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 Sala dos Doutrinadores - Monografias
Autoria:

João Marcel Araujo De Souza


Acadêmico do curso de Direito da Faculdade AGES, Paripiranga/BA.
Monografias Outros Cidadania

VIOLÊNCIA SOCIAL BRASILEIRA

Esta pesquisa tem a importância de nos levar a entender que a violência não é apenas um problema do opressor e oprimido. Mas, sim um problema de toda a sociedade que deve está informada de forma precisa e esclarecedora sobre o assunto.

Texto enviado ao JurisWay em 30/04/2011.

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VIOLÊNCIA SOCIAL BRASILEIRA

                                                                                       João Marcel Araujo de Souza

RESUMO

  

A violência no Brasil é vinda já da sua colonização, sendo que com o passar do tempo foi adquirindo diferentes facetas. O ser humano é movido por emoções e dependendo das situações ou da própria ação pode deixar aflorar o sentimento de vingança ou até mesmo de desrespeito para com o seu semelhante. Sem poder se defender, as pessoas acabam reféns da falta de segurança e prisioneiras do medo. É comum ouvir-se relatos de que crimes são cometidos por pessoas que não tem situação econômica estável, e que o desemprego e a falta de estudo são os principais motivos da violência no Brasil. Em contraponto a esse pensamento têm-se conhecimento de comunidades rurais desprovidas até mesmo de alimento, no entanto, não são comuns os atos de violência como nas populações urbanas. Sendo assim, a violência só pode ser entendida de forma melhor se for levado em consideração uma série de fatores que podem vir a gerar essa violência assustadora que vivemos a presenciar. As diferenças sociais presentes no Brasil precisam urgentemente ser levadas em consideração, pois estão contribuindo fortemente para a violência. A inoperância das políticas públicas é visível, está nas manchetes dos jornais, quando aplica recursos inexpressivos e negligencia a reforma do setor da justiça e a crise no sistema prisional.

 

Palavras-chave: Violência, desigualdade social, políticas públicas.

 

1 INTRODUÇÃO

 

 

A violência urbana no Brasil é um dos problemas sociais mais sérios. Vive-se com medo, tentando se proteger de tudo e de todos. Constantemente o cidadão é vitima de assaltos, agressões físicas, assassinatos, seqüestros e tantos outros exemplos de violências.  

A violência está enraizada na história de nosso país desde a colonização. E até o momento, não houve medidas, o bastante suficientes por parte do poder público para modificar esta situação.

Constantemente se acusa a pobreza e a miséria como responsável por isto. Esquecendo-se que a desigualdade social põe grande parcela da população, a margem dos direitos básicos: saúde, moradia, segurança e educação de qualidade, enquanto que, o restante da população, que é a minoria, detém a riqueza do país.

Compreender e discutir tais fatos é o objetivo desta pesquisa. A questão da violência no Brasil, mais de perto a violência nos centros urbanos, vem ao longo dos tempos se tornando inevitável. Esse fato nos levou a buscar alternativas, através de pesquisas para entender os possíveis fenômenos que podem contribuir para o avanço da violência urbana. E ao mesmo tempo compreender porque as ações do Estado ainda não mostram eficácia em atender os anseios básicos da sociedade.

A realização de pesquisas desse tipo é importante porque nos leva a entender que a violência não é apenas um problema do opressor e oprimido. Mas, sim um problema de toda a sociedade que deve está informada de forma precisa e esclarecedora sobre o assunto.

Quando somos bem informados adquirimos embasamento para discutir e tomar parte em ações benéficas, participando efetivamente de seguimentos sociais que façam frente aos órgãos públicos e cobrem atitudes que contribuam para a diminuição da violência urbana.

 

 

2. O QUE É VIOLÊNCIA URBANA?

 

Neste primeiro capítulo, abordar-se-á com mais profundidade o que é violência, dando ênfase, em especial, a violência urbana, como ela transcorreu no passado e presente do país e como afeta a vida do cidadão.

