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A INDÚSTRIA DAS FAKE NEWS: UM RETRATO DE UMA CRISE EDUCACIONAL MAIS COMPLEXA QUE AS ELEIÇÕES


Autoria:

Rovil Reis Peixoto Do Nascimento


Advogado. Bacharel em Direito pela Universidade Estácio de Sá/RJ. Pós-graduação em Direito do Trabalho, Processo do Trabalho e Direito Previdenciário pela Universidade Estácio de Sá/RJ.

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Resumo:

O artigo faz breves considerações sobre a multiplicidade das notícias falsas em período eleitoral em paralelo com a vulnerabilidade intelectual da população brasileira em razão de um sistema educacional primitivo.

Texto enviado ao JurisWay em 29/10/2018.

Última edição/atualização em 07/11/2018.



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A INDÚSTRIA DAS FAKE NEWS: UM RETRATO DE UMA CRISE EDUCACIONAL MAIS COMPLEXA QUE AS ELEIÇÕES

 

Por Rovil Reis Peixoto do Nascimento.

 

A cada biênio eleitoral, a problemática acerca das fake news é enfaticamente fomentada no contexto do debate público, sendo utilizada como força motriz do proselitismo político e partidário.

O presente artigo considera o panorama nacional como um cenário de crise em razão do desenvolvimento da indústria das fake news. Aqui, nos debruçamos sobre a base da inteligência do professor Antonio Jeová Santos para conceituar indústria (apenas neste vernáculo) como sendo “algo que se multiplica sem razão de ser” e crise sendo “um tumultuar de contrastes, de esperanças e desilusões, um misto de simplicidade e de complicação, de erros tremendos e de boa vontade de acertar” (SANTOS, 2001, p. 64).

Analisaremos esta mixórdia, de maneira breve, sem o compromisso de esgotar o tema, com base em dois aspectos: a) difusão e acessibilidade aos smartphones, tablets e notebooks e b) precariedade educacional no Brasil.

A partir de um simples esforço de observação é possível notar diversas pessoas ao nosso redor de diferentes faixas etárias e níveis sociais utilizando celulares para se comunicarem livremente.

 A inclusão digital é uma feliz realidade no Brasil globalizado de hoje. Corrobora com esta afirmação a 29ª Pesquisa Anual de Administração e Uso de Tecnologia da Informação nas Empresas, realizada pela Fundação Getulio Vargas de São Paulo, onde foi constatado que até maio de 2018 o Brasil possuía 220 milhões de celulares ativos para uma população de 210 milhões de pessoas. Se somarmos a este número, os tablets e notebooks, são 306 milhões de dispositivos portáteis ativos no Brasil. Segundo dados da International Data Corporation, uma proeminente empresa mundial referência em consultoria no mercado de tecnologia da informação, em 2017 foram vendidos 47,7 milhões de smartphones no país, o que representa alta de 9,7% das vendas em relação a 2016. Cabe refletir de maneira crítica um aumento de mercado de quase 10% em um país em retração econômica, onde o desemprego aumenta e a renda decai a cada ano. O brasileiro está empobrecendo, se endividando, deixando de fazer compras nos mercados, mas não se desapega da prática de consumo de celulares cada vez mais modernos.

A constante evolução tecnológica transformou a dinâmica da vida em todo o planeta. Como reflexo deste fenômeno as ações de campanha também se instalaram e passaram a se propagar massivamente nos smartphones, demonstrando que os agentes políticos e partidários entenderam e acompanharam a importância das novas tecnologias. De uma maneira geral, o jeito convencional de fazer política se modificou. Dois exemplos marcantes desta afirmação foram as manifestações populares de 2013 e a recente greve nacional dos caminhoneiros, dois movimentos que tiveram sua fotossíntese alimentada pela radiação das luzes e ideias das telas dos celulares.

Enquanto a aquisição de celulares e acesso à internet é uma realidade para uma boa parte da população brasileira, a latente falta de escolaridade se apresenta como contraponto negativo.

Para embasar este ponto de vista, analisamos o desempenho brasileiro no índice de alfabetismo funcional – INAF, no Programa Internacional de Avaliação de Alunos – PISA, realizado pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico e também do componente de educação no último índice de desenvolvimento humano – IDH, realizado pelo Plano das Nações Unidas de Desenvolvimento Humano com os resultados do ano de 2015.

No âmbito nacional, o INAF revela fatos preocupantes. 29% da população são analfabetos funcionais, ou seja, quase 3 a cada 10 (considerando a margem técnica de erro de 2 pontos percentuais que pode variar o percentual de 27 a 31) são indivíduos com nenhum ou com rudimentar nível educacional para compreender e processar informações variadas.

