitimidade para deliberar sobre o caso, apenas o Congresso Nacional por meio de Lei.

Portanto, é necessário dizer que a maioria dos votos proferidos no julgamento da ADPF 54, foi favorável à descriminalização do aborto de feto anencefálico, uma vez que a proteção da gestante, foi objeto de fundamento dos votos, autorizando e facultando a prática da interrupção de gestação, em favor de minorar seu sofrimento.

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CONSIDERAÇÕES FINAIS

Com o advento da ADPF 54 e sua procedência, vale dizer que o aborto de anencéfalo será bem recepcionado pelas mulheres, que por acaso passem pelo processo da gestação de anencéfalo, bem como pelo Estado que agora soube o quanto gerar um natimorto é prejudicial à gestante e ao desenvolvimento familiar.

Porém, ainda é sabido que tal julgamento se mostrará bastante deficiente sob a ótica da legislação penal, pois trata-se de um assunto que envolve questões moralmente ainda discutidas, interferindo assim na vida e na dignidade da pessoa humana .

Na questão do direito da mulher sobre seu corpo, o ordenamento jurídico o levou em conta, por seguir os conselhos de médicos e pesquisadores no assunto, demonstrando os riscos que a gestante poderá sofrer principalmente após o parto, ao ver atingida sua moral e sua dignidade, sem falar das dores físicas e psíquicas.

Entretanto, mesmo diante da descriminalização, haverá ainda severas discussões principalmente religiosas quanto ao assunto, mas o que se deve perceber é que a religião nada tem a ver com o direito que se sobrepõe a todo e qualquer costume religioso. Alguns líderes religiosos tentam de forma coercitiva, fazer com que os Poderes Legislativo e Judiciário obedeçam às suas opiniões e passem-na adiante, tentando inserir estes Poderes num arcabouço religioso e sem fundamento.

Não se pode fazer com que uma mulher gestante seja obrigada a permanecer em estado de sofrimento contínuo que foi gerando dentro desta problemática da gestação de anencéfalo que poderá trazer uma inquietude de alma gerar perguntas que ainda não poderão ser respondidas.

Para a medicina as respostas são várias, quando se trata de feto anencefálico. Embora haja um repúdio social, os profissionais da área defendem tanto este tipo de abortamento que nesses casos, é orientado a gestante fazer o auto aborto no método mais seguro, como se observou logo acima.

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Diante disso, perante as estatísticas apresentadas sobre os abortos ilegais em todo o mundo, fica demonstrado o alto índice de clínicas clandestinas que praticam o aborto sem se preocupar com a vida da gestante. Essa dignidade nos momentos de discussão, ninguém aferi, pois não há aquele que pode se passar pela mulher, sentir na pele o que é dispor de um filho fruto de um amor e de um querer.

Por isso, a descriminalização do aborto foi brilhantemente julgada procedente pelo Supremo Tribunal Federal caracterizando um grande avanço neste elo entre Direito e relações humanas, mostrando que estão preocupados com a evolução das necessidades das mulheres, entre elas, sua dignidade.

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