Violência urbana é uma expressão utilizada para definir um fenômeno da sociedade de comportamento agressor e transgressor ocorrido no convívio da sociedade urbana.

Ela não compreende apenas os crimes, mas todos os atos que interferem nas regras de bom convívio entre as pessoas.

Como revalida o Doutor em Sociologia Michel Misse ao afirmar que:

 

A violência urbana diz respeito a uma multiplicidade de eventos (que nem sempre apontam para o significado mais forte da expressão violência) que parecem vinculados ao modo de vida das grandes metrópoles na modernidade. Esses eventos podem reunir, na mesma denominação geral, motivações muito distintas, desde vandalismos, desordens públicas, motins e saques até ações criminosas individuais de diferentes tipos, inclusive as não-intencionais como as provocadas por negligência ou consumo excessivo de álcool ou outras drogas. Além disso, a expressão violência urbana tenta dar um significado mais sociológico e menos criminal a esses eventos, interligando-os a causas mais complexas e a motivações muito variadas, numa abordagem que preconiza a necessidade de não desvincular esses eventos da complexidade de estilos de vida e situações existentes numa grande metrópole.[1]



Esse tipo de violência tem uma forte presença em países que demonstram um mau funcionamento nos principais controles da nação como, controles políticos, sociais, e jurídicos.

 Em países portadores destes males, de profundas desigualdades sociais, fragilidades nas suas instituições, desigualdades econômicas, terão com freqüência a ocorrência de crimes graves, tráfico de drogas, troca de tiros, assaltos, linchamentos, etc. Sem falar também dos desrespeitos com relação às normas impostas pelo Estado.

 

 

2.1 Passado e presente da violência no Brasil

 

 

No começo a sociedade brasileira era posta sobre um regime monárquico, após deixar de ser colônia portuguesa, tendo como principais fontes socioeconômicas a monocultura, a agropecuária e exportação de produtos primários.

 

Este era um período em que, segundo Adorno (p. 84, 2002), a sociedade era constituída “em torno do parentesco, mescla de interesses matérias e morais, da indiferenciação entre as fronteiras dos negócios públicos e dos interesses privados (...)“.

Em nossa sociedade, desde meados de 1822, quando foi declarada a conquista da Independência brasileira, era comum uma enorme estabilidade das fronteiras hierárquicas entre herdeiros originados de colonizadores portugueses, homens livres, populações de origem indígena, negros escravizados e brancos.

A estrutura do poder era responsável pela negação dos direitos da maioria da população. Como no caso das atrocidades cometidas contra o índio, que era o verdadeiro dono das terras brasileiras, causando quase o total extermínio destes, durante a colonização, e contra os negros, que eram retirados de sua terra natal, aprisionados e escravizados para o “bem” dos latifundiários.

No Brasil, a edificação do Estado Nacional foi feita a partir da apropriação de terras, do genocídio de índios, da expansão de fronteiras, da escravização de negros, do empobrecimento do povo e da exploração de trabalhadores rurais. Todos esses fatos relacionados à violência.

De acordo com Adorno (p.86, 2002) entre os anos de 1880 e 1930, a sociedade brasileira abandona suas funções agrário-exportadoras e entra na era da industrialização. Com o embarque na formação da moderna sociedade de classes, sem falar da constituição do proletariado urbano.

Aprofundaram-se as desigualdades, a polarização social acentua-se, o que incentiva as revoltas no campo e estimula greves nas cidades industriais. Momentos cercados por atos violentos.

Nas décadas de 60 e 70, o Brasil foi marcado por um regime totalitário, que segundo Lima e Paula (p.56, 2006), representou um período de graves violações dos direitos humanos, o que incluía torturas, execuções, desaparecimentos, restrições a liberdade de expressão e associação e a liberdade sindical. O governo intensificava a repressão política e eram constantes os enfrentamentos armados de resistência ao regime.

Este foi um dos períodos mais negros do nosso país, onde a violência era empregada contra a população sob o poder do Estado. Estado esse que tinha até então, como uma de suas funções proteger a população.