O INAF possui 5 níveis de alfabetismo, quais sejam: 1) analfabeto, 2) rudimentar, 3) elementar, 4) intermediário e 5) proficiente. Cabe ressaltar neste ponto que alfabetismo não resume a uma visão binária entre saber ler e escrever ou até mesmo antagônica  entre alfabetizados x analfabetos e sim compreende um processo gradativo de aquisição de conhecimento e processamento de informações para se utilizar de maneira positiva na vida. Se levarmos em consideração que no nível elementar, um dos 5 níveis utilizados pelo INAF, os avaliados também possuem grandes dificuldades de resolver problemas, discernir informações e compreender o sentido, temos mais 34 %, somados aos 29% anteriores, temos uma taxa de vulnerabilidade às informações de 63% de pessoas, ou seja, 6 em um grupo de 10 indivíduos que podem ter dificuldades de compreender a complexidade de informações que lhes são apresentadas diariamente e a todo momento, incluindo-se nestas, as ações midiáticas de campanha.  

Cabe ressaltar que esta vulnerabilidade atinge todos os níveis de escolaridade tendo em vista que segundo este mesmo estudo, 13% das pessoas que concluíram ou cursam ensino médio e 4% das pessoas que possuem ou cursam o ensino superior também são analfabetos funcionais.

No componente de leitura no ranking do PISA, de 70 países avaliados no último estudo, o Brasil ocupou a posição de número 59. A nota média dos países da OCDE foi de 493 enquanto a nota brasileira foi 407.

O IDH feito pela ONU é um indicador social que avalia o nível de desenvolvimento humano de um determinado país. No resultado geral, o Brasil ocupa a posição nº 79 do estudo do ano de 2016, o último realizado até então. Um dos pilares do resultado final do índice é a avaliação da educação que possui a taxa de escolaridade como um de seus componentes internos. Levando em conta somente este componente, o Brasil ocupa a posição nº 113 do ranking de um total de 188 países avaliados.

A tradução do desempenho educacional do Brasil revela um triste cenário de vulnerabilidade da maior parte da população brasileira. Por vezes, um áudio circula no whatsapp com uma senhora desconhecida falando “mande audo(sic) que eu não sei ler nem escrever”. O áudio costumeiramente vem acompanhado de uma foto do lutador José Aldo, fazendo alusão a pronuncia incorreta da palavra áudio utilizada pela senhora. Apesar do viés cômico, este áudio é o espelho de um triste e preocupante cenário social que é o da vulnerabilidade de pessoas à informação em geral. Pessoas que usam todos os dias os seus telefones e recebem enxurradas de mensagens, vídeos, fotos com conteúdo manipulado sobre candidatos, partidos, condições sociais do país, diversos conteúdos que são insuficientes para lhes fazerem entender a razão e a complexidade dos problemas a que estamos submetidos.

Com os alicerces aqui demonstrados neste crítico cenário, a indústria das notícias falsas ganha força, pois atinge pessoas que não possuem nível educacional suficiente para discernir a fidedignidade das informações que se apresentam diante dela, seja essa notícia reproduzida através de um áudio, vídeo ou texto escrito, e que em estado de ignorância sobre um tema, acabam reproduzindo, multiplicando seu alcance, não somente em razão da multiplicidade de aparelhos tecnológicos, mas também em razão da evolução dos aplicativos que propiciam botões e ferramentas de compartilhamento cada vez mais práticas dando dinamicidade para disseminar todo e qualquer tipo de conteúdo.

Uma armadilha só consegue capturar sua presa caso esta demonstre vulnerabilidade. Os artifícios maliciosos das notícias falsas tem a precípua intenção de ludibriar grande parte da população que não possui condições intelectuais significativas para resistir à naturalidade das ilusões deste ardil.


CONCLUSÃO


Para que as notícias falsas não ganhem corpo e não se multipliquem, fortalecendo assim a indústria que estamos vivenciando, pouco se pode esperar de efetivo em políticas que coíbam a  investigação e propagação destas. Muito se deve depositar de esperança no investimento na educação como única ferramenta de transformação eficaz de uma sociedade que padece dos males do desinteresse pela educação.

 

REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICAS

 

Human Development Report 2016. ONU. Disponivel em:

. Acesso em 24/10/2018.

 

INAF BRASIL 2018, Resultados preliminares. Instituto Paula Montenegro. Disponível em:

. Acesso em 24/10/2018.

 

Programme for international student assessment. The Organisation for Economic Co-operation and Development. Disponivel em:

. Acesso em 24/10/2018.

 

SANTOS, Antonio Jeová. DANO MORAL NA INTERNET. São Paulo: Método, 2001.

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