Na década de 80, com a união de entidades como a Comissão Justiça e Paz, a Ordem dos Advogados, a Associação Brasileira de Imprensa e os movimentos sindicais e populares que apoiaram a fundação de novos partidos, que de acordo com Lima e Paula (p.56, 2006), possibilitou mobilizar a população no movimento por diretas para presidente em 1983-84, derrotando o regime militar e devolvendo o poder a um governo civil.

Entretanto, como afirma Lima e Paula (p.57, 2006), as práticas, técnicas e experiências de repressão políticas utilizadas durantes os 20 anos de regime autoritário, continuaram a ser adotadas pela polícia e forças armadas na repressão ao crime e delinqüência juvenil.

É curioso, mas nesta fase de democracia percebemos grandes mudanças nos setores da economia, saúde, educação e promoção social, mas não observamos o mesmo nos setores da segurança pública.  

O crime organizado e a violência crescem assustadoramente, como no exemplo das “mais de 100 horas de pânico” vividas em São Paulo, decorrente dos atentados do Primeiro Comando da Capital (PCC) num total de 293, com um saldo de 152 mortos entre policiais, criminosos e cidadãos comuns.[2]

A sociedade brasileira vem experimentando, de acordo com Adorno (p.88, 2002), quatro tendências: o crescimento da delinqüência urbana e de homicídios; a emergência da criminalidade organizada; graves violações dos direitos humanos; e a explosão de conflitos nas relações intersubjetivas.

O que nos põe em situação de alerta, mas como reverter esse quadro tão assustador? Principalmente, com um sistema de segurança pública tão falho, onde parte do efetivo policial acaba colaborando com os criminosos, em benefício próprio?

 

2.2 Como a Violência Urbana afeta a vida do cidadão?

 

 

A criminalidade atual virou de certa forma uma epidemia, afetando todas as pessoas, a violência atinge vítimas de todas as faixas etárias e classes sociais. Afetando o cidadão de diversas formas tanto fisicamente, mentalmente quanto financeiramente.

Há casos como o de um comerciante que chegou a investir cerca de R$ 18.000,00 em segurança, mesmo assim com o enorme investimento no sofisticado sistema de segurança, ele ainda foi vítima de assalto ao sair do trabalho.[3]

De acordo com Transferetti (p.14, 2002), 40 mil pessoas por ano têm suas vidas encarceradas, e o país possui um exército de mais de um milhão de vigilantes. “É o homem vigiando o homem! Estamos vivendo, como afirmou Thomas Hobbes, a era do ‘homem lobo do homem’? De um lado, poucos com a certeza do bem-estar, e a ampla maioria, apenas continuam presentes em nosso cotidiano.” Perseguido

 

De 2000 a 2005, conforme a pesquisa divulgada pelo Centro de Estudos de Segurança e Cidadania da Universidade Candido Mendes, as três delegacias de Nova Iguaçu — 52DP (Centro), 56 DP (Comendador Soares) e 58 DP (Posse) — registraram ao todo 2.913 homicídios dolosos; 8.328 roubos de veículos; 3.976 furtos de automóveis; 4.643 roubos a transeunte; 1.166 roubos em coletivos; 406 roubos a residências e 18.230 lesões corporais dolosas. [4]

 

O resultado anual de homicídios no Brasil chega a se comparar ao número de vítimas em uma guerra civil. Estudos da Fundação Getulio Vargas (FGV) e do Banco Interamericano de Desenvolvimento[5] estimam que os prejuízos com a violência atinjam cerca de 10% no PIB, isso chega a atingir algo em torno de 130 bilhões. Provocando um enorme prejuízo para a sociedade, desfavorecendo a geração de empregos, produtividade e consumo, apenas beneficiando a expansão dos serviços especializados em segurança.

Segundo Lima e Paula (p.103, 2006), o número de mortos por homicídios no Brasil vem apresentando um crescimento bastante expressivo, de acordo com o Sistema de Informações sobre Mortalidade do Ministério da Saúde (SIM/MS) em 1979 foi registrado um total de 11.194 óbitos por homicídios. Já em 2003 este número cresceu para 51.043, demonstrando um crescimento relativo de 356%. Sendo que a maioria das vitimas são jovens entre 15 e 39 anos.

O crime organizado é uma das principais causas da violência urbana no Brasil, também prejudicando o Estado, pois os custos usados na construção e manutenção de infra-estrutura penitenciaria, serviços de apoio a vítimas, entre outros, são retirados de recursos de saneamento básico, da saúde, da educação, e outros.

Outro setor bastante prejudicado é o turismo brasileiro, com um enorme potencial gerador de empregos e entrada de divisas no país. Constantemente os turistas estrangeiros, por ostentarem jóias e riqueza, são vítimas de assaltos e em alguns casos também são assassinados.

Parece que estamos em uma terra sem lei, onde a lei se funda no emprego da força física e por isso as pessoas reagem. De acordo com Lima e Paula (pp.153-154 2006) reagem fechando-se em casa, protegendo-se com grades e muros e sistemas de segurança pessoal. Procuram andar acompanhadas, evitando lugares perigosos e ignoram os desconhecidos. O individualismo é exacerbado, as pessoas não se sentem estimuladas a ajudar alguém em situação de risco. Na periferia das grandes cidades este cenário é mais grave. A segurança privada é fornecida pelos “poderosos” locais em troca do silêncio, cumplicidade e complacência para com as regras firmadas por estes “poderosos”.

Por conta da violência urbana, o cidadão é muito penalizado já que perde sua liberdade, e vive com constante medo do que pode vir a acontecer. Se será vítima de um assalto, agressão física, seqüestro, assassinato e outras violências. Vive como prisioneiro de sua casa e de seus temores.

 

 

3 POSSÍVEIS CAUSAS RESPONSÁVEIS PELA VIOLÊNCIA URBANA

 

 

O problema da violência está relacionado de certa forma a super população e a má distribuição de renda, típica do sistema capitalista, sem falar também da existente falha política interna, considerando-se que faltam políticas públicas eficazes. Não esquecendo a impunidade que influencia na falta de respeito e produz o sentimento de vingança entre as pessoas.

Como vem revalidar Dutra (p.102, 2005) ao afirma que:

 

No Brasil, a principal “ação errada”, que antecede a violência é o desrespeito. O desrespeito é conseqüente das injustiças e afronta­mentos, sejam sociais, sejam econômicos, sejam de relacionamentos conjugais, etc. A irreverência e o excesso de liberdades (libertinagens, estimuladas principalmente pela TV), também produzem desrespeito. E, o desres­peito, produz desejos de vingança que se transformam em violências.

 

 

Nos últimos anos a sociedade brasileira foi classificada como uma das mais violentas sociedades do mundo, tendo hoje um enorme grau de violência urbana como, por exemplo, extermínios, assaltos, seqüestros entre vários outros.

Porém a pobreza não é a principal causa da violência, de maneira alguma, pois, se fosse assim, com certeza, em áreas onde há extremos índices de pobreza, como no sertão nordestino, não apresentariam índices baixos de violência, ao contrário das grandes cidades.

Provavelmente, o país estaria em uma situação catastrófica se toda a população pertencente à linha de pobreza começasse a cometer crimes.

 

 

3.1 Diferenças sócio-econômicas

 

 

A explosão assustadora de violência que se abateu sobre São Paulo, em maio, com os atentados promovidos pelos membros do PCC, e que, cada vez mais faz parte do cotidiano dos grandes centros urbanos brasileiros, basta por si só, para mostrar que não é só a falta de recursos ou a ineficiência das políticas públicas na área de segurança que são responsáveis por tanta violência.

Há algo mais sério e profundo, o crescimento da desigualdade social e a vergonhosa concentração de renda, em poder de uma minoria, promovem um cenário de acentuada violência. 

 

As maiores vítimas das violências e homicídios não são os ricos, mas os pobres e excluídos. Os privilegiados economicamente sempre podem contratar seguranças particulares, encerrar-se em condomínios de luxo protegidos ou transferir a família para Miami (...) [6]

 

 

Na sociedade brasileira é visível a desigualdade social e econômica, que é bastante acentuada pela televisão. A televisão é a responsável pela enorme indução de desejos nas pessoas, proporcionando-as diversos sonhos de consumo, por exemplo, vestuários, veículos, utensílios, etc. Sendo que, muitas destas coisas encontram-se fora do alcance de uma grande parcela da população brasileira.

Fundamentadas em pesquisas Cárdia e Schiffer[7] afirmam “que a desigualdade no acesso a direitos alimenta a violência”. Geralmente as comunidades mais afetadas pela violência têm em comum a “superposição de carências”.

A ilegalidade no Brasil, não para de ser potencializada através do desemprego e pela ausência de renda.

O crime organizado utiliza-se dos excluídos para manter e ampliar suas ações ilegais, ocupando o lugar do Estado nas favelas, criando seus exércitos e suas leis que protegem o tráfico. Como vem corroborar Soares no Seminário Nacional Sobre Violência Urbana e Segurança Pública [8] ao afirmar que:

 

(...)o tráfico opera no recrutamento de jovens, jovens excluídos, jovens pobres, sobretudo do sexo masculino. Trata-se de rapazes sem perspectivas de integração ao mercado de trabalho, sem esperança (...). Quando o tráfico oferece ao menino uma arma, dá a ele não apenas um instrumento de operação econômica, mas um instrumento de constituição subjetiva de afirmação de si mesmo, de recuperação da sua visibilidade, de imposição de sua presença social. Esse menino pobre das metrópoles brasileiras, em geral negro, que não encontrou acolhimento na estrutura familiar(...)não foi acolhido pela escola ou pela comunidade. A sociedade passa por ele como se fosse transparente(...) No entanto, quando porta uma arma, esse não-ser adquire presença, torna-se capaz de paralisar o seu interlocutor pelo medo, de fazer com que o transeunte pare na frente dele, reconhecendo-o, afinal de contas, como um sujeito.(...) A sua vida será breve, terminará aos 24, 25 anos, mas, enquanto viver, não será mais invisível. (...) Se o Poder Público dispuser-se, portanto, a enfrentar o problema da cooptação dos jovens pelo tráfico, terá de oferecer-lhes ícones de auto-estima pelo menos equivalentes à satisfação pela posse de uma arma. Este é o desafio.

 

 

A sociedade brasileira está dividida em massas miseráveis e em oligarquias riquíssimas, e com o incentivo da televisão, sobre este fato, é presente um número enorme de frustrações entre as pessoas.

O Brasil recebe o título de uma das sociedades mais desiguais do mundo, pela razão de se encontrar um índice extremo de miséria e riqueza. Isso pode ocasionar e gerar muitos roubos. Como vem corroborar Chesnais (2006):

 

A sociedade brasileira é uma das mais desiguais, uma das mais estratificadas que existem. Aqui se encontra a mais extrema pobreza ao lado da mais fabulosa riqueza. Continua sendo o país dos privilégios, pois a recessão econômica diminuiu a mobilidade social. O excesso de riqueza ostentada é vivido por muitos como uma provocação, daí a tentação do roubo e do dinheiro fácil.[9]

 

 

Esses fatores podem chegar a levar o necessitado de dinheiro e prazer a causar roubos.

Hoje em dia a violência não é mais um ato de violência de um indivíduo sobre outro, a violência é o resultado de um sistema social que proporciona oportunidades, mas não permitindo igualdade entre seus membros.

A violência urbana é ainda maior quando observamos e consideramos os aspectos econômicos, relacionados ao acesso às oportunidades de ação social, à saúde, à escola e aos fatores relacionados com os benefícios do desenvolvimento.

A sociedade brasileira vive em dois extremos espantosamente diferentes. Em um censo realizado pelo IBGE[10] no ano de 2000, foi apresentada uma diferença estúpida entre os salários de um cidadão com relação ao outro, foi apontado que cerca de ¼ (um quarto) dos cidadãos do país recebe cerca de um salário mínimo, 51,9% possuía uma renda que equivalia a dois salários mínimos e uma minoria de 2,6% trabalhadores eram responsáveis por uma renda de mais de vinte salários mínimos por mês.

 Estudos[11] também foram responsáveis por identificar que com certeza o aumento da criminalidade no Brasil é resultado de falta de recursos financeiros, a medida que o desemprego aumenta na sociedade, também cresce os índices de homicídios. Quanto mais a renda cai mais a criminalidade sobe.

 

 

3.2 A ineficácia do Estado na prevenção e repressão da Violência.

 

 

O problema da violência no Brasil, geralmente só chama atenção dos governantes quando ultrapassa as grades e muros da classe média e da zona sul. Logo a mídia e as elites mostram-se indignadas, exigindo uma mudança urgente. Enquanto está confinada nos bairros da periferia e favelas, se ignora o problema como se fosse algo aceitável, afinal associa-se com freqüência a violência à pobreza e miséria.

A falta de conduta governamental digna levou o país, através dos séculos, ao desrespeito total quando se trata das classes sociais não abastadas economicamente.

A administração pública, de acordo com Lima e Paula (p.26, 2006), vem a décadas negligenciando a reforma do setor da justiça e a crise no sistema prisional. As ações realizadas têm sido basicamente reativas, inadequadas e lentas.

Lima e Paula (pp.26-27, 2006) também relatam que desde 1985 até 2002,  houve uma média de um titular por ano na pasta do Ministério da Justiça, tendo tradicionalmente uma função política. Além do que poucos Ministros mantiveram-se no cargo. O sistema prisional também tem sido alvo de baixos investimentos federais, o que dificulta a aplicação de ações corretas e eficientes de repressão à violência.

A inoperância do Estado em relação a oferecer ao cidadão condições de conviver sem violência é incontestável no país, como vem corroborar Adorno (pp.102-102, 2002), afirmando que:

 

Não são poucos os estudos que reconhecem incapacidade do sistema de justiça criminal – agências policiais, Ministério Público, tribunais de justiça e sistema penitenciário – em conter o crime e a violência nos marcos do Estado democrático de direito. O crime cresceu e mudou de qualidade, porém o sistema de justiça permaneceu operando como o fazia há três ou quatro décadas atrás. Em outras palavras, aumentou sobremodo o fosso entre a evolução da criminalidade e da violência e a capacidade de o Estado impor lei e ordem. Os sintomas mais visíveis deste cenário são as dificuldades e desafios enfrentados pelo poder público em suas tarefas constitucionais de deter o monopólio estatal da violência, sintomas representados pela sucessão de rebeliões nas prisões, grande parte dessas ocorrências organizadas de dentro das prisões por dirigentes do crime organizado como o Comando Vermelho e Terceiro Comando, no Rio de Janeiro e o Primeiro Comando da Capital, em São Paulo(...)

 

A questão da segurança pública é muito mais séria e ampla, ela inclui políticas, como por exemplo: de desenvolvimento urbano ordenado e manutenção do homem no campo. Agravando-se quando não há políticas públicas que objetivam a saúde, moradia, educação e emprego.

 O descumprimento de políticas essenciais para a sociedade de baixa renda acarreta em enormes prejuízos para o próprio Estado.

Há exemplos de projetos como os Centros de Integração da Cidadania (CICs), aplicado em São Paulo, que consistia segundo Lima e Paula (pp.139-148, 2006) numa proposta de reforma de prestação dos serviços de segurança e justiça, que permitia o trabalho em conjunto de diversos órgãos no sentido de resolver conflitos e assegurar a efetividade da cidadania para os envolvidos. Porém esse projeto foi deixado à própria sorte, a mediação policial dos conflitos era realizada através de técnicas arbitrarias e negação do acesso ao sistema judicial, à defesa, à proteção da integridade moral e física e à própria vida.

A mudança de quadros como esse, depende da boa vontade do poder público, dos gestores destes projetos e de capacitação dos profissionais envolvidos.

Como no exemplo do Programa Controle de Homicídios Fica Vivo, aplicado no bairro de Morro das Pedras, em Belo Horizonte, que segundo Lima e Paula (pp.78-86, 2006) envolveu Polícias Militares e Civil, gestores municipais da área de cidadania e assistência social, Ministério Público e organizações não-governamentais. Esse programa apresentou uma redução significativa no número de homicídios entre 2002 e 2005, chegando em alguns semestres a alcançar redução de 50%, além de apresentar efeitos como redução de assaltos. Isto comprova que é possível reverter, ou ao menos amenizar o problema da violência quando se trabalha em conjunto e com seriedade.

Portanto, o Estado não pode se ausentar do dever de assistir as pessoas com ações sócias necessárias de inclusão, que contribuam de forma eficaz na prevenção da violência.

Quando não se toma medidas precisas a situação chega ao caos total,  gerando todo esse sentimento de medo alarmante, de falta de segurança que quase sempre é causada pela impunidade e falta de ações mais positivas do Estado.

 

4 CONCLUSÃO

 

 

A sociedade brasileira cada vez mais, vem sofrendo com a violência urbana. O constante descaso do Poder Público, ineficiência do setor prisional e as desigualdades sociais só vêm agravar este quadro.

O cidadão vive com medo, tentando se proteger de tudo e de todos, como se todos fossem inimigos.

Com a realização desta pesquisa pôde se concluir que não é a pobreza e a miséria responsável pela violência, mas sim as desigualdades sociais. A maioria da população vive em situação de descaso, sem direito a saúde, moradia, alimentação e segurança de qualidade. Enquanto a minoria detém a riqueza do país nas mãos, desfrutando de tudo que a maioria da população só vê na televisão. É inevitável que alguns destes excluídos reajam de maneira violenta tentando obter alguma compensação ou apenas se vingando de tanto descaso.

Além disto, o descaso do Poder Público e a negligencia quanto à reforma do setor da justiça e a crise no sistema prisional vem agravar ainda mais esta situação. O descumprimento de políticas essenciais para a sociedade de baixa renda possibilita o crescimento do poder do crime organizado, que aos poucos, vem tomando o lugar do Estado nas periferias e favelas.

Portanto, o Estado não pode se ausentar do dever de assistir as pessoas  com ações sócias necessárias de inclusão, e de uma Segurança Pública e Poder Judiciário mais eficaz e de qualidade, o que com certeza contribuirá de forma eficaz na prevenção da violência.

 

 

 

 

 

REFERÊNCIAS

 

 

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[1] http://www.unicrio.org.br/textos/dialogo/michel_misse.htm

[2] CARNEIRO, Marcelo e PEREIRA, Camila. Terror em São Paulo.in Veja, n.20, pp.42-48, 2006

[3] http://www.ucamcesec.com.br/md_mt_texto.php?cod_proj=61

[4] http://www.ucamcesec.com.br/md_mt_texto.php?cod_proj=61

[5] http://www.serasa.com.br/guiacontraviolencia/violencia_custos.htm

[6] http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0102-88391999000400002

[7] http://www.direitos.org.br/index.php?option=com_remository&Itemid=99&func=fileinfo&id=62

[8] http://www.camara.gov.br/internet/comissao/index/perm/cdui/SVUSP.htm 

[9] http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1413-1231999000100005

[10] http://www.puc-campinas.edu.br/centros/clc/jornalismo/revista/Jornv5n1/jorn01A.pdf

[11] http://www.puc-campinas.edu.br/centros/clc/jornalismo/revista/Jornv5n1/jorn01A.pdf

 

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